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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Pintar na Película "sem Talento Para a Pintura": No Aniversário de Stan Brakhage



«Imagine an eye unruled by man-made laws of perspective, an eye unprejudiced by compositional logic, an eye which does not respond to the name of everything but which must know each object encountered in life through an adventure of perception. (...) Imagine a world alive with incomprehensible objects and shimmering with an endless variety of movement and innumerable gradations of color. Imagine a world before the 'beginning was the word.», Stan Brakhage in Metaphors On Vision

Nascido a 14 de Janeiro de 1933, Stan Brakhage foi um dos mais importantes autores de Cinema Experimental do Século XX, numa profusa filmografia que explorou diversos formatos, técnicas — da pintura aplicada directamente sobre o celulóide ao fast cutting e à dupla exposição — e temáticas como nascimento (WINDOW WATER BABY MOVING, 1959) e morte (THE ACT OF SEEING WITH ONE'S OWN EYES, 1971), sexualidade (SEXUAL MEDITATION: ROOM WITH VIEW, 1971) e inocência (SCENES FROM UNDER CHILDHOOD #1, 1967). Para além da realização, Brakhage publicou vários livros sobre Cinema e leccionou História do Cinema e Estética no School of the Art Institute of Chicago e na Universidade do Colorado.

Em 1985, a Public Broadcasting Service (PBS), em parceria com o crítico norte-americano Howie Movshovitz, dedicou um especial informativo à obra e filosofia artística de Stan Brakhage. REFLECTING THOUGHT: STAN BRAKHAGE, que abaixo partilhamos, revela, sem pretensões biográficas, um vislumbre do seu quotidiano "doméstico", a presença do cineasta no Telluride Film Festival de 1983 e as filosofias de vida que moveram tanto o homem como o autor.

Todavia, o mais fascinante deste breve documentário reside em observarmos Stan Brakhage na sua mesa de trabalho, onde as tiras de película eram dispostas, pensadas e, nas palavras do próprio cineasta, "cultivadas", numa busca pela composição de imagens condicionada por uma (admitida) insuficiente habilidade para a pintura, mas pautada pela "lógica consciente" que as formas, o movimento e as cores adquiriam quando impressionadas através da luz do projector.



[Fontes: Centre Productions / KRMA-TV / Public Broadcasting Service / CircuitoNomadica].
[Imagem: Sally Dixon / Walker Art Center].

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

1001 FILMS (1989, André Delvaux): Um Ensaio Sobre a Fragilidade Cinematográfica



«Delvaux juxtaposes a series of evocative images of observation, reconstruction, and projection using film fragments — from the hand-painted, altered image frames of Georges Méliès’ KINGDOM OF THE FAIRIES to the iconic image of Louise Brooks — with the erratic texturality and uneven contrast of the disintegrating film stock to create a thoughtful and resonant nocturne to film as an articulate, but ephemeral social testament of magic, wonderment, dreams, and seduction», in Strictly Film School.

Comissionado em mil novecentos e oitenta e nove pela Cinémathèque Royale de Belgique, 1001 FILMS é um conciso mas notável ensaio poético sobre a fragilidade da memória, a vulnerabilidade dos suportes fílmicos e a exigência da preservação da imagem em movimento, numa curta-metragem documental que, pelas diversas dimensões de interpretação encerradas na sua curta duração, merece repetidas e esporádicas visualizações.



[Fonte e Imagem: Cinémathèque Royale de Belgique].

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O Arquivo do Dia #330 — Veneza Desconhecida



Realizado em mil novecentos e quarenta e dois, por Francesco Pasinetti — um dos primeiros autores italianos a abraçar, ainda nos anos trinta, as sensibilidades do Cinema Neo-Realista tanto na ficção como no documentarismo —, VENEZIA MINORE revela-se um brando documentário sobre a cidade de Veneza, muito tempo antes de se converter num dos principais destinos turísticos da Europa, de se tornar em "capital" de glamour por intermédio do seu Festival de Cinema e de, tal como tem feito notícia por estes dias, ser exemplo notório da ameaça que constitui as alterações climáticas.

Pela lente de Pasinetti, o que aqui observamos é a Veneza que nunca figurou em postais turísticos. Uma cidade formada pelas vivências da sua população humilde que, entre os canais e ruelas da cidade, labora de forma anónima, lado a lado com brincadeiras infantis de rua, longos estendais de roupa branca e inevitável devoção religiosa.



[Fonte: Istituto Luce Cinecittà].
[Imagem: Wikimedia Commons / Istituto Luce Cinecittà].

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O Arquivo do Dia #329 — Efeitos Visuais à Moda Antiga



Produzido em mil novecentos e quarenta e sete pela californiana Castle Films, CAMERA MAGIC é uma curiosa e recreativa compilação de muitas das "trapaças" visuais que o Cinema, naquela década, já era capaz de inventar a partir de simples truques fotográficos e de montagem.

Ao longo de nove minutos, numa cópia em 8mm, e sem som, actualmente preservada pela The Bill Sprague Collection, revisitamos as maravilhas que técnicas e ilusões de óptica como a perspectiva forçada, a fotomontagem, os time-lapses, as duplas exposições ou os stop tricks eram capazes de reproduzir como meio para o absoluto encantamento dos espectadores.



[Fontes: Castle Films / The Bill Sprague Collection].
[Imagem: Castle Films / Talking Pictures TV].

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O Arquivo do Dia #328 — O Cinema 'Found Footage' de Chick Strand



No regresso ao activo d'O Arquivo do Dia, assoma-se pertinente sublinhar a obra de uma cineasta que, entre o documentário e as ambiências experimentalistas, tomou as imagens de arquivo e conteúdos found footage como principal matéria-prima para a sua criatividade. Chick Strand, cujo trabalho já foi descrito como "pioneiro na harmonia de técnicas avant-garde com o documentarismo", dedicou grande parte da sua filmografia a temáticas feministas e reflexões antropológicas em torno da condição humana, num conjunto cinematográfico que, todavia, teima em encontrar significativo reconhecimento.

LOOSE ENDS, uma "versão dissimulada da Bela e o Monstro" realizada em mil novecentos e setenta e nove, vai das origens do Cinema — Lumière, Muybridge, demonstrações da inflamabilidade da película de nitrato... — a diversas obras (por vezes lúdicas, por outras grotescas) de cariz institucional para a análise da condição social, dos estereótipos, das experiências traumáticas e da própria representação cinematográfica da Mulher ao longo do Século XX.



[Fontes: Chick Strand / therealeyedeal].
[Imagem: Neon Park / Conversations at the Edge (CATE)].

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O Arquivo do Dia #324 — Um "Passatempo" Chamado Depeche Mode



Filmado em dois mil e oito por Jeremy Deller e Nicholas Abrahams, realizadores com considerável produção de documentários musicais (SIGUR RÓS: EKKI MÚKK ou THE BRUCE LACEY EXPERIENCE, para referir dois títulos com maior notoriedade), e num Arquivo com potencial para ocupar a rubrica de Filmes Reencontrados publicada neste espaço, OUR HOBBY IS DEPECHE MODE (também conhecido como THE POSTERS CAME FROM THE WALLS) esteve, durante mais de uma década, desaparecido do "escrutínio" público por razões que nem os seus autores, numa entrevista concedida ao site Dangerous Minds, sabem explicar em detalhe.

Ilustrado pela sonoridade dos Depeche Mode, OUR HOBBY IS DEPECHE MODE é um fascinante documento que se revela inteiramente dedicado aos fãs do conjunto de Essex. Desde imagens "rapinadas" ao público durante concertos ao vivo até aos testemunhos e às manifestações mais sui generis de afeição em torno de um estilo musical, ou da iconografia que rodeia o vocalista Dave Gahan, eis um conciso documentário que agradará até os aficionados mais moderados dos Depeche Mode.



[Fontes: Dangerous Minds / Open Culture].
[Imagem: Koh Hasebe / Shinko Music / Getty Images].

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #315 — A Ficção-Científica Segundo Isaac Asimov



Sentado em frente à sua máquina de escrever, em pleno processo de escrita — uma visão genuinamente rara, no que a imagens em movimento se refere —, olhos fixos no espectador enquanto as suas palavras são captadas no belíssimo formato da película de 16mm, Isaac Asimov traça a sua opinião e o seu conhecimento sobre a história da ficção-científica, enquanto género literário e cinematográfico, ao longo do Século XX.

A HISTORY OF SCIENCE FICTION FROM 1938, curta-metragem documental produzida em mil novecentos e setenta e um para a Universidade do Kansas, e como o título indica, apresenta-nos o autor da saga "A Fundação" e de "I, Robot" a discorrer, numa meia hora deveras enciclopédica, sobre os momentos (as pulp magazines, o surgimento da literatura de Robert A. Heinlein ou Ray Bradbury, os filmes de série B dos anos cinquenta, a chegada do Homem à Lua como o pináculo de toda a ficção concebida até à época) que, na sua opinião, marcaram o género da ficção-científica.



[Fontes: Universidade do Kansas / mrnobodysprincess].
[Imagem: Gizmodo].

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #313 — 'Black' Cinema



A propósito da exibição HORROR NOIRE: A HISTORY OF BLACK HORROR, durante a mais recente edição do MotelX, o Arquivo de hoje salienta uma anterior experiência documental que, de forma sumária mas abrangente, também evoca o percurso de actores, personagens e indivíduos negros ao longo da história do Cinema Americano. PASSION AND MEMORY, produzido para televisão em mil novecentos e oitenta e seis, releva cinco personalidades que, entre limitações de typecasting e latentes tensões raciais em Hollywood, desempenharam um papel fundamental na evolução do intérprete afro-americano.

Durante uma hora, com narração do actor Robert Guillame, são destacadas as carreiras de Stepin' Fetchit, Hattie McDaniel, Bill Robinson, Dorothy Dandridge e Sidney Poitier, enquanto principais responsáveis para o estabelecimento de direitos e iguais oportunidades de trabalho. E, de um ponto de vista estritamente arquivístico, PASSION AND MEMORY distingue-se, igualmente, por um conjunto de testemunhos filmados — desde os próprios homenageados do documentário a colegas actores, críticos de cinema e historiadores — que oferece uma percepção, sóbria e minuciosa, sobre décadas de segregação e preconceitos na Sétima Arte.



[Fontes: Public Broadcasting Service (PBS) / reelblack].
[Imagem: Selznick International Pictures / Metro-Goldwyn-Mayer].

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #307 — Antero de Quental, o "Santo Vivo"



A onze de Setembro de mil oitocentos e noventa e um, o escritor e poeta Antero de Quental, uma das principais figuras da literatura portuguesa do Século XIX e eminente crítico das realidades sociais e económicas daquela época, põe termo à vida, na sua Ponta Delgada natal, com dois tiros, num banco de jardim junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança. Resultado de uma depressão profunda — condicionada, provavelmente, pelo distúrbio bipolar de que padecia — e de um pessimismo causado pelo sentimento de incapacidade em transformar a sociedade que o rodeava, o suicídio de Antero de Quental será o aspecto mais citado da biografia do autor de 'Odes Modernas' e 'Causas da decadência dos povos peninsulares'.

Dos arquivos da RTP, recuperamos hoje o documentário Literatura Portuguesa: Moderna e Contemporânea, programa supervisionado pelo professor catedrático Carlos Reis, onde se destaca a personalidade literária de Antero de Quental, com ênfase nas diversas etapas — da poesia militante ao pendor metafísico que adoptou durante os derradeiros anos de vida — da sua obra, no espírito das Conferências do Casino, nos seus ideais político-sociais e na elevação do vigor intelectual do homem que Eça de Queirós apelidou de "Santo Vivo".



[Fontes: Arquivos RTP / João Reininho].
[Imagem: José Pacheco Toste - Photographia Central - Foto Toste / Instituto Cultural de Ponta Delgada - Colecção Fotográfica Digital: PT/ICPD/CFP].

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #306 — Encontros Imediatos do Terceiro Grau



A busca pela prova, científica e irrefutável, da existência de vida extraterrestre tem sido, ao longo de vários séculos, uma fonte de inspiração e motivação para a Humanidade. Nos últimos cem anos, o fenómeno dos OVNI, os relatos do avistamento de estranhas luzes no céu ou o eco na comunicação social das histórias de quem afirma ter contactado indivíduos de outros mundos, alimentaram não só a imaginação do comum cidadão, como também de escritores, cineastas, argumentistas e compositores musicais, numa dinâmica que se saldou pela abundante produção de material criativo envolvente e popular, intrigante ou arrebatador na sua essência e, muitas das vezes, extremamente lucrativo.

A conjugação destas realidades foi analisada, em mil novecentos e setenta e sete, no documentário UFOs ARE HERE!. Realizado por Guy Baskin para o canal de televisão australiano Channel 9, o filme apresenta, em pouco menos de hora e meia, as diversas opiniões sobre o tema de nomes como Steven Spielberg, Jacques Vallée e J. Allen Hynek, elabora sobre teorias de conspiração e encobrimento da verdade por forças governamentais e, de um modo quase sensacionalista, entrevista Kenneth Arnold e Betty Hill, duas famosas "testemunhas" que viveram um encontro imediato do terceiro grau.



[Fontes: Channel 9 / weirdlectures].
[Imagem: Bettmann / Corbis / The New York Times].

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #305 — O Massacre de My Lai



A cinco de Setembro de mil novecentos e sessenta e nove, o tenente norte-americano William L. Calley é formalmente indiciado com seis acusações de homicídio premeditado, após vários meses de investigação em torno do denominado "Massacre de My Lai". Em Março de mil novecentos e sessenta e oito, o Primeiro Pelotão da Companhia de Infantaria Charlie dizimou a aldeia de My Lai e localidades adjacentes, numa acção militar que resultou na morte de cento e nove civis vietnamitas e só interrompida pela intervenção de Hugh Thompson, Jr., um piloto de helicóptero, que ameaçou disparar sobre os soldados americanos se não cessassem as atrocidades. De todos os intervenientes, William L. Calley foi o único a ser julgado e condenado pelo massacre.

Em mil novecentos e setenta, no auge da contestação pública ao envolvimento americano no Vietname, o realizador Joseph Strick localizou cinco soldados presentes em My Lay, convidando-os a recordar e a expor, em retrospectiva, as suas opiniões sobre os acontecimentos daquele dia. O resultado desse trabalho é INTERVIEWS WITH MY LAI VETERANS (abaixo partilhado em duas partes), curta-metragem documental vencedora do Oscar da categoria e um objecto de pura confrontação moral e emocional — não só em relação aos actos destes veteranos, como à insensata desumanidade da guerra e, em última instância, ao espírito de reflexão do próprio espectador.





[Fontes: Laser Film Corporation / Ryan Plant].
[Imagem: Ron Haeberle / My Lai Collection / The Vietnam Center and Archive / Texas Tech University / allthatsinteresting.com/].

sábado, 20 de julho de 2019

A Febre do Arquivo #6: Apollo 11 (2019, Todd Douglas Miller)



"I do say that space can be explored and mastered without feeding the fires of war, without repeating the mistakes that man has made in extending his writ around this globe of ours.

There is no strife, no prejudice, no national conflict in outer space as yet. Its hazards are hostile to us all. Its conquest deserves the best of all mankind, and its opportunity for peaceful cooperation may never come again.

(John F. Kennedy)

Da diversa iconografia que, habitualmente, é destacada para a definição dos acontecimentos marcantes do Século XX, as imagens da chegada de Neil Armstrong e Buzz Aldrin à Lua, a vinte de Julho de mil novecentos e sessenta e nove, contam-se entre as mais célebres, reproduzidas e escrutinadas dos últimos cinquenta anos. Nesse mesmo período de tempo, versando sobre a Apollo 11, multiplicaram-se filmes e séries documentais, gizou-se literatura fotobiográfica, ensaios históricos e recriações em banda desenhada, e até se desenvolveram jogos de computador.



É, portanto, no seio de uma abundante produção historiográfica (e não esquecendo a existência de footage cujo paradeiro ainda nos "esquiva") que APOLLO 11 imprime novo fôlego a um tema já merecedor de variadas abordagens. Inteiramente composto por materiais de arquivo, nos quais se inclui metragem filmada pela NASA em 70mm que nunca conheceu apresentação pública, o grande trunfo do documentário de Todd Douglas Miller reside, precisamente, numa montagem daquele acervo fílmico capaz de reconstruir o arrebatamento que o mundo então nutriu em torno da missão e objectivos da Apollo 11.

APOLLO 11 esboça, acima de tudo, a dinâmica e profusa narração audiovisual da cadeia de acontecimentos: das impressionantes imagens em 70mm (os momentos na plataforma de lançamento ou a visão do entusiasmo dos populares que então observaram o evento ao vivo são, neste grande formato, particularmente impressionantes) aos filmes captados por operadores que, literalmente, circularam pelos responsáveis da missão na sala de controlo do Centro Espacial Kennedy, do material recolhido pelas câmaras de 16mm que acompanharam os três astronautas à sua extensa cobertura televisiva, o trabalho de reconstituição — por vezes, ao ínfimo segundo — executado por Todd Douglas Miller suplanta os conceitos básicos do documentário histórico. Na verdade, mesmo que todos saibamos o desfecho e os protagonistas da missão da Apollo 11, permanecerá no espectador o tangível sentimento de novidade.



Nesse âmbito, é obrigatório enfatizar o percurso e a recuperação da metragem em película de 70mm tratada pela produção de APOLLO 11. Armazenadas durante décadas nos cofres do National Archives, em cento e setenta e sete bobines rotuladas de forma insuficiente — nas caixas, "Apollo 11" era o único elemento identificador do seu conteúdo —, o facto de estas imagens nunca terem sido exibidas (com a excepção de breves fragmentos incluídos no documentário MOONWALK ONE) foi, aparentemente, motivado pela impossibilidade técnica, por parte da NASA, de trabalhar em grandes formatos fílmicos.

Não obstante os anos em que esteve votado ao "esquecimento", a preservação desse material provou ser melhor que a ideal. A digitalização de fotogramas em 16mm, 35mm e 70mm, num perfeito estado de conservação, e respectivo tratamento por Todd Douglas Miller e a sua equipa de edição, revela APOLLO 11 não só enquanto puro filme de montagem — fundindo e expandindo os limites do cinéma vérité e do cinema directo enquanto géneros documentais — mas, sobretudo, como (mais uma) pragmática demonstração do poder dos suportes analógicos para a "retenção" da memória da Humanidade.



Fruto do trabalho de arquivo congregado em APOLLO 11, o filme providencia uma interpretação fresca e alternativa de um dos eventos mais importantes do século passado, um absoluto testemunho fílmico de desenvolvimento e progresso científicos, ao mesmo tempo que não sonega o contexto temporal em que as suas imagens foram registadas — isto é, os últimos meses da década de sessenta, quando os sucessos tecnológicos da NASA galvanizaram a psique norte-americana, vincada pela Guerra do Vietname e consequente inquietação social, por segregação racial, pela ausência de igualdade de género (Margaret Hamilton, a única mulher envolvida no projecto Apollo 11, ganha peculiar destaque na montagem de Todd Douglas Miller) e pela esperança em torno do fim da Corrida Espacial.

APOLLO 11 é produto para ser visto em grande ecrã e, nesse aspecto, importa lamentar a impossibilidade (não só no nosso país) de o visualizar nesse contexto. Formatos de exibição à parte, a mensagem e o poder de atracção do filme permanecerão, decisivamente, nos originais analógicos que os sustêm.

[Imagens: National Aeronautics and Space Administration (NASA) / CNN Films / Statement Pictures.]

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O Arquivo do Dia #289 — "Dossier Apollo 11": O Legado da Apollo 10



Sobre o triunfo da Apollo 11, revela-se historicamente impossível não salientar o papel desempenhado pela tripulação da Apollo 10. Durante oito dias, e poucos meses antes de Neil Armstrong pisar a superfície lunar pela primeira vez, os astronautas Thomas Stafford, John Young e Eugene Cernan, a bordo da nave Charlie Brown, concretizaram os derradeiros testes de preparação para a Apollo 11, com particular atenção aos procedimentos de descida e subida que o módulo lunar iria adoptar em Julho de mil novecentos e sessenta e nove. A Apollo 10 ficaria, também, para a posteridade como a primeira missão espacial a ter emissão televisiva, ao vivo e a cores, para todo o mundo.

Na semana em que o Arquivo se dedica aos cinquenta anos da Chegada do Homem à Lua, recordamos hoje TO SORT OUT THE UNKNOWNS. Documentário produzido pela NASA, o filme pormenoriza a viagem da Apollo 10, focando tanto os sucessos, como as múltiplas dificuldades técnicas que a sua tripulação tratou de reportar e solucionar, de um voo quase tão histórico como o da Apollo 11: pelo menos, à sua tripulação, ninguém nega a "autoria" desta imagem da Terra, então completamente inédita para a humanidade.



[Fontes: National Aeronautics and Space Administration (NASA) / AIRBOYD].
[Imagem: Johnson Space Center / National Aeronautics and Space Administration (NASA)].

sábado, 13 de julho de 2019

O Arquivo do Dia #286 — Deus, O Universo e Mais Qualquer Coisa



Em mil novecentos e oitenta e oito, por iniciativa da Central Independent Television (hoje ITV Central) e com moderação do jornalista Magnus Magnusson, GOD, THE UNIVERSE AND EVERYTHING ELSE reunia, no mesmo tempo de antena, três das personalidades mais influentes no ramo da "Ciência Popular" do Século XX: Stephen Hawking, Arthur C. Clarke e Carl Sagan, os quais, ao longo de quase uma hora, discutiram a Teoria do Big Bang, o significado de Deus, a nossa existência e a probabilidade de vida extraterrestre.

Debate que conquistou estatuto de icónico, o Arquivo de hoje invoca GOD, THE UNIVERSE AND EVERYTHING ELSE também para relembrar uma tipologia de conteúdo televisivo em práticas vias de extinção nos dias que correm — onde o pensamento crítico fluía, o respeito pela opinião contrária reinava e a educação do público por via do audiovisual assumia-se evidentemente planeada.



[Fontes: ITV Central / TheScienceFoundation].
[Imagem: ITV Central / Boing Boing].

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O Arquivo do Dia #284 — O "Futuro" da Skylab



A onze de Julho de mil novecentos e setenta e nove, a estação espacial Skylab — uma das primeiras iniciativas, desenvolvidas pela NASA, com o intuito de abrigar tripulações de astronautas —, e no seio de grande frenesim mediático, reentra na atmosfera terrestre, destruindo-se prematuramente. Lançada ao espaço em Maio de mil novecentos e setenta e três, a Skylab possuía um telescópio multiespectral, diversas plataformas de ancoragem e um módulo orbital onde se concentravam as funções vitais da estação espacial, ao mesmo tempo que reunia um vasto sistema foto-fílmico a bordo que incluía película de 16mm, 35mm e 70mm. Durante a sua permanência em órbita da Terra, a Skylab foi palco de cerca de oitenta experiências científicas, entre as quais testes à habitabilidade humana no espaço até a estudos de cariz geológico, médico e tecnológicos.

No mesmo ano em que a Skylab iniciou a sua actividade, a NASA divulgava SKYLAB: MISSION MADE POSSIBLE, um conciso documentário com extensa informação técnica e visual sobre a estação espacial. Salientando as dificuldades técnicas que surgiram logo após o seu lançamento, assim como os esforços de reparação tentadas por missões tripuladas nos meses seguintes, o filme revela um tom simultaneamente optimista e prudente sobre o futuro da missão da Skylab que, apesar do seu "trágico" regresso à Terra, está classificada como concluída pela NASA.



[Fonte: Nasa Library].
[Imagem: NASA / Marshall History Program].

terça-feira, 18 de junho de 2019

Memórias em VHS #9: Recorder: The Marion Stokes Project



RECORDER: THE MARION STOKES PROJECT, documentário realizado por Matt Wolf, detalha a "missão de vida" da activista norte-americana Marion Marguerite Stokes que, ao longo de mais de três décadas, dedicou-se à gravação contínua, em VHS e Betamax, das transmissões dos principais canais noticiosos (Fox, MSNBC, CNN, C-SPAN, CNBC...) dos Estados Unidos.

O resultado desse empreendimento, também levado a cabo pela sua família mais próxima, é um arquivo com mais de setenta mil horas de conteúdo registado em fita analógica, repartido por cerca de cento e quarenta mil cassetes e em grande parte doado ao Internet Archive em dois mil e treze, que se constitui como importante repositório da memória e evolução do jornalismo televisivo norte-americano.



[Fonte: BRIC TV].
[Imagem: End Cue / Electric Chinoland / C41 Media].

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Filmes Restaurados: THE QUEEN (1968, Frank Simon)



Trailer para a versão restaurada de THE QUEEN, filme documental sobre o concurso de drag queens Miss All-American Camp Beauty Pageant, de mil novecentos e sessenta e sete, realizado por Frank Simon.



"As a documentary, crowning the final days of the 1967 Miss All-America Camp Beauty Pageant — judges and other notable names that year included Andy Warhol, Edie Sedgwick, and Mario Montez — it showed gay men being themselves in a verite style of documentation and won attention along the way, screening during the prestigous Cannes Film Festival in France."

Restauro em 4K, pela Kino Lorber, a partir dos negativos originais em 16mm (Kodachrome) do filme.

[Fontes: Kino Lorber / Out].
[Imagem: MDH / Si Litvinoff Film Production / Vineyard / Kino Lorber].

quinta-feira, 13 de junho de 2019

O Arquivo do Dia #272 — Yannick Bellon (1924 - 2019)



Realizadora e argumentista francesa, Yannick Bellon explorou ao pormenor, por intermédio de obras de pendor feminista e provocatório, a condição social da mulher, abordando temáticas como o divórcio (LA FEMME DE JEAN), o cancro da mama (L'AMOUR NU) ou os efeitos da violação numa jovem mulher — em L'AMOUR VIOLÉ, muito possivelmente o seu filme mais célebre. O "eterno feminino" foi, portanto, o coração do Cinema de Yannick Bellon, cujo falecimento, aos noventa e cinco anos de idade, é por estes dias registado pela imprensa cultural.

Para além deste percurso fílmico dramático ao longo das décadas de setenta e oitenta, Yannick Bellon assumiu, também, a realização de diversas séries documentais para a televisão francesa (sobretudo, BIBLIOTHÈQUE DE POCHE, dedicado às principais figuras da literatura francófona), destacando-se, na sua filmografia, LE SOUVENIR D'UN AVENIR, que o Arquivo de hoje partilha. Ao lado de Chris Marker, e a partir dos arquivos fotográficos da sua mãe Denise, Yannick Bellon propõe uma História da França assente no "fascínio da imagem fixa".



[Fontes: Arte France / Les Films de l'Equinoxe / Tis tián].
[Imagem: Serge Mouraret / Alamy].

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Arquivo do Dia #267 — "É na Terra Não É na Lua"



Realizado em mil novecentos e setenta e oito, por António Escudeiro, A ILHA DO CORVO destacava a localidade mais remota do arquipélago dos Açores — vários anos antes de Gonçalo Tocha o fazer no premiado documentário É NA TERRA NÃO É NA LUA —, numa observação ao melhor estilo do cinema-verdade ("sem sumário nem opinião"), na qual a aparente rudeza e a efectiva frugalidade do quotidiano daquela população salientavam um local de centenárias tradições e onde, de modo discreto, os "ventos" da Revolução de Abril já se faziam sentir.

Privado de qualquer narração e filmado em esplêndido 16mm, concedendo inteiro protagonismo à sabedoria popular, aos rostos dos corvinos e à "eloquência" das imagens em movimento, eis um registo de pura etnografia, que revela o estilo de vida, praticamente apartado de influências da industrialização e em permanente dependência da natureza, na pequena ilha onde a Europa encontra um dos seus pontos mais ocidentais.



[Fontes: Centro Português de Cinema / Fundação Calouste Gulbenkian / senhoritaspencer].
[Imagem: Centro Português de Cinema / Fundação Calouste Gulbenkian].

domingo, 2 de junho de 2019

O Arquivo do Dia #264 — No Aniversário de Lotte Reiniger



No dia em que comemoraria cento e vinte anos, o Arquivo de hoje recorda a vida e obra de Lotte Reiniger. Cineasta alemã, considerada de forma unânime como uma das percursoras do cinema de animação, Reiniger distinguiu-se pela mestria na animação com silhuetas, recorrendo à técnica do paper cutting e de clara influência do teatro de sombras, uma expressão artística indelevelmente ligada à própria arte do Cinema. Entre os mais de quarenta títulos que realizou, destacam-se filmes como DIE ABENTEUER DES PRINZEN ACHMED e SILHOUETTEN.

Em mil novecentos e setenta, o realizador britânico John Isaacs dedicou-lhe a curta-metragem documental THE ART OF LOTTE REINIGER, na qual, de modo sucinto mas muito detalhado, é explanada a técnica subjacente às pioneiras obras-primas de Lotte Reiniger.



[Fontes: Primrose Productions / lachambreverte].
[Imagem: Women's Activism NYC].