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sábado, 28 de dezembro de 2019

O Cinema de 2019 — Um Balanço "Analógico"



No momento em que o Cinema volta a ser o protagonista de mais uma "batalha tecnológica" — isto é, entre a exibição em sala e o incremento da exclusividade de estreias em plataformas de streaming, com todas as implicações que essa nova dinâmica comercial veio trazer para o mercado da distribuição —, 2019 revelou-se um período animador e proveitoso no que toca à produção cinematográfica em suporte analógico.

Ao longo dos últimos doze meses, as salas de cinema portuguesas acolheram 30 títulos filmados, inteira ou parcialmente, em película. Esta contabilidade representa um ligeiro acréscimo de rodagens analógicas exibidas no nosso país, face aos 26 filmes estreados ao longo de 2018. Neste âmbito, e à semelhança dos anos anteriores, essa produção não se cingiu a nenhum contexto orçamental nem geografias ou temáticas em particular; o único denominador comum, aqui, é a opção pela Kodak enquanto fornecedor de suporte fílmico. A listagem de estreias em película no nosso país — ordenadas pela sua data de estreia e dispostas por título original, realizador, formato e (quando disponível) especificações técnicas —, que abaixo se publica, deixa claro que a "morte da película" foi prematuramente anunciada.

  • THE OLD MAN AND THE GUN (David Lowery): 16mm [Kodak Vision3 200T 7213];
  • VOX LUX (Brady Corbet): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];
  • THE FAVOURITE (Yorgos Lanthimos): 35mm [Kodak Vision3 500T 5219, Kodak Vision3 200T 5213, Kodak Vision3 50D 5203];

  • VICE (Adam McKay): 8mm [Kodak Vision3 500T 7219], 16mm [Kodak Vision3 500T 7219] e 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];
  • ASH IS PUREST WHITE (Jia Zhangke): 35mm;
  • CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS (João Salaviza e Renée Nader Messora): 16mm [Kodak Vision3 500T 7219];
  • THE KAMAGASAKI CAULDRON WAR (Leo Sato): 16mm;
  • AYKA (Sergei Dvortsevoy): 16mm [Kodak Vision3 250D 7207, Vision3 500T 7219];
  • DIAMANTINO (Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt): 16mm [Kodak Vision3 500T 7219];
  • SUNSET (László Nemes): 35mm [Kodak Vision3 500T 5219] e 65mm [Kodak Vision3 500T 5219];
  • RED JOAN (Trevor Nunn): 35mm;
  • THE BEACH BUM (Harmony Korine): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • POKÉMON: DETECTIVE PIKACHU (Rob Letterman): 35mm [Kodak Vision3 500T 5219, Vision3 50D 5203];
  • HIGH LIFE (Claire Denis): 16mm [Kodak Super 16];
  • PÁJAROS DE VERANO (Ciro Guerra e Cristina Gallego): 35mm [Kodak Vision3 50D 5203, Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • PETRA (Jaime Rosales): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • UN COUTEAU DANS LE COEUR (Yann Gonzalez): 16mm [Kodak Vision3 200T 7213, Vision3 500T 7219, Eastman Double-X 7222, Wittner Chrome 200D] e 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];
  • HER SMELL (Alex Ross Perry): 35mm [Kodak];
  • ONCE UPON A TIME... IN HOLLYWOOD (Quentin Tarantino): 8mm [Kodak Ektachrome 100D 7294], 16mm [Kodak Ektachrome 100D 7285] e 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];


Paralelamente às estreias em sala, e em jeito de curiosidade, é digno de registo os quatro filmes rodados em película que, no nosso país, conheceram exibição "privativa" no Netflix — uma realidade que não só enfatiza o dilema mencionado no primeiro parágrafo deste balanço, como promete proporcionar redobrado debate em 2020: UNCUT GEMS, o novo filme de Josh e Benny Safdie rodado inteiramente em 35mm, chegará a Portugal no próximo dia 31 de Janeiro e exclusivamente através daquela plataforma de streaming.
  • ANIMA (Paul Thomas Anderson): 35mm [Kodak];
  • THE IRISHMAN (Martin Scorsese): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • 6 UNDERGROUND (Michael Bay): 35mm [Kodak];
  • MARRIAGE STORY (Noah Baumbach): 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];

Num breve exercício de antevisão, 2020 também poderá ser interessante em termos de produção em película. Só no próximo ano, teremos o regresso ao activo de alguns dos defensores do formato — Christopher Nolan a filmar TENET em 65mm; Wes Anderson preferiu a película de 16mm e 35mm para THE FRENCH DISPATCH; Greta Gerwig optou pelo 35mm para a sua versão de LITTLE WOMEN; o remake de WEST SIDE STORY, por Steven Spielberg, está a ser rodado em analógico... —, assim como produção portuguesa em 16mm (TU ACIMA DE TUDO, de Lucas Elliot Eberl e Edgar Morais) e de uma contínua presença dos players tecnológicos (SEBERG, de Benedict Andrews e filmado em 35mm, chegar-nos-à pela chancela da Amazon Studios) no mercado, há muitas hipóteses de, daqui a doze meses, podermos fazer mais um "balanço analógico" positivo.

Imagem:
1 Logotipo KODAK Motion Picture Film.
2 Imagem dos bastidores de THE FAVOURITE, rodado em película de 35mm (© Atsushi Nishijima / Fox Searchlight).
3 Fotogramas de ONCE UPON A TIME... IN HOLLYWOOD, © CPC London.
4 Fotograma de MARRIAGE STORY, © Nick Lazzaro.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O Arquivo do Dia #329 — Efeitos Visuais à Moda Antiga



Produzido em mil novecentos e quarenta e sete pela californiana Castle Films, CAMERA MAGIC é uma curiosa e recreativa compilação de muitas das "trapaças" visuais que o Cinema, naquela década, já era capaz de inventar a partir de simples truques fotográficos e de montagem.

Ao longo de nove minutos, numa cópia em 8mm, e sem som, actualmente preservada pela The Bill Sprague Collection, revisitamos as maravilhas que técnicas e ilusões de óptica como a perspectiva forçada, a fotomontagem, os time-lapses, as duplas exposições ou os stop tricks eram capazes de reproduzir como meio para o absoluto encantamento dos espectadores.



[Fontes: Castle Films / The Bill Sprague Collection].
[Imagem: Castle Films / Talking Pictures TV].

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Novidades Analógicas #15: Doclisboa 2019



A menos de vinte e quatro horas do início do Doclisboa 2019, o Síndroma do Vinagre debruça-se sobre a "oferta analógica" que o Festival nos reserva este ano.

Partindo dos títulos que foram rodados, inteira ou parcialmente, em formatos de película, assim como aqueles que fazem das imagens de arquivo a sua principal fonte de trabalho, conclui-se que a programação do Doclisboa 2019 — neste exercício, não foram tomados em linha de consideração os títulos que compõem as retrospectivas do Festival — irá exibir mais de vinte filmes "analógicos", sendo particularmente curiosa a predominância no recurso à película de 16mm.



Competição Internacional

Competição Portuguesa


Riscos

Da Terra à Lua


Heart Beat

Doc Alliance

Competição Internacional

[Fonte: Doclisboa 2019].

Imagens:
1 Doclisboa.
2 Fotograma de JOURNEY THROUGH A BODY; Camille Degeye.
3 Fotograma de RAPOSA (Leonor Noivo); Terratreme Filmes.
4 Fotograma de THE QUIET ONE (Oliver Murray); My Accomplice & Gizmo Films.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Estreia da Semana: VICE



VICE, de Adam McKay, rodado em película de 8mm (Kodak Vision3 500T 7219), 16mm (Kodak Vision3 500T 7219) e 35mm (Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219).

«As the story is complex and involved, we felt most of the production needed to be filmed on 35mm with low-contrast and in quite a classic, traditional manner – with the camera locked-off or with simple dolly and track moves – like you would find in a beautifully-shot film from the 1970s», Greig Fraser, director de fotografia do filme.

[Fonte: Kodak Motion Picture Film].
[Imagem: Matt Kennedy / Annapurna Pictures].

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O Arquivo do Dia #25 — "You Don't Know What You're Missing, Now"



A 7 de Junho de 1977, o influente grupo de rock Led Zeppelin sobe ao palco do Madison Square Garden, em Nova Iorque, para o primeiro de seis concertos ao vivo (todos esgotados), naquele que foi um dos pontos altos da North American Tour 1977.

Uma tournée emblemática, repleta de "tensão, dissabores e negatividade", a North American Tour tornar-se-ia referência para os grandiosos espectáculos de intérpretes como Bruce Springsteen ou os U2, mas assinalaria o princípio do fim da banda londrina. Para a recordar, os arquivos dos Led Zeppelin abrigam este raro home movie, registado em película de 8mm.



[Fonte: Led Zeppelin].
[Imagem: Louder].

sábado, 9 de dezembro de 2017

O Cinema de 2017 — Um Balanço em 35mm



Com o aproximar do término de 2017, e embora este não seja o espaço mais propenso a estatísticas nem à delineação de listas evocativas dos últimos 12 meses, o único balanço que efectuaremos terá de recair, obrigatoriamente, sobre a reflexão em torno da presença, durante o ano, da película na produção e distribuição de cinema.

Sem mais delongas, enunciemos os algarismos que nos importam: em 2017, e num universo de 409 estreias em Portugal1, foram exibidos 31 filmes produzidos, inteira ou parcialmente, em película. Se o rácio entre analógico e digital revela o domínio quase absoluto deste último formato, o "saldo" do presente ano demonstra uma ligeira progressão em relação a 2016, durante o qual 26 títulos rodados em película chegaram às nossas salas.

No entanto, é a partir da análise destes singelos 31 filmes que se extraem as mais interessantes conclusões. Para a sua explanação, comecemos por destacar quais foram as produções em película estreadas no país — ordenadas por data de estreia, dispostas por título, realizador, formato e (quando disponível) detalhes técnicos, e onde já se contabiliza STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI, a última grande "estreia analógica" do ano:



Do rol exaustivo acima apresentado, um pormenor (senão mesmo o mais importante) "salta" imediatamente à atenção: rodagens em película não são um exclusivo de filmes independentes ou de autor. Na verdade, os títulos que maioritariamente recorrem ao analógico são blockbusters de acção, super-heróis e mundos fantásticos, ou realizações pelos indefectíveis da película (Martin Scorsese, Christopher Nolan, James Gray, Aki Kaurismäki e Edgar Wright).

Desta realidade, e perante uma indústria que quase relegou a película ao estatuto de consumada obsolescência, o facto de duas grandes produções baseadas no universo da DC Comics, assim como o mais recente capítulo da saga espacial criada por George Lucas, serem rodadas em 35mm e 65mm, representa o maior elogio que a nossa "era digital" poderia prestar à qualidade de imagem da película.



Outro item de relevo é o domínio prático demonstrado pela Kodak no fornecimento de película para rodagens dos mais variados pontos geográficos ou orçamentos2. E, por inerência, a empresa norte-americana constitui-se, actualmente, como a única grande player especializada neste ramo de actividade.

2018 não deverá reservar alterações de relevo a estas tendências, uma vez que já se perfila um conjunto de títulos3, para os primeiros meses do próximo ano, que continuará a manter o granulado, a qualidade e o charme da imagem analógica bem presentes nas salas de cinema portuguesas. Daqui a 12 meses, aqui estaremos para a respectiva "prova dos nove".

Notas:
1 Conforme dados do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), e de informação recolhida em sites de referência, como o cinecartaz ou o filmSPOT.
2 Fica confirmada a "sobrevivência", anunciada pela empresa em 2015, da produção de filme em 35mm.
3 THE KILLING OF A SACRED DEER (Yorgos Lanthimos), CHAMA-ME PELO TEU NOME (Luca Guadagnino), THE POST (Steven Spielberg), LINHA FANTASMA (Paul Thomas Anderson), WONDERSTRUCK: O MUSEU DAS MARAVILHAS (Todd Haynes)...

Imagens:
1 Fotograma de DUNKIRK, CNN.
2 Fotograma de cópia, em 70mm, de WONDER WOMAN, Music Box Theatre.
3 Cópia em 35mm de BABY DRIVER, Alamo Drafthouse Cinema.