quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Da Película para o Digital #5



FEAR AND DESIRE (1953), drama simbólico de guerra, é o primeiro filme e, muito provavelmente, o menos conhecido da carreira de Stanley Kubrick.

Muito descontente com o resultado final, Kubrick dedicou imenso tempo e dinheiro na aquisição de todas as versões existentes, independentemente do formato, de FEAR AND DESIRE, com o intuito de impedir qualquer exibição do filme após o seu ano de estreia. Uma vontade nunca concretizada.

A Library of Congress conservou uma cópia, em 35mm, do filme, agora restaurada e transferida para Blu-Ray na edição que a Kino Lorber disponibilizará a partir do próximo mês de Outubro (onde também se inclui THE SEAFARERS, curta-metragem assinada por Kubrick).

E que melhor apresentação poderá existir do que a apresentação do "antes e depois" do restauro digital de FEAR AND DESIRE?



[Fontes: CriterionCast e indieWIRE.]

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Hollywood vs. 35mm — 4ª parte



Ainda sobre SIDE BY SIDE, análise documental produzida por Keanu Reeves sobre a "guerra" entre película e digital no cinema contemporâneo, continuam a surgir pequenos depoimentos de intervenientes do filme:

James Cameron: «24 frames a second isn't real. That's still pictures being displayed. And we're aware of it, we know it's not real, we know that when we're watching a movie it's not real.»



Ed Lachman, director de fotografia: «The point-of-view of the camera is the storytelling of the camera. So, just because you can shoot more footage doesn't make the film a stronger film.»



Greta Gerwig, realizadora: «It's faked, we didn't shoot it on 35mm black and white, but we'll be able to create the effect of it. Which I kind of feel uncomfortable with, but also kind of 'It looks great!'.»



Jost Vacano, director de fotografia: «Why do people shoot with digital cameras? It's an ego thing.»



P.S.: recordem a primeira e segunda partes do debate.

[Fonte: Canal YouTube do Tribeca Film Festival.]

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

AlamoScope — a inovação chega em 70mm



O Alamo Drafthouse anunciou, recentemente, a aquisição de uma máquina de projecção de película em 70mm e pretende fazer uso extensivo da mesma com uma programação intitulada AlamoScope.



Até ao final do ano, estão garantidas as projecções, naquele formato, de WEST SIDE STORY — AMOR SEM BARREIRAS (1961), INDIANA JONES E A GRANDE CRUZADA (1989), BARAKA (1992), OS CAÇA-FANTASMAS (1984), THE MASTER (2012), CLEÓPATRA (1963) e PLAY TIME — VIDA MODERNA (1967).



Numa entrevista ao site Movies.com, Tim League, co-fundador do Alamo Drafthouse, partilha os detalhes de um posicionamento de mercado assumidamente oposto à dinâmica contemporânea de exibição de cinema e não se acanha em expressar a importância dos formatos 35mm e 70mm para a preservação da memória cinematográfica:

Movies.com: Qual é, para si, a importância do 70mm?

Tim League: Todos falam sobre o 35mm, do fim da película e do cinema mas, e com toda a minha solidariedade sobre as implicações disto junto das salas que exibem e programam cinema de qualidade nesse formato, o 70mm está muito mais ameaçado. Em primeiro lugar, são raríssimos os locais que exibem em 70mm, é um formato que já ninguém utiliza. E estamos a falar de uma das formas mais grandiosas de ver cinema que alguma vez existiu.

Foram várias as circunstâncias que nos levaram a perceber que estamos na altura certa para investir neste género de infra-estrutura, de forma a sermos capazes de projectar em 70mm na nossa principal sala, o Ritz. A principal circunstância terá sido a inesperada decisão de Paul Thomas Anderson filmar [THE MASTER] em 70mm nos dias de hoje. Ele foi a inspiração.

[Fonte: Movies.com.]

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

THE MASTER em 70mm



Realizou-se ontem à noite, no Music Box Theatre em Chicago, a primeira de uma série limitada de projecções em 70mm do novo filme de Paul Thomas Anderson, THE MASTER.

Entre as várias reacções, possíveis de serem recolhidas na rede social Twitter por quem compareceu àquela sessão especial, rapidamente nos apercebemos que se trata de um filme visualmente soberbo. Sobretudo, por recorrer ao 70mm, o formato predilecto de Paul Thomas Anderson...:

Mike Eisenberg: "THE MASTER in 70mm was so gorgeous my eyes nearly exploded."

Mark Colomb: "#themaster was beautiful. Amazing to look at."

Xan Aranda: "Never realize how hungry your eyes are til you see something beauuuutifully shot & projected on film."

Mark Schoeck: "'The Master' was beautiful. What a wonderful experience in 70mm."

Phillip Jackson: "70mm looked amazing such detail yet softness. Felt like IMAX but small screen."

Scott Tobias: "See 'The Master' in 70mm and then talk about digital as 'progress.' Yeah, didn't think so."

Sean Dove: "I can't even express to you how amazing the 70mm picture was in 'The Master.'"

Brian Tallerico: "#TheMaster70mm should make all those who led the charge for digital filmmaking weep in shame."

Lawrence Benedetto: "I'm not at a level capable of reviewing what I just saw, but I know it was absolutely gorgeous in 70mm."

Chris Zois: "Going to need some time to mull over 'The Master.' I will say 70mm is gorgeous."

Ignatiy Vishnevetsky: "You really need 70mm to appreciate all the trouser textures & high waists."

E a lista de elogios, não só à qualidade intrínseca do filme, mas como ao facto de ser rodado e projectado em película de grande formato, é interminável...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Hollywood vs. 35mm — 3ª parte



Ainda sobre SIDE BY SIDE, análise documental produzida por Keanu Reeves sobre a "guerra" entre película e digital no cinema contemporâneo, continuam a surgir pequenos depoimentos de intervenientes do filme (a primeira parte pode ser consultada aqui):

David Lynch: «Anything that interrupts the flow can break a person out. So, you want to get it smooth, and you want it be quiet, so you can hear the subtle little things and then, boom, you're in the big things.»



Dion Beebe, director de fotografia: «What's going to, sort of, remain is this reference to films and this reference to 35mm films.»



Ellen Kuras, directora de fotografia: «I think the biggest crisis that we will have in the digital realm is storage and preservation. The ammount of data that is generated by us, by creating this digital pictures, is mind-blowing, is staggering. How do you preserve that?»



Reed Morano, directora de fotografia: «I’ve shot more 35mm in the past two years than I’ve ever shot in my life.»



Nós avisamos que o debate está para durar...

[Fonte: Canal YouTube do Tribeca Film Festival.]

Projeccionistas de 35mm no YouTube



O fim da projecção em película de 35mm pode ser um dado adquirido, contudo a atenção "internauta" (poderia referir "digital", mas a ironia não é o propósito deste post) às suas especificidades e, inevitavelmente, à profissão do projeccionista nunca foram maiores.

Numa rápida pesquisa pelo YouTube, é possível encontrar diversas registos sobre o tema. Dos mais profissionais, passando por aqueles de puro teor pedagógico, até aos absolutamente espirituosos, todos conseguem transmitir o entusiasmo e dedicação necessários para a projecção em 35mm e constituem um indício de que a nostalgia em torno deste método de exibir cinema, no mínimo, está para durar.











Um paradigma que, em Portugal, não é excepção:





[Foto: NVDaily.]

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Filmes (Re)Encontrados #2



Analisando o percurso de PRIVATE PROPERTY, realizado em 1960 por Leslie Stevens que, com este filme, pretendeu unir o comercialismo do noir americano da época com um cinema tipicamente art-house, é fácil depreender as razões porque esteve desaparecido durante mais de cinquenta anos, até à sua recente redescoberta no arquivo fílmico de uma universidade.

Apesar do conteúdo de PRIVATE PROPERTY nos parecer, hoje em dia, sobejamente tímido, a abordagem franca, para o seu tempo, à sexualidade colocou-o rapidamente em rota de colisão com os censores do cinema comercial norte-americano. Frustração sexual feminina, simbolismo erótico, sugestão de nudez e de relações sexuais, inquietação social e crítica ao capitalismo empolgam um argumento que, logo à partida, escolhe a figura do violador psicopata como um dos seus protagonistas.

Quando o filme estreou num cinema de Nova Iorque, em Abril de 1960, fê-lo sem a aprovação da Motion Picture Production Code, ao qual se somaram uma condenação pública por parte da Legion of Decency e uma apreciação crítica pouco favorável.

A sua retirada das salas foi célere. Nos anos seguintes, PRIVATE PROPERTY viu-se relegado para o circuito do art-house europeu (foi particularmente bem recebido na Dinamarca, em 1965) e exibido, muito ocasionalmente, em projecções privadas.









O processo de redescoberta de PRIVATE PROPERTY só agora começou. Para além da localização de uma cópia, esta obra virtualmente desconhecida de Leslie Stevens (mais conhecido por ter sido um dos criadores da série de culto The Outer Limits) promete reescrever, em parte, a História do film noir norte-americano, havendo já quem o considere como "o elo perdido na transição do género para os anos sessenta".

[Fonte: Bright Lights Film Journal.]

[Fotos: Bright Lights Film Journal e Movielegends.]

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A melhor projecção em 35mm do mundo. Com David Kornfeld



«Por aquela altura, já tinha visto todos os noir que valiam a pena assistir no Brattle. Até me recordo perfeitamente da projecção de um deles, talvez o À BEIRA DO ABISMO, olhar para o exaltado e belíssimo grão a preto-e-branco na face do Bogart e sentir-me arrebatado não pela história, nem pela personagem ou pela ideia, mas sim pelo aspecto mais elementar de um filme: as tonalidades de luz, imaculada, deslumbrante e perfeitamente projectadas perante mim, com tanta intensidade que mais parecia estar a ver a iluminação de uma cópia do filme dos anos 40 de Hollywood, acabada de ser embalada e revelada pela magia da emulsão, da película e da projecção.

Mais do que outra coisa, aquele foi, provavelmente, o momento em que me apercebi de que uma boa projecção é algo de independente, tão suplementar — e essencial — para o cinema como um amplificador o é para uma guitarra eléctrica. E esta sensação provinha, inteiramente, da cabine de projecção de David Kornfeld.
»

Conheçam David Kornfeld, um dos projeccionistas de filme em 35mm mais meticulosos do mundo, cujo filme favorito é O COMBOIO APITOU TRÊS VEZES (1952) e para quem o digital representa o "avanço tecnológico mais catastrófico de todos os tempos", neste curioso artigo do The Boston Phoenix.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Hollywood vs. 35mm — 2ª parte



SIDE BY SIDE é um documentário, produzido por Keanu Reeves, que pretende analisar uma das revoluções tecnológicas mais marcantes que o Cinema atravessa actualmente: a gradual e rápida transição da película para o digital.

Já exibido em diversos festivais e com estreia agendada, nos EUA, em Agosto próximo, promete ser uma das propostas mais desafiantes do cinema documental de 2012.

E, por enquanto, é-nos permitido visualizar algumas das posições dos diversos intervenientes de SIDE BY SIDE face às consequências artísticas e comerciais do cinema digital:

Martin Scorsese: «Anything cheaper and faster makes sense for the businessman to finance. But the danger, specially in our culture, cheaper and faster is consumed, bang, goes away. There's nothing. There's no nourishment.»



Steven Soderbergh: «It seems hypocritical, if you are a creative person, to be saying no to anything, specially anything new.»



Wally Pfister, director de fotografia de A ORIGEM: «A lot of the spirit of it is how fast can we shoot this.»



Michael Chapman, director de fotografia de TAXI DRIVER: «I'm not sentimental about the public aspect of movies. I think they were the great art form of the 20th century, but the 20th century is over.»



O debate está lançado. E promete continuar.

[Fonte: indieWIRE.]