quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Projeccionistas de 35mm no YouTube



O fim da projecção em película de 35mm pode ser um dado adquirido, contudo a atenção "internauta" (poderia referir "digital", mas a ironia não é o propósito deste post) às suas especificidades e, inevitavelmente, à profissão do projeccionista nunca foram maiores.

Numa rápida pesquisa pelo YouTube, é possível encontrar diversas registos sobre o tema. Dos mais profissionais, passando por aqueles de puro teor pedagógico, até aos absolutamente espirituosos, todos conseguem transmitir o entusiasmo e dedicação necessários para a projecção em 35mm e constituem um indício de que a nostalgia em torno deste método de exibir cinema, no mínimo, está para durar.











Um paradigma que, em Portugal, não é excepção:





[Foto: NVDaily.]

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Filmes (Re)Encontrados #2



Analisando o percurso de PRIVATE PROPERTY, realizado em 1960 por Leslie Stevens que, com este filme, pretendeu unir o comercialismo do noir americano da época com um cinema tipicamente art-house, é fácil depreender as razões porque esteve desaparecido durante mais de cinquenta anos, até à sua recente redescoberta no arquivo fílmico de uma universidade.

Apesar do conteúdo de PRIVATE PROPERTY nos parecer, hoje em dia, sobejamente tímido, a abordagem franca, para o seu tempo, à sexualidade colocou-o rapidamente em rota de colisão com os censores do cinema comercial norte-americano. Frustração sexual feminina, simbolismo erótico, sugestão de nudez e de relações sexuais, inquietação social e crítica ao capitalismo empolgam um argumento que, logo à partida, escolhe a figura do violador psicopata como um dos seus protagonistas.

Quando o filme estreou num cinema de Nova Iorque, em Abril de 1960, fê-lo sem a aprovação da Motion Picture Production Code, ao qual se somaram uma condenação pública por parte da Legion of Decency e uma apreciação crítica pouco favorável.

A sua retirada das salas foi célere. Nos anos seguintes, PRIVATE PROPERTY viu-se relegado para o circuito do art-house europeu (foi particularmente bem recebido na Dinamarca, em 1965) e exibido, muito ocasionalmente, em projecções privadas.









O processo de redescoberta de PRIVATE PROPERTY só agora começou. Para além da localização de uma cópia, esta obra virtualmente desconhecida de Leslie Stevens (mais conhecido por ter sido um dos criadores da série de culto The Outer Limits) promete reescrever, em parte, a História do film noir norte-americano, havendo já quem o considere como "o elo perdido na transição do género para os anos sessenta".

[Fonte: Bright Lights Film Journal.]

[Fotos: Bright Lights Film Journal e Movielegends.]

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A melhor projecção em 35mm do mundo. Com David Kornfeld



«Por aquela altura, já tinha visto todos os noir que valiam a pena assistir no Brattle. Até me recordo perfeitamente da projecção de um deles, talvez o À BEIRA DO ABISMO, olhar para o exaltado e belíssimo grão a preto-e-branco na face do Bogart e sentir-me arrebatado não pela história, nem pela personagem ou pela ideia, mas sim pelo aspecto mais elementar de um filme: as tonalidades de luz, imaculada, deslumbrante e perfeitamente projectadas perante mim, com tanta intensidade que mais parecia estar a ver a iluminação de uma cópia do filme dos anos 40 de Hollywood, acabada de ser embalada e revelada pela magia da emulsão, da película e da projecção.

Mais do que outra coisa, aquele foi, provavelmente, o momento em que me apercebi de que uma boa projecção é algo de independente, tão suplementar — e essencial — para o cinema como um amplificador o é para uma guitarra eléctrica. E esta sensação provinha, inteiramente, da cabine de projecção de David Kornfeld.
»

Conheçam David Kornfeld, um dos projeccionistas de filme em 35mm mais meticulosos do mundo, cujo filme favorito é O COMBOIO APITOU TRÊS VEZES (1952) e para quem o digital representa o "avanço tecnológico mais catastrófico de todos os tempos", neste curioso artigo do The Boston Phoenix.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Hollywood vs. 35mm — 2ª parte



SIDE BY SIDE é um documentário, produzido por Keanu Reeves, que pretende analisar uma das revoluções tecnológicas mais marcantes que o Cinema atravessa actualmente: a gradual e rápida transição da película para o digital.

Já exibido em diversos festivais e com estreia agendada, nos EUA, em Agosto próximo, promete ser uma das propostas mais desafiantes do cinema documental de 2012.

E, por enquanto, é-nos permitido visualizar algumas das posições dos diversos intervenientes de SIDE BY SIDE face às consequências artísticas e comerciais do cinema digital:

Martin Scorsese: «Anything cheaper and faster makes sense for the businessman to finance. But the danger, specially in our culture, cheaper and faster is consumed, bang, goes away. There's nothing. There's no nourishment.»



Steven Soderbergh: «It seems hypocritical, if you are a creative person, to be saying no to anything, specially anything new.»



Wally Pfister, director de fotografia de A ORIGEM: «A lot of the spirit of it is how fast can we shoot this.»



Michael Chapman, director de fotografia de TAXI DRIVER: «I'm not sentimental about the public aspect of movies. I think they were the great art form of the 20th century, but the 20th century is over.»



O debate está lançado. E promete continuar.

[Fonte: indieWIRE.]

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Venezia Classici



As celebrações do 80ª aniversário do Festival de Veneza, para além da exibição de dez raridades cinematográficas recentemente restauradas, contará também com um conjunto de sessões denominado de Venezia Classici, que apresentará versões melhoradas clássicos da Sétima Arte, abrangendo realizadores como Orson Welles, Howard Hawks e Ingmar Bergman.

Uma reunião apenas possível graças ao trabalho de uma série de associações e empresas ligadas ao ramo cinematográfico, unidas pela missão do Venezia Classici:

«Embora recentes, a promoção do acesso à e apreciação da enorme herança que os filmes clássicos representam já são um fenómeno de importância mundial. Até ao fim do século passado, a preservação e restauração de filmes antigos foram confiadas apenas a cinematecas e aos arquivos filmícos das principais instituições cinematográficas. Com o incremento da tomada de consciência de que a herança cinematográfica é um bem cultural merecedora de atenção como qualquer outra forma de expressão artística, e com a proliferação de plataformas de distribuição capazes de recuperar o valor de mercado a filmes que pareciam, há muito, ter ultrapassado a sua utilidade económica, assiste-se ao surgimento de um número cada vez maior de organizações que dedicam energia e recursos à restauração do cinema clássico.»

Entre os títulos a serem exibidos, destacam-se:

. O FANTASMA APAIXONADO (1947), de Joseph L. Mankiewicz, restaurado pela 20th Century Fox;

. CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950), de Billy Wilder, restaurado pela Paramount Pictures;

. STROMBOLI (1950), de Roberto Rossellini, restaurado pelo Instituto Luce Cinecittà, Cineteca di Bologna e CSC-Cineteca Nazionale;

. OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (1953), de Howard Hawks, restaurado pela 20th Century Fox;

. AS BADALADAS DA MEIA NOITE (1965), de Orson Welles, restaurado pela Cinemateca Espanhola;

. IL CASO MATTEI (1972), de Francesco Rosi, restaurado pela Cineteca di Bologna nos laboratórios L’Immagine Ritrovata em colaboração com a The Film Foundation, a Paramount Pictures e o Museo Nazionale del Cinema of Turin;

. PORCILE (1969), de Pier Paolo Pasolini, restaurado pela Cineteca di Bologna;

. ÀS PORTAS DO CÉU (1980), de Michael Cimino, restaurado pela Criterion (imagem em cima);

. FANNY E ALEXANDER (1982), de Ingmar Bergman, restaurado pelo Svenska Filminstitutet;

O programa completo do Venezia Classici pode ser consultado aqui.

[Fonte: indieWIRE.]

domingo, 22 de julho de 2012

Blockbuster em Película

Num blockbuster, a diferença pode residir, inteira e definitivamente, no tamanho.

Basta, para tal, comparar o tamanho da película de 35mm com o formato da película IMAX (de grande dimensão), ambas usadas na rodagem de O CAVALEIRO DAS TREVAS RENASCE, capítulo final da trilogia assinada por Christopher Nolan sobre Batman:





Para quem vir o filme, mesmo num ecrã de tamanho regular, as diferenças entre as sequências filmadas nos 35mm padrão e em IMAX (no total, 72 minutos e sempre em sequências de acção) serão imediatamente evidentes: maior amplitude de imagem, mais detalhe, melhor qualidade de cinema.

Já agora, sigam o conselho de Christopher Nolan e vejam o filme em película...



(oito partes de uma cópia de O CAVALEIRO DAS TREVAS RENASCE em 35mm; foto de The Prince Charles Cinema)

[Fonte: The New York Times.]

Missão 35mm



Conheçam Shivendra Singh Dungarpur, cineasta indiano, responsável pelo restauro e promoção da sua exibição (anteriormente divulgada n'O Síndroma do Vinagre) no último Festival de Cannes do clássico KALPANA e, de há uns tempos a esta parte, dedicado à preservação e restauro do cinema mudo indiano.

Segundo Dungarpur, «dos cerca de 1700 filmes produzidos na Índia antes do sonoro, apenas nove foram devidamente preservados», acrescentando que «não temos um sentido de preservação, o que apenas reflecte uma chocante falta de atenção para com a nossa tradição cultural. Não podemos, de forma alguma, perder esses filmes de valor incalculável. Afinal de contas, o cinema contrói a memória de uma determinada era.»

Assim, a "missão" de Dungarpur revela-se, simultaneamente, simples e complexa: pesquisar pelo país inteiro, e em conjunto com outros cineastas indianos, o paradeiro dos primórdios do Bollywood.



(imagem do filme PRAPANCHA PASH/A THROW OF DICE (1929), actualmente preservado pelo British Film Institute)

[Fontes: Mid-Day e Daily News India.]

terça-feira, 17 de julho de 2012

Um Ano de Preservação e Restauro Cinematográfico



A National Film Preservation Foundation anunciou, recentemente, a atribuição de fundos para ajudar à preservação e restauro de mais de 60 títulos na posse de diversas instituições museológicas norte-americanas.

Dessas seis dezenas de títulos, contam-se obras de ficção raramente mencionadas na História do Cinema, filmes caseiros e documentários de interesse comercial, social e cultural.

Entre os títulos mais sonantes, destacam-se:

  • THAT OTHER GIRL (1913), comédia protagonizada por Chester Barnett e Pearl White, há muito considerada perdida; redescoberto dentro de uma lata com o rótulo "Niven" por um arquivador da Universidade do Sul da Califórnia;

  • DRIFTING (1923), de Tod Browning (foto em cima), melodrama sobre tráfico de ópio e protagonizado por Wallace Beery e Anna May Wong, então com 15 anos de idade; o restauro incluirá novos intertítulos;

  • THE SUN PROJECT (1956), colaboração filmíca entre o escultor Richard Lippold e o compositor John Cage;

  • 33 YO-YO TRICKS (1976), realizado por estudantes e que ganhou estatuto de culto nos últimos anos;

  • e ILLUSIONS (1982), curta documental assinada por Julie Dash, uma das primeiras realizadoras norte-americanas de ascendência africana.


Entre os filmes de cariz documental, existe enorme expectativa, por parte de historiadores, em relação a TWIN PEAKS TUNNEL (1917), sobre a construção daquele túnel ferroviário em San Francisco; MONEY AT WORK (1933), produzido pela American Bankers Association com o intuito de recuperar a confiança dos bancos sediados em pequenas cidades durante a Grande Depressão; 21st BIENNIAL CONVENTION OF THE CHINESE AMERICAN CITIZEN'S ALLIANCE (1950), que mostra uma reunião de líderes sino-americanos; THE HUDSON SHAD (1973), documentário ambiental realizado por George Stoney e com narração do cantor folk Pete Seeger; e IN ARTIFICIAL LIGHT (1982), sobre artistas nova-iorquinos, onde surge uma então desconhecida Madonna.

Os filmes preservados através deste programa da National Film Preservation Foundation serão disponibilizados ao público via sessões especiais, exibições, DVDs, televisão e Internet.

[Fontes: National Film Preservation Foundation e Smithsonian.]

O Nitrato do Dia #1

Compilação de imagens, preservadas pelo British Film Institute, recolhidas durante os Jogos Olímpicos de Londres de 1908.



[Fonte: Canal do YouTube do BFI.]

domingo, 15 de julho de 2012

Pebble Hill Plantation c. 1917



A História dos primórdios do Século XX nunca ficará totalmente detalhada enquanto não forem localizados todos os rolos de película que resistiram ao passar do tempo.

A The Walter J. Brown Media Archives
& Peabody Awards Collection (UGA Media Archives)
divulgou recentemente mais uma prova disso: cenas do quotidiano familiar de Howard Melville Hanna em 1917, no que se tratará de um dos primeiros filmes produzidos no Estado da Geórgia e, portanto, de extremo interesse para os historiadores com trabalho dedicado àquela região:



Fruto de uma colecção recentemente doada à UGA Media Archives, onde também se contam registos filmícos de jogos de baseball, cenas de caça e pesca, três curtas-metragens de animação e diversos filmes caseiros, este vídeo demonstra o trabalho de recuperação digital que está a ser, presentemente, levado a cabo sob a supervisão de Ruta Abolins.









Os resultados deste trabalho serão divulgados publicamente durante os próximos meses.

[Fonte: OnlineAthens.]
Agradecimento: Paulo Soares.