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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Outfest: A Preservação Audiovisual do Legado LGBTQ



Não sendo a primeira vez que, neste espaço, se escreve sobre a missão e as actividades do Outfest UCLA Legacy Project, não se afigura redundante salientar o importante trabalho que a organização tem desempenhado, ao longo de mais de uma década, para a preservação e restauro do património fílmico dedicado à temática LGBTQ.

Nesse âmbito, constata-se, com particular comprazimento, que o Outfest UCLA Legacy Project é "proprietário" de mais 41 mil elementos fílmicos (desde cópias em 16mm até a ficheiros digitais compilados em DVD, num rol que pode ser consultado no site oficial da organização) e de como tem desenvolvido, paralelamente, um sério e empenhado programa de restauros de obras cinematográficas — algumas das quais já consideradas de importância histórica, cultural e artística pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América.



De ANDERS ALS DIE ANDERN (de Richard Oswald, naquele que foi, em 1919, um dos primeiros filmes a retratar a homossexualidade sem estereótipos nem ofensa) ao influente PARIS IS BURNING (documentário de 1990, sobre a comunidade LGBT da Nova Iorque dos anos 80, realizado por Jennie Livingston), a lista, agora divulgada em pormenor, de títulos restaurados pelo Outfest UCLA Legacy Project revela um contínuo e privilegiado trabalho no sentido de mitigar preconceito e discriminação nas sociedades contemporâneas.

[Fonte: Outfest UCLA Legacy Project].
[Imagem: Fotograma de Ron and Chuck in Disneyland Discovery (1969, Pat Rocco) / Bizarre Productions].

sábado, 9 de novembro de 2019

Filmes Restaurados: MY TWENTIETH CENTURY (1989, Ildikó Enyedi)



Trailer para a versão restaurada de MY TWENTIETH CENTURY, um original e irreverente "conto de fadas" realizado por Ildikó Enyedi em mil novecentos e oitenta e nove.



Restauro em resolução 4K, a partir do negativo original em 35mm do filme, pelo Hungarian Filmlab com supervisão do Hungarian National Film Archive.

[Fonte e Imagem: Kino Lorber].

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Filmes Restaurados: THE DOORS — THE FINAL CUT (1991, Oliver Stone)



Trailer para a versão restaurada de THE DOORS, biopic musical realizado por Oliver Stone em mil novecentos e noventa e um.



"This brand new 4K restoration of THE DOORS in Dolby Atmos will provide far greater overall clarity and dimension for the audience. During the many concert sequences, the sound now fills the auditorium above the audience, behind it, and all points in between. I wanted the film to be as immersive as possible to a real 60s Doors experience. Additionally, I've made one cut of 3 minutes to a scene I thought was superfluous to the ending, which helps close out the film in a more powerful way."

Restauro e final cut em 4K, supervisionados pelo próprio Oliver Stone, pela FotoKem em colaboração com a L'Immagine Ritrovata, a partir do negativo original em 35mm (Eastman) do filme.

[Fontes: StudiocanalUK / Blu-ray.com].
[Imagem: Bill Graham Films / Carolco Pictures / Imagine Entertainment / Ixtlan].

quinta-feira, 18 de julho de 2019

O Arquivo do Dia #290 — "Dossier Apollo 11": O Restauro do 'Moonwalk'



Tendo em conta o interesse universal e êxito inédito da missão, o facto de a NASA não conhecer o paradeiro dos suportes fílmicos originais do momento essencial da Apollo 11 — leia-se, o "passeio lunar" de Neil Armstrong e Buzz Aldrin — é um dos seus aspectos mais misteriosos e desconhecidos. Denominada por "The Lost Apollo 11 Tapes" pela comunidade histórica, e admitida em pormenor pela NASA, esta manifesta perda das matrizes originais (ou seja, o vídeo e áudio transmitidos pelo módulo lunar e gravados no Johnson Space Center) da Chegada do Homem à Lua assume-se, hoje em dia, como uma das maiores lacunas, do ponto de vista arquivístico, para a inscrição na íntegra da viagem da Apollo 11.

Daquele momento histórico, subsistiram as gravações das emissões de televisão, o registo de uma transmissão televisiva capturado em película de 8mm e um conjunto de cinescópios guardados no National Archives, num conjunto de materiais que permitiu o restauro audiovisual, pela NASA, do 'Moonwalk' de Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Em parceria com a produtora Lowry Digital, o resultado desse trabalho, um filme de três horas e divulgado em dois mil e nove, restitui a visibilidade, do modo mais cristalino possível, de um acontecimento acompanhado por milhões de telespectadores no dia vinte de Julho de mil novecentos e sessenta e nove.



[Fonte: National Aeronautics and Space Administration (NASA)].
[Imagem: Lowry Digital / National Aeronautics and Space Administration (NASA)].

terça-feira, 25 de junho de 2019

O Arquivo do Dia #278 — O Restauro do "Rapaz da Bicicleta"



Produzido em mil novecentos e setenta e três para a marca britânica Hovis Bread, BOY ON THE BIKE revelou-se uma das incursões mais memoráveis de Ridley Scott pelo universo da publicidade, sendo considerado, por toda uma geração, como o spot mais emblemático da televisão do Reino Unido na década de setenta.

Com cerca de quarenta segundos de duração, BOY ON THE BIKE foi, recentemente, alvo de restauro fílmico pelo British Film Institute, num produto final, que o Arquivo de hoje destaca, capaz de preservar toda a simplicidade da calorosa mensagem do filme original.



[Fontes: Hovis Bread / British Film Institute / Ridley Scott Associates].
[Imagem: Adweek].

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Uma Nova Vida Para o "Vídeo Musical"



A Universal Music Group e o YouTube Music anunciaram uma parceria para o restauro e digitalização de mais de mil videoclips, numa iniciativa que permitirá adaptar esses trabalhos — de artistas como Billy Idol, Janet Jackson, Nirvana, Spice Girls, Lady Gaga, Tom Petty, Boyz II Men ou Lionel Richie — para os moldes, exigências e alta definição da difusão audiovisual contemporânea.

Todos os detalhes, e exemplos do resultado final dessa remasterização, para ler na íntegra via The New York Times.

[Fonte e Imagem: Universal Music GroupCredit / The New York Times].

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Filmes Restaurados: THE QUEEN (1968, Frank Simon)



Trailer para a versão restaurada de THE QUEEN, filme documental sobre o concurso de drag queens Miss All-American Camp Beauty Pageant, de mil novecentos e sessenta e sete, realizado por Frank Simon.



"As a documentary, crowning the final days of the 1967 Miss All-America Camp Beauty Pageant — judges and other notable names that year included Andy Warhol, Edie Sedgwick, and Mario Montez — it showed gay men being themselves in a verite style of documentation and won attention along the way, screening during the prestigous Cannes Film Festival in France."

Restauro em 4K, pela Kino Lorber, a partir dos negativos originais em 16mm (Kodachrome) do filme.

[Fontes: Kino Lorber / Out].
[Imagem: MDH / Si Litvinoff Film Production / Vineyard / Kino Lorber].

quarta-feira, 12 de junho de 2019

ABC IN SOUND: Redescoberto Filme Experimental de László Moholy-Nagy, Artista e Professor da Bauhaus



Realizado em mil novecentos e trinta e três por László Moholy-Nagy, pintor e fotógrafo húngaro que também leccionou na Escola de Arte Bauhaus, ABC IN SOUND é um filme experimental, construído a partir do registo fotográfico de uma banda sonora óptica que pretendia demonstrar, assim, as diferenças de modulação causadas pela manipulação arbitrária da própria fita sonora. Embora tenha sido exibido por várias vezes na London Film Society ao longo dos anos trinta, o filme esteve classificado como desaparecido durante mais de oito décadas.

Naquela que será, no âmbito das artes cinematográficas, uma das notícias mais importantes do ano, o British Film Institute anunciou a redescoberta, nos seus arquivos, de uma cópia de ABC IN SOUND. Alvo de restauro em resolução 4K, a curta-metragem conhecerá estreia mundial no canal de YouTube daquela instituição a partir do próximo dia dezoito de Junho.

Segundo o press release do BFI, os factos relativos a esta redescoberta têm o seu próprio cariz de extraordinário: "The original nitrate reel was spliced to a copy of Oskar Fischinger’s Early Experiments in Hand Drawn Sound for a screening programme at the London Film Society in 1936. The highly influential London Film Society (1925-1939), run by a group of active young cineastes with backgrounds in journalism, film business and the intelligentsia, was the first significant organisation to screen films outside of an immediately commercial context. (...) The society promised to encourage the production of artistic films such as these experimental works by Moholy-Nagy and Fischinger, pushing the boundaries of sound and vision, blurring the lines between film and art. In the 1920s when it became possible to record sound as an image there was a flurry of bold, beautiful and sometimes bizarre experiments with ‘drawn’ soundtracks on film – images that made sound, and vice versa. The nitrate reel, referred to only as Early Experiments in Hand Drawn Sound with Tönendes ABC/ABC in Sound unknowingly still attached was then acquired by the BFI on 18th May 1951 and duped onto safety film on 29th October 1958. The original nitrate was not retained."

A redescoberta de ABC IN SOUND não só resgata do esquecimento um dos nomes mais influentes no seio das artes experimentais dos anos trinta, como proporciona, para as audiências contemporâneas e historiadores, a análise de um importante contributo em prol da transição do mudo para o sonoro do Cinema.

[Fonte e Imagem: British Film Institute].

terça-feira, 11 de junho de 2019

Filmes Restaurados: DON'T LOOK NOW (1973, Nicolas Roeg)



Trailer para a versão restaurada de DON'T LOOK NOW, clássico britânico de terror realizado por Nicolas Roeg, com Donald Sutherland e Julie Christie.



Restauro em 4K promovido pelo StudioCanal, a partir dos negativos originais do filme, e supervisionado por Anthony B. Richmond, o director de fotografia do filme.

[Fonte e Imagem: Studiocanal UK].

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Arquivo do Dia #269 — Rolling Stones Redescobertos



Realizado por Michael Lindsay-Hogg para a BBC, em mil novecentos e sessenta e oito, THE ROLLING STONES ROCK AND ROLL CIRCUS foi um especial televisivo, em formato de concerto ao vivo, onde os Rolling Stones surgiam em palco ao lado de intérpretes como Jethro Tull, the Who, Marianne Faithfull, John Lennon e Yoko Ono, ou Eric Clapton. Por Mick Jagger considerar a performance "desapontante", numa gravação marcada por longas horas de rodagem, conflitos entre os membros da banda (esta foi, aliás, a última vez que Brian Jones surgiu ao lado dos Rolling Stones) e consumo de drogas, a transmissão pública do projecto acabou por ser cancelada.

Considerados perdidos durante décadas, os materiais fílmicos de THE ROLLING STONES ROCK AND ROLL CIRCUS só foram redescobertos nos anos noventa, e comercializados via modestas edições em CD, VHS e Laserdisc. Agora, e após intenso trabalho de restauro digital, o programa pode ser (re)visto numa edição especial lançada em Blu-Ray. No Arquivo de hoje, destacamos a interpretação de You Can't Always Get What You Want, no qual é possível observar um dos pormenores mais característicos daquele especial televisivo: Mick Jagger de olhos fixos na câmara, como se a cantar para o próprio espectador.



[Fontes: BBC / ABKCO Films].
[Imagem: Mark e Colleen Hayward / Redferns / Getty Images / Rolling Stone].

domingo, 28 de abril de 2019

Do Pre-Code aos Documentários Perdidos: Josef Lindner e o Academy Film Archive



Josef Lindner, principal responsável de preservação do Academy Film Archive, discute os desafios da preservação e restauro cinematográficos no seio do cinema norte-americano.

Para escutar, na íntegra, no podcast Cinema Junkie.

[Fontes: KPBS / Cinema Junkie].
[Imagem: Academy Film Archive].

terça-feira, 26 de março de 2019

WANDA (1970, Barbara Loden)



As notas do restauro de WANDA, por Ross Lipman, director do departamento de restauro fílmico no UCLA Film & Television Archive, a propósito da recente edição do filme pela Criterion:

«WANDA’s restoration journey was hence fortunate to encompass both analog and digital editions. The current release retains the Academy aspect ratio and color grading, but has, happily, applied further digital cleanup, eliminating excess dirt and scratches we’d been unable to address in our earlier work.»

Um ensaio sobre preservação e restauro de Cinema — para ler na íntegra no site oficial da Criterion.

[Imagem: Marco Joachim / UCLA Film and Television Archive / The Film Foundation / Criterion Collection].

quarta-feira, 20 de março de 2019

O Arquivo do Dia #233 — A Preservação do Terror Atómico



Desde 2012, uma equipa de investigadores e profissionais de restauro cinematográfico, afecta ao Lawrence Livermore National Laboratory (LLNL), desenvolve a importante e peculiar preservação dos mais de dez mil filmes que, entre 1945 e 1962, registaram centenas de testes nucleares atmosféricos empreendidos pelo exército norte-americano. Nesse labor, e para além da relevância histórica impressa naquelas bobines, tem-se procurado compreender melhor tanto a força destruidora de uma arma nuclear — para além das imagens, existe, ainda, o registo sonoro de uma bomba atómica — como o impacto ambiental, a longo prazo, causado por estes testes.

Do ponto de vista da preservação e restauro fílmico, genuínas "corridas contra a decomposição das matrizes originais", os resultados destes trabalhos (os quais têm sido frequentemente partilhados no canal de YouTube do LLNL) revelam a dimensão dos testes desenvolvidos pelo programa nuclear norte-americano no auge da Guerra Fria, numa imagética cuja visualização, apesar de descerrar "cogumelos atómicos" que se apresentam idênticos em forma e tamanho independentemente do ângulo em que foram captados, suscita um incessante misto de terror e fascínio.

Julho de 1958


Março de 1962


Maio de 1962


[Fontes: Lawrence Livermore National Laboratory].
[Imagem: Peter Kuran / Atom Central / CBS News].

domingo, 17 de março de 2019

Filmes Restaurados: TAKING TIGER MOUNTAIN



Trailer para a versão restaurada, e reeditada, de TAKING TIGER MOUNTAIN (1983, Tom Huckabee e Kent Smith).



Desaparecido de circulação desde a sua modesta e inglória estreia em 1983, a após o tratamento digital das matrizes originais em resolução 4K, os realizadores Tom Huckabee e Kent Smith decidiram revisitar TAKING TIGER MOUNTAIN, um filme protagonizado pelo malogrado Bill Paxton, feito com restos de película em 35mm que sobraram da produção de LENNY e que conhece, em 2019, uma nova vida por intermédio da Etiquette Pictures.

[Fonte: Blu-ray.com].
[Imagem: Etiquette Pictures].
[Vídeo: Tom Huckabee].

terça-feira, 5 de março de 2019

The Ray Manzarek & Jim Morrison Preservation Project



Promovido pela UCLA Film & Television Archive, The Jim Morrison & Ray Manzarek Preservation Project é um trabalho de crowdfunding que visa reunir fundos para o posterior restauro de uma série de obras fílmicas, dos anos 60, que contaram com as participações de Jim Morrison e Ray Manzarek: quando ambos eram estudantes de Cinema e o sucesso internacional dos The Doors encontrava-se, ainda, muito distante.



O site oficial da UCLA tem todos os detalhes do projecto e informações sobre como contribuir.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pedro Costa: "Achei que valia a pena partir do negativo, os resultados são infinitamente melhores"



Pedro Costa: Tu vês uma boa cópia de 35mm, mono, a preto-e-branco na Cinemateca, tens a imagem e o som juntos no ecrã, com um corpo, quase que podíamos dizer 'orgânico'. Agora tens uma imagem [digital] que te salta aos olhos, literalmente, que te ataca, que é muito brilhante, e um som que te rodeia, que te cerca por todos os lados, que é muito aspirado, muito soprado, que tende para os baixos, para os graves, que é um corpo estranho à imagem.

Ricardo Vieira Lisboa, do site À Pala de Walsh, fala com o cineasta Pedro Costa sobre o restauro fílmico de OS VERDES ANOS e MUDAR DE VIDA, de Paulo Rocha. Para ler, na íntegra, no mais recente número da Aniki — Revista Portuguesa da Imagem em Movimento.

[Fonte: Aniki — Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, número 1, Janeiro de 2019].
[Imagem: Midas Filmes].

sábado, 19 de janeiro de 2019

A Febre do Arquivo #2: THEY SHALL NOT GROW OLD (2018, Peter Jackson)



No âmbito do restauro e da preservação das imagens em movimento, a ética em torno dos "dilemas digitais" nestas actividades permanece, de modo aparente, como aspecto relativamente insondado nas diversas dissertações contemporâneas acerca do tema. Consoante os "interesses" e o posicionamento editorial de quem articula sobre este assunto, sobressai a tendência textual e ensaística (por exemplo, no lançamento de uma edição restaurada de um determinado título) de se realçar, sobretudo, os méritos artísticos de uma filmografia ou a sublimação de valores teóricos e académicos.

Existe, porém, e em contextos muito específicos, uma profusa bibliografia subordinada à ética do restauro cinematográfico. Desde os que demonstram eloquente oposição1 à aplicação de métodos digitais no tratamento de suportes analógicos, até às opiniões mais moderadas2 sobre as vantagens de novas tecnologias para a qualidade do produto final, encontra-se consenso na percepção de que, independentemente de uma maior ou menor influência digital, a conservação e o restauro fílmicos deverão assumir, sempre, três deveres fundamentais: a garantia da absoluta preservação dos materiais originais, a perpetuação/reprodução da imagem registada — possibilitando, assim, análises, definições de contexto e interpretações — para as gerações futuras e, consequentemente, um sentido de respeito histórico (ou seja, ausência de qualquer manipulação audiovisual) pelos mecanismos existentes à época da sua produção.



Posto isto, eis o mais recente desafio ético às prerrogativas acima elencadas: a saber, THEY SHALL NOT GROW OLD, documentário realizado por Peter Jackson que, invocando as memórias e vivências do contingente militar britânico no decurso da Primeira Guerra Mundial, "renova" mais de 100 horas de arquivo, actualmente preservadas pelo Imperial War Museum, em função das sensibilidades do espectador contemporâneo e do ensejo de relevar novas linguagens de exposição historiográfica. No caso em concreto, e aos materiais originais, adicionou-se cor, criaram-se efeitos sonoros e o formato fílmico foi ajustado para o padrão dos 24 frames por segundo (nos anos 1910, esse processamento estava na ordem dos 10 a 12 frames por segundo, daí a característica "aceleração" visível nos filmes daquelas eras).

Subjacente a um longo e meticuloso trabalho de restauro cinematográfico, importa salientar as intenções, para o projecto, do Imperial War Museum (a criação de um documentário "único"3), assim como a vontade expressa pelo próprio Peter Jackson de "atravessar as névoas do tempo e trazer estes soldados para o mundo moderno, de forma a recuperarem a sua humanidade – ao invés de meras figuras num arquivo vintage que se movem como as personagens de um filme de Charlie Chaplin"4.



Intenções à parte, é indiscutível afirmar que THEY SHALL NOT GROW OLD revela-se um filme realmente distinto e fascinante, que exibe uma sucessão de imagens impressionantes (e, muitas vezes, inéditas) do quotidiano de conflito e incerteza permanentes, de desespero e de tédio, da genuína dicotomia da vida e da morte, nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Em suma, raramente vimos os soldados da Grande Guerra com semelhante qualidade de resolução, em tão profundo detalhe, num produto final que quase legitima o projecto inteiro.

Por outro lado, e de um ponto de vista inteiramente pessoal, a opção estética assumida em THEY SHALL NOT GROW OLD não contorna a sensação de estarmos perante um elaborado "filme de efeitos visuais", o produto da declarada — e, recorde-se, sancionada pelo Imperial War Museum — manipulação de imagens de arquivo em prol da formação de novos veículos de reflexão histórica. Nesse misto de fascínio e estranheza que o documentário exerce no espectador, logo se compreende que tal sentimento é provocado pelo dilema ético (isto é, o mencionado respeito histórico pelos materiais originais) acarretado por um trabalho de restauro assente no "upgrade tecnológico" de imagens de arquivo centenárias.



Seja pelo hábito adquirido de observar imagens em movimento, das décadas de 1910 e 1920, sem recurso aos retoques adoptados por Peter Jackson, ou por uma confessada reverência pelos processos fílmicos daquela era, certo é que Peter Jackson não me convenceu de que a película de nitrato, a preto e branco e a 12 frames por segundo, deixará de ser uma transposição transparente, concreta e neutra da realidade da Primeira Guerra Mundial.

É seguro concluir que, a nível formal, THEY SHALL NOT GROW OLD tem todo o potencial para revolucionar, consideravelmente, quaisquer produções semelhantes que possam conhecer a "luz da ribalta" nos próximos anos. Muito embora não se trate de uma novidade definitiva (essa dinâmica situa-se a jusante, por exemplo, das polémicas colorizações de títulos rodados a preto e branco5), também não é difícil perceber que, deste lado, este nunca será um conceito com um estatuto do tipo "primeiro estranha-se, depois entranha-se".

Notas:
1 Ver a opinião de Paolo Cherchi Usai em The Death of Cinema: History, Cultural Memory, and the Digital Dark Age (2001, British Film Institute).
2 Conforme argumenta Giovanna Fossati em From Grain to Pixel: The Archival Life of Film in Transition (2009, Amsterdam University Press).
3 Jackson's 'They Shall Not Grow Old' Doc Brings WWI Soldiers To Life in Glorious Color, Forbes (consultado a 16 de Janeiro de 2019).
4 in Prince William attends World Premiere of “They Shall Not Grow Old”, Royal Central (consultado a 16 de Janeiro de 2019).
5 É possível consultar uma lista exaustiva de colorizações em https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_black-and-white_films_that_have_been_colorized.

Imagens: Warner Bros. Pictures / Imperial War Museum

sábado, 15 de dezembro de 2018

Streaming e Preservação: Um Par Improvável



O Síndroma do Vinagre nunca será um espaço dedicado à divulgação e análise das chamadas novas tendências. Pese embora o "panorama tecnológico" que orbita em torno da actividade de conservação cinematográfica — da qual, a figura do restauro digital é o seu principal expoente —, neste blog vive-se, e "respira-se", o elogio do analógico.

Serve esta introdução para, não obstante o posicionamento ora declarado, sublinhar o pertinente trabalho, desenvolvido pelas plataformas de streaming, em prol da preservação e restauro cinematográficos. Neste particular, os tempos recentes têm sido inegavelmente interessantes: na presente década, multiplicaram-se os recursos online, sejam eles gratuitos ou disponibilizados mediante subscrição paga, que oferecem a visualização de obras restauradas — e o facto de as diligências estarem a ser assumidas precisamente por aquelas plataformas revela-se, aqui, como a principal novidade.

Para referência, eis algumas das chancelas que mais se têm distinguido na prossecução de uma manifesta estratégia de restauro de Cinema, com respectiva emissão em streaming:

  • Netflix: o recente trabalho de restauro (e respectiva aquisição dos direitos de exibição) de THE OTHER SIDE OF THE WIND, filme inacabado que Orson Welles rodou ao longo dos anos 70, colocou a plataforma de streaming no mapa das principais instituições dedicadas ao "resgate" de memória cinematográfica. O seu lançamento comercial, em Novembro passado, teve contornos de evento e tem proporcionado a descoberta da obra de Orson Welles junto de novas gerações. No entanto, esta não foi a primeira experiência da Netflix neste campo: presentemente, a plataforma disponibiliza, em território norte-americano, os restauros de filmes como THE DAUGHTER OF DAWN (realizado em 1920, e incluído no National Film Registry em 2013) ou uma versão alargada de A STAR IS BORN (1976, com Barbra Streisand e Kris Kristofferson);
  • byNWR: projecto de estimação do realizador dinamarquês Nicolas Winding Refn, byNWR é uma plataforma gratuita que, em parceria com o site MUBI, disponibiliza todos os meses um filme restaurado — de preferência, pouco conhecido do grande público —, numa iniciativa cujo "slogan" não deixa dúvidas sobre aquilo a que se propõe: "an unadulterated cultural expressway for the arts. It’s there to inspire the youth!". Desde o seu começo, a plataforma já "estreou" obras como THE NEST OF THE CUCKOO BIRDS (1965, Bert Williams), NIGHT TIDE (1961, de Curtis Harrington e com Dennis Hopper) e COTTONPICKIN' CHICKENPICKERS (de 1967, o derradeiro trabalho de Lila Lee, estrela do cinema mudo);
  • The Film Detective: sediado no estado do Massachusetts, o The Film Detective é um serviço online de televisão, especializado no streaming de filmes restaurados (na sua maioria, em domínio público), supervisionado por Philip Hopkins, arquivista e coleccionador de cinema. O acervo do The Film Detective conta com mais de três mil títulos, que vão do Cinema Mudo até às mais obscuras produções televisivas;
  • Criterion Collection: paralelamente à sua actividade de distribuição cinematográfica para home cinema, a Criterion tem disponibilizado desde 2008, e através de diversas parcerias, serviços de video-on-demand na sua página oficial. Após o encerramento do Filmstruck, no passado mês de Novembro, a chancela já anunciou, para o próximo ano, o lançamento de um novo Criterion Channel, que promete continuar a sua aposta no cinema clássico norte-americano, em títulos art-house e retrospectivas de alguns dos nomes mais influentes da Sétima Arte.



Das vantagens da produção acima destacada — abrangente, diversificada e, sobretudo, em inteira conformidade com os padrões estabelecidos para restauro fílmico —, e para além do óbvio contributo destas entidades para a preservação de suportes e imaginários cinematográficos, sobressai o facto de que, hoje em dia, não existe melhor veículo, tampouco mercado, para uma exibição pública de obras restauradas. Nesse sentido, o exemplo anteriormente citado do restauro e "estreia comercial" de THE OTHER SIDE OF THE WIND, pela Netlix, é por demais modelar, e possui todos os contornos de case study para a implementação de uma política pensada, e com futuro, nesta matéria.

Numa época em que o circuito comercial das salas de cinema (com algumas nobres excepções, inclusivamente no nosso país) demonstra parca inclinação para a revisitação e/ou exibição de filmografias que tenham sido alvo de restauro, de que outra forma os espectadores contemporâneos poderiam assistir a um filme nunca estreado, nem sequer concluído, de Orson Welles?



É de concluir, portanto, que as plataformas de streaming revelam-se como uma resposta adequada, e de apreciação consensual, para o conceito da experiência cinematográfica que, inexoravelmente, irá prevalecer nos próximos anos. Além da salvaguarda de práticas clássicas de conservação, digitalização e restauro (abonando, assim, em função da qualidade final do filme restaurado), o trabalho que têm desenrolado possibilita o reconhecimento de uma "plateia", viável e heterogénea, para esta tipologia de produto audiovisual, renova a atenção prestada a estas temáticas e poderá constituir-se, eventualmente, como ponto de partida para o surgimento de novos profissionais dedicados à preservação da Sétima Arte.

Em conclusão, e apesar da minha declarada preferência por métodos analógicos de restauro e exibição de Cinema, não poderei sonegar o claro sentimento de que vivemos, realmente, tempos de interessante optimismo.

Imagens:
1 Observations on film art.
2 Fotograma de THE NEST OF THE CUCKOO BIRDS. @NicolasWR.
3 Trabalho de restauro digital de THE OTHER SIDE OF THE WIND. AIN.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Filmes Restaurados: HIGHWAY PATROLMAN



Trailer para a versão restaurada de HIGHWAY PATROLMAN (1991, Alex Cox).



Restauro em 4K, pela Kino Lorber, e supervisionado pelo realizador Alex Cox.

[Imagem e Vídeo: Kino Lorber].

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O Arquivo do Dia #154 — Frankenstein Restaurado



Fruto da pesquisa e trabalho da Library of Congress, é possível observar o restauro da primeira adaptação cinematográfica do clássico, de Mary Shelley, FRANKENSTEIN. Considerado perdido durante décadas, esta versão, realizada em 1910 por J. Searle Dawley para os Edison Studios, e com Charles Stanton Ogle no papel principal, foi encontrada no acervo de um coleccionador privado, o qual adquiriu uma cópia em nitrato, nos anos 50, sem se aperceber de ter ficado na posse de um filme perdido.

No site da Library of Congress, é possível conhecer todos os pormenores em torno deste restauro, que hoje destacamos, num texto que culmina com a mais espirituosa das observações: "Not long after creating the monster, Victor Frankenstein was consumed with regrets, exclaiming that he "had desired it with an ardor that far exceeded moderation; but now that I had finished, the beauty of the dream vanished, and breathless horror and disgust filled my heart." In our case, however, reanimating this notorious bit of cinema history was, and remains, a delight".



[Fontes: Library of Congress / Slate Culture].
[Imagem: Thomas A. Edison Inc. / Library of Congress].