sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Jack Cardiff Restaurado



Mas tal depende de cada um de nós.

Jack Cardiff (1914 - 2009) foi um dos directores de fotografia mais influentes da História do Cinema: o seu fascínio, desde jovem, pela mecânica da câmara de filmar resultou numa carreira de quase nove décadas, tendo assinado os peculiares aspectos de títulos como A MATTER OF LIFE AND DEATH (1946), QUANDO OS SINOS DOBRAM (1947, pelo qual recebeu um Óscar), OS SAPATOS VERMELHOS (1948), A RAINHA AFRICANA (1951), A CONDESSA DESCALÇA (1954) e MORTE NO NILO (1978).

Antes desse percurso marcante, Cardiff realizou, em 1945, um obscuro (não está sequer listado no Internet Movie DataBase) documentário chamado STEEL, que honra o esforço dos trabalhadores das refinarias de aço britânicas durante a Segunda Guerra Mundial e rodado no então inovador Technicolor — um processo de cor que realçou, favoravelmente, os tons vivos dos fornos e das chamas laboradas em diversas localidades de Inglaterra:



Surge agora, por intermédio de Mason Cardiff, neto de Jack, o desejo de restaurar convenientemente esta curta-metragem de enorme importância social e histórica, num trabalho orçado em 94 mil dólares que já conta com o apoio do British Film Institute. Quem quiser contribuir (o mínimo de doação é de um dólar) para o restauro de STEEL, pode fazê-lo aqui. E se ainda não estão convencidos, ouçam os sinceros argumentos do próprio Mason :

O Síndroma do Vinagre quer ver STEEL restaurado e, com dez dólares, já é um dos 23 "backers" deste projecto.

[Imagens do filme: Time/Image.]

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mesa Redonda



Num presente em que o único laboratório de revelação de película em Portugal — a Tobis Portuguesa — foi declarado insolvente e um colectivo de realizadores, liderado por André Gil Mata, se apresta a fundar o Laboratório de Cinema Independente como forma de garantir que realizadores, fotógrafos e artistas plásticos possam utilizar película como suporte de trabalho, o Doclisboa 2012 organizou, esta tarde, uma mesa redonda com o intuito de debater, segundo a organização do Festival, dois pontos urgentes:

1) o papel contemporâneo da película no Cinema;
2) e a possibilidade da existência, no nosso país, de um laboratório independente.

Moderada por Luís Miguel Oliveira, os contributos dos vários convidados (abaixo elencados juntamente com o fulcral das suas intervenções) permitem concluir o longo debate — e o de hoje marcou três horas certas sem interrupções — que esta temática, agora e no futuro, continuará a suscitar.

Nicolas Rey, co-fundador do atelier colectivo L'Abominable, foi uma das vozes mais favoráveis quanto à ideia de um Laboratório de Cinema Independente: quando algo começa pequeno mas revela-se único, a tendência será sempre de ou crescer ou surgirem outras iniciativas semelhantes. Por outras palavras, poder-se-ia assistir a um "efeito-dominó" na criação de instituições com a capacidade e vocação para o fornecimento e revelação de filme em película.

Por várias vezes, e noutros meios, se pode ler que a película estará irremediavelmente desaparecida em 2014. Contudo, Cristina Pereira, da Kodak Portugal, enfatizou que a divisão de cinema da marca continuará a produzir película — estão firmados, aliás, contratos de fornecimento até 2015 — e que a rentabilidade da empresa tem sido alcançada através de cortes cirúrgicos nos custos de produção. Tal explica, em certa medida, o facto de a Kodak não produzir película no nosso país. "A película sempre existirá. Pode não ser Kodak, mas continuará a existir" acabou por ser a frase-chave da sua intervenção.

A questão premente e, aparentemente, de árduo consenso da preservação e restauro cinematográficos pela película foi abordada por Rui Machado, director do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM). Numa época em que este "laboratório de preservação" (distinguindo-o das especificidades de um laboratório de produção como a Tobis) assume-se como um dos últimos inteiramente analógicos da Europa, e pela ausência de sintonia entre as instituições museológicas de Cinema — muitas das quais rendidas ao digital —, advoga-se a importância do papel que a Fédération Internationale des Archives du Film (FIAF) poderá desempenhar na negociação com os fabricantes, de modo a assegurar uma contínua produção de película com fins de preservação e restauro de obras apenas existentes em nitrato ou diacetato de celulose.

Com um ponto de vista inteiramente pessoal sobre a matéria em discussão, José Manuel Costa, subdirector da Cinemateca Portuguesa, não está tão optimista quanto ao futuro da película a curto prazo ("estamos a assistir ao fim de um mundo"). Com os arquivos fílmicos a abandonarem incondicionalmente o analógico, e pelo risco da perda eminente de uma identidade da memória do Século XX como só a película soube registar, cabe às cinematecas conquistar o poder de escolherem com que material pretendem trabalhar: "a película não é uma questão de direito, mas sim de vontade e, posteriormente, de prática".

A visão de um cineasta, nesta matéria, ficou a cabo de Manuel Mozos, realizador de XAVIER (1992) ou RUÍNAS (2010). Admitindo vantagens e interesse de se filmar em digital (sobretudo, na captação de som), espera, contudo, que a película e o seu fabrico permaneça. E remata: "faz falta um laboratório industrial 'à portuguesa'".

O passado, presente e futuro da Tobis mereceram, também, longa discussão. Ainda segundo José Manuel Costa, as máquinas pertencentes àquele laboratório de produção foram adquiridas, em Setembro passado, pelo Estado com o intuito de serem transferidas para o ANIM — um processo ameaçado pelas mediáticas limitações (financeiras, recursos humanos, etc.) que a Cinemateca enfrenta. Tiago João Silva, em representação da Tobis, foi parco mas contundente na descrição actual da empresa: o processo de liquidação está em curso, as máquinas seladas e desligadas, tudo "à espera de um destino".

Houve espaço, também, para a partilha de opiniões que marcam esta dicotomia película/digital:

. que um cineasta, independentemente da sua idade e estatuto, possua a liberdade de escolher o formato com que pretende trabalhar, e que essa sensibilidade seja transmitida aos estudantes de Cinema;
. do ponto de vista da qualidade e do respeito à obra original, o restauro digital não é inteiramente controlável — em muitos dos casos, são restauros que poderiam ser efectuados analogicamente;
. por razões económicas, a luta pela película está a diminuir ("o analógico é um trabalho de resistência");
. e a quase provocadora noção do ambíguo contributo do digital para a restauração do som: pelo desaparecimento de uma grande fatia de matrizes de áudio, "as vozes famosas, e que julgamos conhecer tão bem, são escutadas de forma muita distante da original".

No final, e como é habitual num debate sobre o futuro da película, as interrogações são mais que as conclusões. Apenas a certeza de que o "trabalho de resistência" para os amantes da película — e o Fórum Doclisboa esteve, hoje, repleto deles — está para durar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Da Película para o Digital #6



Os acervos históricos do East Anglian Film Archive e Pôle Image Haute-Normandie, datados de 1896 até 1981, estão agora disponíveis para visualização gratuita e on-line. «It's a tremendous mix showing how we lived our lives over the last century.», segundo Jane Jarvis, a directora do programa.

Essa "poderosa mistura" da memória preservada em nitrato e celulose pode ser consultada no site ArchiveAlive.

[Fonte: BBC News.]

domingo, 21 de outubro de 2012

A Economia do Filme Restaurado



o antes e depois do trabalho de restauro de LES ENFANTS DU PARADIS para Blu-Ray, um dos primeiros filmes no âmbito da nova orientação da Pathé para os seus clássicos intemporais

«The catalogue of Gaumont is the value of Gaumont. Restorations keep your library alive, creating value for VOD, Blu-ray and HD TV channels», Ariane Toscan du Plantier, Directora de Comunicação da Gaumont, na edição on-line da Variety, a propósito da parceria, recentemente anunciada pelas Gaumont e Pathé, que financiará um projecto para restaurar cerca de 100 filmes do catálogo daquelas distribuidoras.

sábado, 20 de outubro de 2012

A Preservação do Controverso



Realizado por Richard Oswald em 1919, DIFFERENT FROM THE OTHERS possui um interessante conjunto de peculiaridades para que o seu restauro, oficialmente apresentado no Verão passado pelo Outfest — Annual Los Angeles Gay & Lesbian Film Festival, seja, agora e aqui, destacado. Pois, e para muitos, trata-se do primeiro filme de ficção assumidamente homossexual de todos os tempos.

Produzido em plena República de Weimar, foi co-financiado pelo Dr. Magnus Hirschfield, fundador do Instituto das Ciências Sexuais, o argumento inspirado em O Retrato de Dorian Gray e a sua principal motivação foi desafiar o infame Parágrafo 175 (a criminalização da homossexualidade) do Código Penal da época.

O seu conteúdo, imediatamente considerado como impossível de comercializar, tornou-se de visualização restrita para investigadores e médicos até à sua censura e total destruição de negativos e cópias pelo Partido Nazi assim que assumiu o poder em 1933. Total com a excepção de uma versão fragmentada de DIFFERENT FROM THE OTHERS, encontrada na Rússia e a partir da qual se procedeu ao restauro e contínua procura por mais exemplares do filme — trabalho a cargo do Outfest Legacy Project for LGBT Film Preservation que, como o próprio nome indica, dedica-se à preservação de imagens em movimento sobre minorias sexuais.

Exemplo eficaz e tematicamente pragmático da importância da preservação cinematográfica para a construção de uma memória da Humanidade o mais completa possível e compreensão de que as emoções humanas, ao longo da História, mantiveram-se quase inalteradas. Os cinquenta minutos seguintes comprovam-no:



[Fonte: Advocate.com.]

sábado, 13 de outubro de 2012

To Save and Project

Celebração de obras primas preservadas e redescobertas do cinema mundial, o To Save and Project — Festival Internacional de Preservação Cinematográfica (uma iniciativa do Museum of Modern Art) assinala, de 11 de Outubro a 12 de Novembro, o seu décimo aniversário com uma selecção densa e variada de filmes mas onde predomina o sentido de salvaguardar e exibir cinema da forma mais clássica possível.


imagem de CALL HER SAVAGE (1932), de John Francis Dillon

O programa abrange desde uma curta colorida manualmente datada de 1907 (EN AVANT LA MUSIQUE) até UPRISING, uma compilação de imagens recolhidas durante alguns dos momentos mais marcantes da Primavera Árabe supervisionada pelo programa Herança Audiovisual da Unesco.

Pelo meio, destacam-se versões restauradas de CALL HER SAVAGE (1932, John Francis Dillon, com Clara Bow), WILD GIRL (1932, Raoul Walsh), IL GENERAL DELLA ROVERE (1959, Roberto Rossellini) e LOLA (1961, Jacques Demy).


Anouk Aimée em LOLA (1961), de Jacques Demy

E depois há o "pormenor de classe": toda a programação, com poucas excepções, será projectada em película. Ou, nas palavras de Joshua Siegel, director do festival, «Ainda não estou inteiramente convencido de que a tecnologia digital tenha alcançado um ponto de sofisticação para a comparar, sequer, com a qualidade do celulóide projectado no grande ecrã».

Um evento obrigatório para quem "padece" do Síndroma do Vinagre...

[Fonte: The New York Times.]

domingo, 7 de outubro de 2012

"O que as areias do tempo não apagaram"

A nova versão restaurada de LAWRENCE DA ARÁBIA, o clássico de 1962 realizado por David Lean em 70mm, é resultado de um longo e meticuloso (literalmente, frame a frame) trabalho dos profissionais da Sony Pictures Entertainment.



Tomando como base o restauro empreendido em 1988 por Robert A. Harris, com a assistência do próprio Lean e da montadora Anne Coates, esta nova encarnação de LAWRENCE DA ARÁBIA pretende "corrigir os danos no filme que não puderam ser concretizados nos anos 80, simplesmente porque a tecnologia de então não o permitia".

A digitalização do negativo original em 65mm (70mm com banda sonora) para uma resolução de 8k (7680 por 4320 pixels) e posterior redução para um ficheiro de 4k revelou os fotogramas saturados, danificados, riscados e até quimicamente tingidos — e os detalhes do processo estão devidamente explicado neste recomendado artigo do New York Times.



[Fontes: The New York Times e Variety.]

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O primeiro filme a cores da História... — 2ª parte



O processo patenteado por Edward Raymond Turner, o criador dos primeiros filmes a cores da História do Cinema e que ontem aqui se destacou, assim como o seu restauro levado a cabo pelo National Media Museum, são detalhados neste breve, mas profundamente didáctico, vídeo institucional, onde se depreende a precisão, minuciosidade e paixão inerentes ao restauro de película centenária:



[Fonte: Canal do YouTube do National Media Museum.]
Agradecimento especial: Paulo Soares.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O primeiro filme a cores da História...



... não pertence a nenhum dos nomes incontornáveis da Sétima Arte.

A partir de hoje, esse "galardão" terá de ser atribuído a Edward Raymond Turner, que em 1899 patenteou, em Londres, um processo de colorização anterior ao Kinemacolour (inventado em 1909 e geralmente aceite como o primeiro método de colorização em cinema).

As experiências primordiais desse processo foram recentemente descobertas, 110 anos depois de terem ficado armazenadas e esquecidas numa pequena bobina, e restauradas pelo National Media Museum, sediado em Bradford.



O aspecto dos genuínos primeiros filmes a cores do Cinema — sim, observamos aqui à reescrita da História desta arte — podem ser agora apreciadas em todo o seu peculiar esplendor:



Entre as diversas conclusões que se podem extrair desta notícia, uma é inegável: a película de nitrato continuará a ser um manancial para uma redescoberta da História, seja ela artística ou não, tal como a conhecemos.

[Fonte: BBC News e NewScientist.]
Agradecimento especial: Paulo Soares.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Hollywood vs. 35mm — 5ª parte



Film Is Dead? Long Live Movies — How Digital Is Changing the Nature of Movies é o título de um artigo publicado hoje pelo New York Times que analisa o impacto da progressiva conversão ao digital por quem faz e produz Cinema nos nossos dias.

A.O. Scott e Manohla Dargis, os dois principais críticos de cinema daquela publicação, analisam os efeitos de uma revolução que está, como nunca se observou, a alterar significativamente o modo como percebemos um filme. Ficam aqui as principais observações de cada, num artigo de leitura integral obrigatória para os interessados neste tópico cada vez mais propício ao debate:


imagem de THE MASTER, de Paul Thomas Anderson, inteiramente filmado em película de 70mm.

A.O. SCOTT:

«De acordo com uma emergente sabedoria convencional, a película [no original, "film"] acabou. Se assim for, poderemos continuar a apelidar os realizadores de filmmakers? Ou esse título ficará reservado apenas para alguns irredutíveis como Paul Thomas Anderson, cujo novo filme, THE MASTER, foi rodado em 70mm? Não é que o nosso trabalho alguma vez tenha sido criticar o estado de bobinas de celulóide assim que saem das suas caixas; escrevemos sobre as histórias e as imagens gravadas naquele formato. Mas a mudança do fotoquímico para o digital não é uma questão simplesmente técnica ou semântica.»

«A qualidade de imagem melhorou rapidamente, e a última década proporcionou alguns exemplos impressionantes de realizadores que transformaram o digital numa vantagem estética. O plano-sequência de noventa minutos, pelos corredores do Heritage Museum, que compõe A ARCA RUSSA de Alexander Sokurov, é um artefacto especificamente digital. O mesmo se pode chamar à paisagem nocturna de Los Angeles em COLATERAL, de Michael Mann, e os rugosos campos de batalha em CHE, de Steven Soderbergh, nunca existiriam sem a luz, mobilidade e relativa moderação financeira de uma câmara RED.»

«Outra interessante questão filosófica é se, ou até que ponto, [o Cinema] continuará a ser a mesma expressão artística. Poderão as narrativas produzidas e distribuídas em formatos digitais divergir de forma tão radical daquilo a que chamamos "filmes" que não conseguiremos reconhecer uma ligação genética? Irá o novo cinema digital absorver totalmente o seu percursor, ou poderão coexistir? Por mais dramática que esta revolução possa ser, certo é que estamos ainda na sua fase primária.»


imagem de COLATERAL, de Michael Mann, cujas sequências nocturnas foram inteiramente registadas com câmaras digitais.

MANOHLA DARGIS:

«O film da película não é só um imperativo tecnológico; também é uma questão económica.(...) Tal como escreve o teórico David Borwell, 'a conversão dos teatros de 35mm para a exibição digital foi concebida por e para uma indústria caracterizada pela distribuição em massa, saturação do mercado e lucro rápido. Face a este avassalador plano de negócios, o filme em película afigura-se como obstáculo'.»

«Não sou anti-digital, embora prefira a película: gosto do grão e textura visual da película, e mesmo cópias razoavelmente conservadas conseguem ser melhores que uma em digital. E sim, o digital pode ter um aspecto surpreendente se o realizador — Soderbergh, Mann, Godard, David Fincher ou David Lynch, por exemplo — e o projeccionista tiverem esse empenho.»

«A imagem de um filme é criada pela luz que se materializa em algo que existe — existia — em tempo e espaço reais. É nesse sentido que a película se torna testemunha da nossa existência. No entanto, ouvi o grande artista vanguardista Ken Jacobs — que projecta imagens em movimento criadas a partir de obturadores, lentes, sombras e as suas próprias mãos — dizer que o Cinema não está dependente da película; tem de ser magia.»

[Fonte: The New York Times.]