terça-feira, 19 de junho de 2012

Sessão Especial #4



O Festival de Veneza celebra, no próximo mês de Agosto, 80 anos desde a sua fundação e, no âmbito da programação agora em planeamento, serão exibidas dez raridades cinematográficas (sete longas-metragens e três curtas) que passaram em edições anteriores do certame.

Restauradas pelos laboratórios L'Immagine Ritrovata, da Cinemateca de Bolonha, as cópias dos filmes desta retrospectiva (tanto em 35mm como em formato digital) serão propriedade da organização do Festival de Veneza.

Os filmes seleccionados são:

. THE LAST NIGHT (1936, Yuli Yakovlevich)

Realizado por um dos mais premiados realizadores "oficiais" do cinema Soviético, a Revolução de Outubro é mostrada através dos eventos na vida de duas famílias, uma de classe operária e a outra da classe média, no decorrer de uma noite: a "última" do velho mundo e a "primeira" do novo.

. DIEU A BESOIN DES HOMMES (1950, Jean Delannoy)

Os habitantes da ilha remota de Seil, assolada pelas tempestades do Oceano Atlântico, vivem a sua intensa espiritualidade de formas inusitadas. Conheceu a sua última exibição durante o Festival de Veneza de 1950.

. GENGHIS KHAN (1950, Manuel Conde e Salvador Lou)

Filme de aventuras, registou exuberantes paisagens naturais com parcos recursos mas exibindo ambição digna de Hollywood. Muitos dos filmes do seu co-director Manuel Conde, importante figura do cinema filipino, encontram-se perdidos.

. IL BRIGANTE (1961, Renato Castellani)

A cópia a partir da qual se procedeu ao seu restauro é a única versão conhecida deste filme, remontada pelo seu produtor, por razões comerciais, após a sua passagem por Veneza (onde arrecadou o prémio FIPRESCI). Baseado num romance de Giuseppe Berto, narra a história de um agricultor da Calábria falsamente acusado de homicídio.

. FREE AT LAST (1968, Gregory Shuker, James Desmond e Nicholas Proferes)

Produzido para o canal norte-americano de televisão PBS, recorre a um estilo de cinema-verité para documentar a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade onde, em 1968, Martin Luther King proferiu as suas icónicas palavras «I have a dream». Extremamente raro.

. PAGINE CHIUSE (1968, Gianni Da Campo)

Filme injustamente esquecido, incorpora o espírito íntimo e subestimado dos jovens protestantes daquela época. Apesar da controvérsia que levantou, aquando da sua passagem pelo Festival em 1968, venceu, entre outros galardões, o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes do ano seguinte.

. -STRESS-ES TRES-TRES- (1968, Carlos Saura)

Road-movie que explora a condição e os anseios dos casais modernos, apresenta um estilo original, simultaneamente árido e onírico. Um dos primeiros filmes de Carlos Saura com Geraldine Chaplin, que seria a companheira do realizador durante muitos anos.

. PYTEL BLECH (1963, Věra Chytilová)

A miséria do quotidiano, o vazio existencial, a retórica pomposa e instrutiva do Comunismo a partir de um albergue para jovens. Documentário com momentos irónicos e grotescos, é um dos primeiros trabalhos de Věra Chytilová, figura incontornável da nova vaga do Cinema Checo dos anos 60.

. ZABLÁCENÉ MESTO (1963, Václav Táborský)

Durante a construção de um bairro em Praga, a lama é a principal preocupação dos cidadãos: uma sarcástica fantasia visual irónica sobre a ambígua — e, por vezes, absurda — política de desenvolvimento urbano e social na Checoslováquia dos anos 60.

. AHORA TE VAMOS A LLAMAR HERMANO (1971, Raoul Ruiz)

Retrato da primeira lei, promulgada por Salvador Allende, que reconheceu os índios Mapuche como cidadãos chilenos de pleno direito. As manifestações de alegria e os discursos dos índios são filmados com o talento visual e o gosto pelo experimental característicos de Raoul Ruiz.

(em cima, imagem de DIEU A BESOIN DES HOMMES)

[Fonte: Site oficial do Festival de Veneza.]

domingo, 3 de junho de 2012

Preservação Cinematográfica: uma introdução



Exemplo do trabalho executado na Haghe Film Foundation, em Amsterdão, em torno de uma cópia em nitrato de 35mm do filme HAARLEM (1922, Willy Mullens).

Embora algumas secções do filme estejam severa e perceptivelmente degradadas, a cópia ficará em plenas condições de projecção, através da reparação de perfurações partidas, correcção de colagens e protecção de fotogramas danificados aqui demonstradas pela restauradora Daniella Curró.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Alfred Hitchcock Restaurado (2ª parte)



O Síndroma do Vinagre destacou anteriormente a restauração de nove filmes mudos realizados por Alfred Hitchcock, os quais serão, brevemente, exibidos pelo British Film Institute.

Entretanto, surgiu um novo vídeo institucional que esclarece, de forma descontraída mas pormenorizada q.b., a mentalidade adoptada para o trabalho desenvolvido em torno do restauro destes nove títulos:



[Crédito da imagem: Leon Neal.]

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Da Película para o Digital #4



LET THERE BE LIGHT é um documentário, realizado entre 1944 e 1946 por John Huston, que retrata os procedimentos clínicos junto de soldados diagnosticados com stress pós-traumático durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma obra de cinema documental totalmente pioneira, entrecruza o testemunho visual verídico de militares psicologicamente afectados com um estilo de realização e iluminação de cenas próprios da Hollywood daquela época.

As suas imagens, ainda capazes de impressionar o espectador contemporâneo, causaram definitiva sensação aquando da sua data de produção: o exército norte-americano — não obstante tratar-se de uma encomenda com fins de divulgação militar — decidiu confiscar o filme e nunca o exibir publicamente, alegando "potenciais efeitos desmoralizadores em futuros recrutamentos" e "invasão da vida privada dos soldados filmados".

Embora tenham sido efectuadas algumas cópias do filme, a natureza "clandestina" das mesmas não favoreceu a sua devida preservação. Para além disso, nem mesmo o próprio John Huston tinha conhecimento do paradeiros dos materiais originais.



Em 2010, LET THERE BE LIGHT foi classificado pela Biblioteca do Congresso como historicamente significante e, 60 anos depois, por intermédio da National Film Preservation Foundation (NFPF), devidamente preservado.

O resultado do primeiro esforço de restauro do documentário está disponível, temporariamente e na íntegra, on-line (o site da NFPF também permite o download do filme):



Neste título, é interessante observar os pormenores, elencados pela NFPF, do restauro fílmico de LET THERE BE LIGHT.

Áudio: para o restauro, foi utilizada a melhor cópia disponível em 35mm com área variável de banda sonora óptica, a qual apresentava edição descuidada e ruidosa entre cenas, flutuações nos níveis de som e diálogos sibilantes; procedeu-se à conversão digital da banda sonora, a partir do qual se removeram sibilantes e estalidos e se corrigiu outras irregularidades.

Imagem: para o restauro, foi produzido novo negativo, através de sistema wet gate de duplicação (que permite obter uma imagem mais limpa de riscos duplicados), a partir de uma cópia em acetato de grão fino — em bom estado apesar de apresentar riscos e escoriações na base do filme — e que foi temporariamente imersa num banho químico para preencher o espaço dos danos físicos nos fotogramas; o novo negativo foi digitalizado em alta definição (a primeira versão é a que se encontra actualmente disponível para visualização e download); estão planeados a conversão desta digitalização para uma resolução de 2k (2048 por 1556 pixels) e o trabalho contínuo de remoção de sujidade, pó e riscos na imagem.

[Fontes: National Film Preservation Foundation e msnbc.com Entertainment.]

terça-feira, 15 de maio de 2012

A Colecção Corrick



Entre 1897 e 1914, a família Corrick tornou-se famosa pelo seu empreendedorismo cinematográfico na Austrália. Durante aqueles anos, exibiram e compilaram filmes, em película de nitrato, que revelavam os últimos desenvolvimentos no campo dos efeitos especiais da época, actualidades noticiosas e as inevitáveis curtas-metragens de comédia.

Desde 2007, o National Film & Sound Archive, sediado em Camberra, tem levado a cabo o trabalho de restauração dos mais de 130 títulos da Colecção Corrick, os quais são projectados regularmente no Le Giornate del Cinema Muto, reputado festival de cinema mudo que se realiza em Pordenone, na Itália.

E quem tem a possibilidade de lá comparecer, pode observar pérolas desta qualidade:



Mais sobre a Colecção Corrick:



[Fonte: página oficial do National Film & Sound Archive.]

sábado, 12 de maio de 2012

Sessão Especial #3



KALPANA, a maior extravagância musical alguma vez produzida por um estúdio de Bollywood, foi recentemente seleccionado pela The Film Foundation (Scorsese, sempre Scorsese...) para restauração.

A versão renovada — numa cópia em 35mm — deste clássico do cinema indiano, realizado em 1948 pelo coreógrafo e bailarino Uday Shankar, será exibida no próximo Festival de Cannes e na presença da viúva de Shankar.

"A minha mãe lutou durante anos para que KALPANA fosse restaurado.", afirmou Mamata Shankar, filha do realizador. "Ninguém prestou atenção aos seus apelos. Abordou diversas pessoas influentes e até o governo de Bengala, mas nunca surgiu interesse. É então que a salvação surgiu na forma de um realizador americano. Será difícil agradecer a Martin Scorsese por fazer aquilo que o nosso país nunca quis fazer."

A projecção de KALPANA está agendada para 17 de Maio.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A Magia do 35mm #1

...segundo Quentin Tarantino:



"The magic of movies is connected to 35mm, because when you shoot a movie on film, you’re not recording movement: you’re just taking a series of still pictures, there’s no movement in movies at all. When these pictures are shown at 24 fps (frames per second) through a lightbulb, they give you the illusion of movement: you are all watching an illusion, and this illusion is connected to the magic of movies."

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Colecção Desmet



Composta por mais de 900 bobines em nitrato, a Colecção Jean Desmet, actualmente preservada pelo EYE Film Institute Netherlands, é um dos acervos mundiais mais impressionantes de História registada em película.

Resultado do espírito de um pioneiro na distribuição de cinema na Europa e que "não deitava nada fora, nem sequer os recibos do lavador de janelas", a colecção reúne obras-primas de D.W. Griffith e Louis Feuillade, filmes interpretados por Asta Nielsen e Lyda Borelli, observações quotidianas produzidas pela Pathé, Gaumont ou Edison, e títulos há muito considerado perdidos.

Património Mundial da UNESCO, a sua preservação levada a cabo no EYE Film Institute Netherlands foi recentemente premiada pela Federação Internacional de Bibliotecas Audiovisuais (FOCAL) e são promovidas, ocasionalmente, exibições em todo o mundo de títulos da Colecção Desmet.



Uma das programações mais interessantes já construídas a partir da Colecção é intitulada CRUEL AND UNUSUAL COMEDY FROM THE DESMET COLLECTION, já exibida em locais como o British Film Institute ou o Museum of Modern Art.