quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Preservação Histórica Em Cinema: Ken Burns e THE SHAKERS



Permita-me o leitor, desde o visitante assíduo das actualizações de imprevisível regularidade do presente blog ou a quem aqui tenha chegado por acasos de navegação, a perturbação à "norma interna" deste espaço, para continuar a discorrer sobre a importância da Preservação Histórica, mas em Cinema e não só a do Cinema — ou o predicado que se poderia definir como a salvaguarda, através do registo por imagens em movimento, de vivências em iminente risco de desaparecimento da memória humana contemporânea e futura.

Nesse âmbito, importa sublinhar THE SHAKERS: HANDS TO WORK, HEARTS TO GOD (1984), documentário conciso mas profuso de Ken Burns, dedicado à história e concretizações da Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo, também designados por Shakers, como objecto exemplar na análise desta comunidade religiosa composta, à época de produção do filme, por 17 praticantes activos (hoje, "recenseia-se" apenas dois elementos) e distinta, desde o Século XVIII, numa série de campos que marcou, de forma quase invisível, a cultura intrínseca dos Estados Unidos.

É em torno deste património que Ken Burns explana o seu aclamado estilo, numa rigorosa análise fílmica da particular e quase utópica filosofia cativada pelos Shakers: da arquitectura à decoração de interiores, dos hinos às composições de dança (tudo devidamente ensaiado perante a câmara), às metodologias aplicadas na agricultura e manufacturação de bens, do celibato comunitário à adopção de crianças como via para a perpetuação transgeracional, THE SHAKERS revela-se, assim, como importante testemunho audiovisual de uma congregação que se tornou, no seio da voraz aceleração da vida humana ao longo do Século XX, anacrónica e sujeita à ameaça de desaparecer com os seus dois últimos representantes.



Graças a Ken Burns, e enquanto existir a motivação e os meios, independentemente do seu formato, para a reprodução da imagem em movimento, a memória colectiva dos Shakers encontrará garantias de Preservação Histórica.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Curta-metragem: THE PROJECTIONIST



Realizado há cerca de um ano por Christopher Newman, no âmbito de uma série de curtas-metragens dedicada a "vivências profissionais em risco no mundo actual", THE PROJECTIONIST destaca o espírito saudosista de Greg King, chefe de cabine do Paramount Theatre, sobre as sensibilidade de um labor cada vez mais raro.

"Everything is done by touch, waiting for timing, waiting for a cue, throwing a lever, until the film is over."



[Fonte: Vimeo].

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A História do Restauro de THE GRIM GAME



As circunstâncias de como uma cópia intacta de THE GRIM GAME, longa-metragem de 1919 considerada perdida durante décadas e um dos mais importantes registos cinematográficos do lendário Harry Houdini, chegou às mãos do restaurador Rick Schmidlin são invocadas, em tom vívido e muito didáctico, neste artigo assinado por Will Stephenson para a The Paris Review.

Do fascínio de Houdini pela Sétima Arte ("I think the film profession is the greatest, and that the moving picture is the most wonderful thing in the world") até ao primeiro encontro de Schmidlin com Larry Weeks, um ilusionista reformado que guardou, na sua casa de Brooklyn, a única cópia de THE GRIM GAME de que se conhece o paradeiro, Will Stephenson esboça um dos textos mais absortos e completos que este espaço pôde ler, nos últimos tempos, sobre preservação e restauro de Cinema.

"Most every project I’ve worked on was exciting in some way. But how often do you find an important, lost, or even just rumored film, in a fifth-floor apartment owned by a ninety-five-year-old juggler? A hundred percent intact? To be able to go up there on a rainy day in Brooklyn and find this film, which most people doubted existed at all? That experience alone was one of the most exciting I’ve ever had.", Rick Schmidlin.

[Fonte e imagem: The Paris Review].

domingo, 6 de agosto de 2017

Blockbuster em Película #9



BABY DRIVER, de Edgar Wright, rodado em película de 35 mm (Kodak Vision3 250D 7207).

"Walter Hill made a movie called The Driver that Edgar really admires, and Edgar's a fan of hard gangster and crime movies, particularly of the 1960s and ‘70s. Our film is a visual and thematic rejection of the current spate of car movies that are so heavily CG'd and fantastical. We want the audience to be in those cars with the actors actually driving them, and all our actors can drive like crazy.", Bill Pope, director de fotografia do filme.

[Fonte e imagem: Panavision].

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Filmes Restaurados: BELLE DE JOUR



Trailer para a versão restaurada de BELLE DE JOUR.



Digitalização e restauro em resolução 4K, a partir do negativo original do filme. Elaborado pelos laboratórios Hiventy para o StudioCanal, com o apoio do Centre National du Cinéma (CNC) e Cinemateca Francesa. Primeira exibição pública na secção Cannes Classics 2017.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

DUNKIRK e o Renascimento do 70mm



Até ao final de 2017, muito dificilmente veremos uma obra com a mesma dimensão visual que este DUNKIRK.

Como sobejamente sublinhado pela imprensa cinematográfica, Christopher Nolan recriou a evacuação, em 1940, do exército britânico de Dunquerque, inteiramente com câmaras IMAX 65mm e em película de 65mm. Uma decisão estética que não só é o principal triunfo do filme, como providencia as luzes necessárias para se compreender, nesta era dominada por uma lógica de distribuição assente no cinema digital, as potencialidades económicas do 70mm. Os números da afluência de espectadores às sessões neste formato são elucidativos, assim como a unanimidade crítica em torno dos méritos da projecção em grande formato.

Na verdade, a experiência de se observar DUNKIRK em 70mm ou em IMAX (como foi o meu caso), eleva o filme da grande maioria das estreias cinematográficas agendadas para os próximos meses; possivelmente, apenas STAR WARS: THE LAST JEDI, com algumas sequências também filmadas em 65mm, conseguirá rivalizar.

Da mesma forma, revela-se tarefa árdua encontrar antecedentes perante o espectáculo cinematográfico construído por Christopher Nolan. Veja-se as sequências aéreas — profusas na manipulação do nosso sentido de orientação e detentoras de um cariz quase realista —, sem dúvida as mais bem conseguidas pelo filme e que parecem invocar o documentário SKY OVER HOLLAND (1967, John Fernhout), um "postal turístico" dos Países Baixos capturado em Superpanorama 70. Ou o alinhamento de milhares de homens nas praias de Dunquerque, visão desoladora pontada pelo negrume do areal em total oposição com a alvura dos desertos em Super Panavision 70 de LAWRENCE DA ARÁBIA (1962, David Lean).

De um ponto de vista crítico, DUNKIRK não é isento de lacunas: o sofrimento e angústia destes soldados, retidos em França com a pátria mesmo "ali ao lado", não conseguem ser mais do que superficiais, e a omnipresente banda sonora de Hans Zimmer tem, a partir de certa altura, um teor deveras saturante.

Mas a Nolan não se poderá, em nenhuma ocasião, negar o valor de revisitar a Segunda Guerra Mundial segundo um método de trabalho old school, com parco recurso ao CGI e ressuscitando o 70mm como o maior formato (em tamanho, envolvimento e resolução) do Cinema.

[Imagem: Music Box Theatre‏.]

sábado, 22 de julho de 2017

Nunca se Escreveu Tanto Sobre a Película — Parte 2



Elogios, palavras de apreço, os constrangimentos presentes do formato e a inevitável "ordem do dia" em torno de DUNKIRK e dos seus 70mm.

Uma lista de endereços úteis, publicados ao longo dos últimos 30 dias, sobre o actual ponto de situação do futuro, vida e morte da película.

"Film benefits from the world's greatest motion picture artists using it, but the world's greatest motion picture artists also make better movies because they use film."
Steve Bellamy, in 35mm: the format that refused to die, RedShark.

"It can be manipulated in ways that hard drives cannot—every time 35mm film is run through a projector it collects blemishes and tears, a singular history carved into its very cells, never the same film shown twice. That is, for a lack of a better word, beautiful."
Nina Wilder, in An ode to 35mm film, The Chronicle.

"I’m making my films cheaper than anybody working at the same scale on digital. There are no efficiencies to be gained there and no money to be saved..."
Christopher Nolan, citado por Zack Sharf, in Christopher Nolan, Quentin Tarantino and Paul Thomas Anderson Have A 70mm Film Support Group, IndieWire.

"'There's only one film lab in Los Angeles now and they' actually forgotten how to do certain things," Biller laments down the phoneline. It was very difficult to colour-time the print because they don't have some of their traditional equipment anymore.' So was all that trouble worth it? 'Oh, yes. The colours are richer and deeper than a digital print and the blacks are blacker.'"
Anna Biller, citada por James Croot, in The Love Witch: The Technicolour dream that almost became a logistical nightmare, Stuff Entertainment.

"Y todo esto tiene una historia detrás, ya que el soporte en el cual tú quieres trabajar te da una cualidad que no tiene el digital. Hay allí una parte matérica, orgánica, de la necesidad de coger un trozo de película, tener el tiempo en tus manos."
Antoni Pinent, entrevistado por Mónica Delgado, in El Analógico No Debe Ser un Lujo o Capricho Sino Un Modo de Entender la Fantasmagoría, desistfilm.

"You keep the film wet, you unload the camera, and you keep it damp the whole time. We shipped it back to Los Angeles from the set in France, and they processed it before drying it out, and the shot came out absolutely perfect and it's in the film. Try doing that with a digital camera!"
Christopher Nolan, citado por Jason Guerrasio, in Christopher Nolan used an old Hollywood trick to salvage footage that sank in the water while shooting 'Dunkirk', Business Insider.

"Hollywood’s embrace of digital cinema projection (DCP) – studios announced they would stop making prints in 2014 – was never about embracing technological advances in quality, it was about saving money. The amount of time, energy and expense of creating and shipping tens of thousands of 35mm prints around the world was astronomical. And when film projection disappeared, so did the union projectionists trained to insure our viewing experience was maximized."
Chris O'Falt, in Netflix Is Not the Problem: Why Bad Theatrical Presentations Are Destroying the Experience, IndieWire.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

DUNKIRK estreia hoje em Portugal



DUNKIRK, de Christopher Nolan, rodado em película de 65 mm (Kodak Vision3 50D 5203, Vision3 250D 5207, Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219).