Mostrar mensagens com a etiqueta António Lopes Ribeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Lopes Ribeiro. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de abril de 2019

O Arquivo do Dia #246 — No Aniversário de António Lopes Ribeiro



Falar de António Lopes Ribeiro — realizador, crítico e um dos nomes de maior afirmação na história cinematográfica portuguesa — é, obrigatoriamente, mencionar os sucessos populares de O PAI TIRANO (1941), AMOR DE PERDIÇÃO (1943) ou FREI LUÍS DE SOUSA (1950). Contudo, da sua filmografia, importa salientar também o seu trabalho enquanto documentarista. Do número substancial de títulos que assinou, e numa perspectiva contemporânea, é possível não só distinguir um olhar fílmico ao serviço da propaganda do Estado Novo, como também compreender as vivências, os ritmos e as prioridades institucionais no nosso país ao longo das quatro décadas de actividade do cineasta.

No dia em que celebraria cento e onze anos de idade, o Arquivo recorda um dos documentários mais peculiares de António Lopes Ribeiro. Incluído no Jornal Português nº 22, A NAU PORTUGAL retrata a "iniciativa arrojada de Leitão de Barros" de fabricar réplicas das caravelas dos Descobrimentos. O filme, assim, acompanha os trabalhos de construção da Nau Portugal, nos estaleiros de Gafanha da Nazaré, e conclui com a triunfal entrada da embarcação no rio Tejo, por ocasião da Exposição do Mundo Português em 1940.



[Fontes: Sociedade Portuguesa de Actualidades Cinematográficas para o Secretariado da Propaganda Nacional / geografia e ensino de geografia].
[Imagem: Bancada Directa].

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O Arquivo do Dia #165 — As Rodas de Lisboa



Documentário produzido em 1951, por ocasião do 50º aniversário da electrificação dos transportes públicos pela Companhia Carris de Ferro de Lisboa, e pontificando a habitual expressiva "locução" de Fernando Pessa, AS RODAS DE LISBOA revela-se um curioso vislumbre sobre o quotidiano, técnicas e metodologias, naquela época, do sistema de transportes públicos da nossa capital.

As imagens e ambiências deste filme, realizado pelos irmãos António Lopes Ribeiro e Ribeirinho, falam por si e, para os que conheceram a realidade evocada pelo Arquivo de hoje, a nostalgia também terá "palavra". Não resistimos, porém, em citar as impressões sobre AS RODAS DE LISBOA, publicadas a 1 de Outubro de 1951 na Gazeta dos Caminhos de Ferro — definitivamente, de outros tempos:

"O filme dá-nos uma ideia completa da importância da Companhia e do seu movimento. O público precisa ver este documentário para prestar justiça à Carris, onde se empregam milhares de funcionários e operários, e para cujo andamento são necessários oficinas de construção e reparação de carros, uma alfaiataria para a confecção de fardamentos, barbearia, tipografia para impressão de bilhetes, cantina, etc."



[Fontes: Pedro Alves / Hemeroteca Municipal de Lisboa].
[Imagem: CinePT — Cinema Português].

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #112 — Lisboa em Obras



Imbuído do característico discurso propagandista do Estado Novo, LISBOA DE HOJE E DE AMANHÃ, documentário comissionado pela Câmara Municipal de Lisboa ao realizador António Lopes Ribeiro, destaca os progressos camarários em termos de habitação, saneamento básico e mobilidade nas zonas residenciais da cidade em finais dos anos 40.

Para além de uma privilegiada observação — imagens por vezes muito impressionantes, captadas por Manuel Luís Vieira e Artur Costa de Macedo, dois dos principais directores de fotografia do Cinema Português daquela época — de localidades e vivências da Lisboa de 1948, este filme, resgatado dos arquivos da Cinemateca Portuguesa, serve de curioso e inevitável contraposto a algumas "sombras" que, hoje em dia, pairam sobre a capital. Frases como "por toda a parte, se ergueram belos prédios de rendas elevadíssimas", ou a sugestão de especulação imobiliária, contidas na locução do próprio António Lopes Ribeiro, assumem-se tão prementes então como hoje.



[Fontes: Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema / CinePT].
[Imagem: CinePT].

sábado, 13 de janeiro de 2018

Filmes Perdidos — Uma Introdução ao Caso Português



De todos os temas que constituem matéria de estudo da Sétima Arte, o considerado Filme Perdido — isto é, uma obra cinematográfica, de curta ou longa duração, cujo paradeiro físico não é conhecido em qualquer arquivo fílmico, colecção privada ou acervo público — continua a ser de problemática explicação. Entre as entidades e os profissionais do ramo, a perda da banda sonora de um filme ou títulos com metragem incompleta são motivos suficientes para essa "catalogação". E quando as certezas existem, nem sempre são portadoras dos melhores cenários: por exemplo, é dado adquirido que 75% do cinema mudo norte-americano encontra-se irremediavelmente desaparecido1.

Na sua definição genérica2, passando pela recolha de elementos (imagens de produção, guiões, referências em imprensa escrita) e até à reconstituição precisa dos motivos que determinam um estatuto de Filme Perdido, a metodologia em torno deste objecto cinematográfico é, também, muito específica. Resumidamente, implica traçar o percurso de um título desde a sua estreia comercial, a averiguação dos locais por onde uma ou mais cópias viajaram, quem eram os proprietários dessas salas de exibição e que tipo de património — sobretudo, fílmico — foi legado aos seus descendentes e, por fim, que repositório foi assegurado para esses mesmos materiais. Paralelamente, a composição de uma alargada e variada lista de contactos, em arquivos e/ou cinematecas de todo o mundo, pode ser uma prática útil.



Neste âmbito, o "caso português" não está isento das mesmas particularidades que afectam as cinematografias de outras regiões3. Numa análise mais profunda, o problema dos filmes portugueses perdidos assenta em dois eixos primordiais: 1) com sumárias excepções4, verifica-se a ausência de quaisquer informações, compilações ou estudos inteiramente dedicados a este assunto; e consequentemente, 2) esta escassez impacta o próprio conhecimento da História do Cinema Português. Todavia, permanecem algumas inscrições históricas que explicam, por exemplo, a considerável quantidade de filmes portugueses perdidos do período do mudo (Manuel Félix Ribeiro mencionou, como principal causa, a venda de inúmeras bobines às potências da Segunda Guerra Mundial, para posterior extracção da prata incluída na emulsão da película5).

A partir das poucas fontes existentes que se aproximaram desta temática, a identificação e essência de cerca de meia centena de filmes portugueses perdidos é sintomática dos pontos fulcrais acima detalhados. Dessa "lista", constam obras realizadas por nomes como Ernesto de Albuquerque, Georges Pallu, Roger Lion, Rino Lupo, Reinaldo Ferreira, António Lopes Ribeiro, Chianca de Garcia e, até, Manoel de Oliveira. Ademais, da obra de Aurélio da Paz dos Reis (considerado o pioneiro do Cinema em Portugal, com A SAÍDA DO PESSOAL OPERÁRIO DA FÁBRICA CONFIANÇA, rodado em 1896) pouco restou até aos nossos dias, impossibilitando assim a composição exacta do seu percurso artístico. Ou seja, um conjunto de filmes que, sem dúvidas, e através de uma atenta consulta à parca informação disponível sobre os mesmos, permitirá relançar e esmiuçar novas leituras historiográficas sobre a nossa Sétima Arte.



Não sendo, a priori, publicamente perceptível o montante de esforço e recursos de que a Cinemateca Portuguesa se dotou para o estudo e pesquisa desta "filmografia perdida"6, também não nos faltam razões para acreditar que nem tudo está irremediavelmente desaparecido. Basta recordar o caso de OS FAROLEIROS (1922, Maurice Mariaud), do qual se desconheceu o seu paradeiro até à redescoberta de materiais integrais do filme em 1993, armazenados no Palácio do Bolhão, no Porto7.

Mesmo que, infelizmente, certos filmes não estejam ao nosso dispor para visualização, a noção da sua existência já é passo fundamental para uma compreensão mais exacta e acabada da cinematografia portuguesa. É com esse espírito de missão que o presente artigo serve de introdução a um dossier, a publicar no O Síndroma do Vinagre no decurso das próximas semanas, dedicado a filmes portugueses perdidos de relevo — uma "viagem" de (re)descoberta cinéfila à qual o parecer de leigos, historiadores e académicos será imensamente bem-vinda.

Notas:
1 A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos mantém um registo com mais de 7000 filmes mudos considerados perdidos.
2 A Fédération Internationale des Archives du Film (FIAF) ou sites de referência, como o Lost Films, não escondem as suas reticências em apresentar um conceito estanque para Filme Perdido.
3 Por exemplo, à semelhança do que foi aferido nos Estados Unidos, e conforme os registos disponíveis, uma porção substancial da produção nacional, anterior ao advento do sonoro, também está classificada como perdida.
4 Obras como O Cais do Olhar, de José de Matos-Cruz (1999, Cinemateca Portuguesa), ou Dicionário do Cinema Português 1895-1961, de Jorge Leitão Ramos (2011, Editorial Caminho), fornecem breves detalhes sobre os títulos dos quais se desconhece o paradeiro de qualquer material fílmico.
5 Ver Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949 (1983, Cinemateca Portuguesa).
6 O documento que explana as opções estratégicas e projectos de actividade da Cinemateca Portuguesa, divulgado em 2014, é omisso nesse item.
7 De realçar que a Cinemateca Portuguesa irá exibir este filme no próximo dia 23 de Janeiro, às 19h, na Sala M. Félix Ribeiro.

Imagens:
1 Fotograma de RAINHA DEPOIS DE MORTA, INÊS DE CASTRO (1910, Carlos Santos), considerado o primeiro filme português de reconstituição histórica, e do qual não é possível localizar materiais fílmicos.
2 Fotograma de A SEREIA DE PEDRA (1922, Roger Lion). Desconhece-se o paradeiro de qualquer material fílmico deste título.
3 Fotograma de OS FAROLEIROS.