quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Blockbuster em Película #11



JUSTICE LEAGUE, de Zack Snyder, rodado em película de 35 mm (Kodak Vision3 500T 5219).

"Zack wanted to get away from the stylized, desaturated, super-high contrast looks of other films in the franchise. I am someone who likes to light very naturally, so that fitted my work ethic. It had already been decided that Justice League would shoot on 35mm film, and although I had not shot celluloid for several years, I was excited by the prospect.", Fabian Wagner, director de fotografia do filme.

[Fonte e imagem: Kodak].

sábado, 11 de novembro de 2017

Summits do Passado, Presente e Futuro



Na passada semana, a actualidade noticiosa foi absorvida pela organização, em Lisboa, da Web Summit. Sobre este fórum de tecnologia e empreendedorismo, e face ao aglomerado da cobertura mediática que acolheu nos últimos dias, pouco resta a acrescentar — sendo a única excepção, a este facto, a "análise dos resultados" de mais uma edição da summit de Paddy Cosgrave, e dos seus impactos para o futuro das sociedades ocidentais.

Num evento que reuniu start-ups, inovadores, personalidades políticas nacionais e internacionais, opinion makers e cerca de 60 mil participantes maioritariamente imbuídos de "gloriosa mentalidade" made in Silicon Valley, houve espaço para a apresentação de uma miríade de invenções de toda a natureza. Das tecnologias concebidas para a prosaica redução de custos (mensuráveis e imateriais) em ambientes empresariais, passando pela ideia da "Uberização" do espaço sideral ou pela exibição de andróides aparentemente inspirados das páginas de Philip K. Dick ou de um filme de Alex Garland, e culminando nas colecções de apps, e respectivos procedimentos, destinadas a roubar ainda mais complacência e tempo livre ao ser humano, a Web Summit 2017 fervilhou de futurismo tecnológico.

Contudo, e de toda a verborreia inovadora que brotou do Parque das Nações, não se reteve uma única frase que associe estes triunfos "tecnodigitais" à perpetuação da memória inerentemente humana, seja ela arcaica ou futura. Tudo é desenvolvido a pensar no "agora e a curto prazo".



Em sentido prático totalmente oposto, e a decorrer quase em simultâneo à Web Summit, a cidade de Varsóvia acolheu, nos passados dias 9 e 10 de Novembro, a Film Restoration Summit 2017.

Nesta série de conferências, lideradas por especialistas em restauro e preservação audiovisual de diversas nacionalidades, e em torno de um tema que, por definição, se debruça quase exclusivamente pelo passado, a tecnologia também esteve em plano de destaque. E o programa da Film Restoration Summit demonstra-o cabalmente: temas como os esforços para a digitalização de heranças audiovisuais, o papel dos arquivos fílmicos em ambientes digitais, os projectos de preservação digital em desenvolvimento, e a discussão sobre o passado e futuro da actividade de restauro cinematográfico dominaram os dois dias do certame.

Se os eventos acima destacados parecem confluir inteiramente no que a tecnologia e inovação digital dizem respeito, por que razão permanece a sensação de as suas intenções estarem em completa antinomia?



Sem pretensões de negar que aquilo que os oradores da Web Summit anunciaram esta semana vai desenhar, e transformar, o nosso quotidiano tal como o conhecemos, é para a perpetuação da memória audiovisual da Humanidade que a atenção deste espaço (admito, sou suspeito) vai pender.

Os suportes digitais mantêm contornos incertos sobre a sua fiabilidade, e o empreendedorismo tecnológico reveste-se de um posicionamento que privilegia a rescisão, a todos os níveis, do passado como matéria de estudo e orgulho. Deste modo, nunca será demais indagar as potencialidades dessa mesma tecnologia para a preservação de conteúdos (sobretudo, os do Século XX, do qual o Cinema foi a principal forma de arte e de registo histórico), e que suscitem no Homem a recordação das tentativas, erros e sucessos que definiram a nossa civilização.

Pois a Inteligência Artificial nunca fará esse trabalho por nós. Nem mesmo se, "carinhosamente", a baptizemos de Sophia.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Blockbuster em Película #10



MURDER ON THE ORIENT EXPRESS, de Kenneth Branagh, rodado em película de 65 mm (Kodak Vision3 500T 5219 — Panavision Super 70).



"Branagh shot the film on 65mm, using the last four 65mm Panavision cameras in the world, so the definition and depth offered by 65mm helped enhance both the claustrophobic atmosphere and epic scope the director wanted to achieve."

[Fonte: IGN].
[Imagem: Slash Film].
[Featurette: Youtube 20th Century FOX].

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Reencontro com LA BELLE MARINIÈRE



Vídeo promocional sobre a exibição, em Setembro passado, de LA BELLE MARINIÈRE, realizado por Harry Lachman e considerado perdido durante mais de sete décadas.

Está em curso o projecto de restauro do filme, com vista à sua edição em DVD, pela Lobster Films.



[Fonte: Musée du cinéma Bueil.]

sábado, 28 de outubro de 2017

Doclisboa '17: A Eloquência dos Arquivos de Cinema



Regressemos, então, ao Doclisboa '17. E de como o potencial historiográfico dos arquivos de Cinema e Televisão conheceu todo um novo fulgor por estes dias, ou não tivessem as expectativas geradas para a presente edição do Festival, aqui enunciadas na semana passada, sido inteiramente cumpridas.

Da experiência pessoal ao panorama geral político, três títulos destacaram-se na programação deste ano como exemplos acabados do exercício da justaposição de imagens de arquivo, sem narradores nem talking heads, com a elaboração de sentimentos, reflexões e incertezas que não só encontram novas leituras históricas, como também estão perfeitamente adequadas à realidade sócio-política contemporânea.



NO INTENSO AGORA parte dos home movies do seu realizador, João Moreira Salles, e das memórias que aquelas imagens de infância em Paris e no Brasil lhe suscitam, para escorrer em torno de eventos pivotais da segunda metade do Século XX — o Maio de 68, a Revolução Cultural de Mao Tse-Tung, a repressão soviética da Primavera de Praga — e respectivos efeitos sobre o nosso quotidiano.

No seu contexto formal, a "intervenção reflexiva" de João Moreira Salles ocorre inteiramente sobre o filme de arquivo. Desde a análise da psicomotricidade (slow motion, freeze frames, repetição...) do arremesso de uma pedra de calçada por um protestante no Maio de 68, passando pela minuciosa apresentação das origens do activismo de Daniel Cohn-Bendit, e almejando um conjunto de impressões, formuladas pelo cineasta, sobre o filme de um desconhecido grupo de cidadãos checos em convívio social, NO INTENSO AGORA é, simultaneamente, uma obra de perspectiva individual e colectiva.

A plenitude da narrativa histórica está completamente divulgada — e, a espaços, através de filmes verdadeiramente impressionantes captados por corajosos desconhecidos —, mas Salles nunca permite a sonegação de uma abordagem pessoal, tanto visual como na prosa da sua voz-off, dos acontecimentos realçados. E, por inerência, converte-nos em cúmplices de um passado revolucionário, utópico e de esperança, devorado pela conformada inércia do Homem ao longo dos últimos cinquenta anos.



Também de forma muito singular, é a partir do próprio acervo audiovisual da Guiné-Bissau que SPELL REEL constrói a sua metodologia e reflexão. Neste filme-ensaio de Filipa César (considerado por alguns críticos, de modo muito exacto, como "cinema arqueológico"), as quarenta horas de película, sobreviventes do calor da África Ocidental, negligência e Guerra Colonial, são um ponto de partida para a observação de como a formação histórica, e respectiva percepção colectiva, de um país pode brotar da visualização das imagens em movimento do seu passado.

De um arquivo cujo futuro de preservação e acesso público ainda permanece incerto (e isso ficou claro durante o Q&A, que procedeu à exibição do filme, com a realizadora), SPELL REEL destaca os momentos mais pragmáticos do processo de independência — incluindo o monetário — da Guiné-Bissau. O legado de Amílcar Cabral, a ideologia sócio-política do PAIGC, o percurso de cineastas guineenses (por exemplo, Flora Gomes ou Sana Na N'Hada, cujos filmes também são parte integrante daquele arquivo) formados em Cuba e breves apontamentos etnográficos são ecoados, no presente, por quem viveu aqueles acontecimentos e apresentados a gerações mais novas que não escondem o brilho de fascínio e curiosidade nos seus olhos.

Quando o filme termina, resta a sensação de que, nos dias que correm, é extremamente raro ver uma nação com tanto orgulho e desejo em conservar, sem olhar a constantes contrariedades políticas e económicas, um arquivo de Cinema como a Guiné-Bissau.



Os bons velhos tempos do videotape estão na génese de THE REAGAN SHOW, documentário que olha para a Administração Reagan (1981-1989) como uma era de puro "blockbuster político". Também inteiramente composto por imagens de arquivo — da CNN à NBC, mas com particular enfoque para a White House TV, constituída pelo próprio Reagan —, Pacho Velez e Sierra Pettengill detêm-se no circo mediático que aquele Presidente tratou de cultivar e incentivar.

Sem qualquer culto de personalidade à vista, a escolha das imagens salienta Ronald Reagan como homem convicto em seguir um "guião" em modo autopilot, num evidente elo de ligação ao seu passado em Hollywood, mas capaz de dominar as negociações mais intrincadas (nomeadamente, com Gorbachev).

Embora THE REAGAN SHOW não pretenda as mesmas implicações que outros filmes da mesma natureza (como é o caso do "corrosivo" SPIN) conseguiram formular, e se possa lamentar que eventos como a tentativa de assassinato perpetrada por John Hinckley Jr., as motivações e fundamentos do Reaganomics ou o Caso Irão-Contras conheçam pouco ou nenhum tempo de antena, o filme é mais um claro exemplo da eloquência do documentário histórico que possibilita aos arquivos "falarem" pelo poder do seu próprio conteúdo visual.

Imagens:
1 THE REAGAN SHOW, CNN Films.
2 NO INTENSO AGORA, Videofilmes Produções Artísticas Ltda.
3 SPELL REEL, Filmes do Tejo II.
4 THE REAGAN SHOW, pachoworks.com.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Dia Internacional do Património Audiovisual 2017



"Through images and sound, audiovisual heritage provides unique insight to the past as the basis for looking to the future. This heritage carries memories and testimonies, knowledge and ideas, in ways that are vivid and moving and that lay the foundations for better understanding and dialogue between and within generations, as well as between and within societies. Linking the past to the present, this heritage is part of our common history, and must be safeguarded and shared as a wellspring of identity and belonging, innovation and creativity". Irina Bokova, Directora Geral da UNESCO.

Por cá, a Cinemateca Portuguesa comemora o Dia Internacional do Património Audiovisual com a exibição de THE FAMILY JEWELS, homenageando também Jerry Lewis com um dos seus filmes menos conhecido.



Estreia da Semana: THE LOVE WITCH



THE LOVE WITCH, de Anna Biller, um tributo ao Technicolor dos anos 60 rodado em película de 35mm (Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 200T 5213).

[Imagem: The American Society of Cinematographers].

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DAWSON CITY: FROZEN TIME (2016, Bill Morrison)



Se Bill Morrison parece abdicar da poesia sensorial que despontava em, por exemplo, DECASIA (2002), DAWSON CITY: FROZEN TIME não deixa de ser um profundo objecto de elogio à perseverança da película em nitrato.

A redescoberta, em 1978, de mais de 500 bobines de película inflamável, preservadas desde os anos 20 no permanente gelo da região remota de Yukon, e que possibilitou a visualização de filmes considerados perdidos durante décadas, revela-se como mais uma eloquente prova da resistência do formato.

Os sinais de degradação na película podem ser evidentes (o documentário é maioritariamente constituído por excertos deste "achado arqueológico"), mas as narrativas, os rostos, as heroínas do cinema mudo, as "variedades", os escândalos desportivos, os news reels e as emoções de uma época são inteiramente perceptíveis, do primeiro ao último minuto de DAWSON CITY: FROZEN TIME, num magnífico reencontro do nitrato com a quente luz do projector.



O passar dos anos é ilustrado pelas imagens recuperadas em Dawson City, as quais são complemento ou oposição aos acontecimentos realçados, numa simples mas vívida linearidade cronológica: do primeiro momento em que se encontrou ouro nas margens do Rio Yukon, à constituição de uma corrida ao outo por aventureiros e exploradores (com direito a apropriadas referências a A QUIMERA DO OURO, de Chaplin, ou a notável curta documental de Colin Low e Wolf Koenig, CITY OF GOLD), e culminando nos sucessivos negócios de entretenimento que surgiram e encerraram naquela cidade — salas de exibição de Cinema incluídas —, o nitrato ganha uma nova vida, adquirindo leituras alternativas, líricos contornos e irónicos contextos face ao nosso presente.

A principal novidade, a nível formal, será mesmo o recurso à estrutura discursiva aqui mobilizada por Bill Morrison. Nenhum outro documentário anterior seu exibiu tanta informação através de legendas descritivas. Mas tal não menoriza a importância da imagem em celulóide, a matéria-prima fundamental do realizador, enquanto símbolo e unidade de preservação da memória "em movimento" da Humanidade.

sábado, 21 de outubro de 2017

Doclisboa '17: A Memória do Mundo Inteiro Cabe em Lisboa



No que à reflexão sobre preservação cinematográfica e pertinência histórica de arquivos fílmicos diz respeito, não existe género mais privilegiado do que o Documentário. Os exemplos disto mesmo são abundantes, sendo suficiente recordar títulos como os dedicados à obra e persona de Henri Langlois, ou de homenagem à Cinemateca Francesa que o próprio fundou, passando pela invocação de figuras do panorama nacional e culminando em filmes documentais que, desde muito cedo, alertaram a Humanidade para a importância da preservação e conservação das imagens em movimento.

Neste âmbito, e no nosso país, o Doclisboa revela-se como uma das "montras" mais diversificadas e iconoclastas na exibição de cinema documental. A comemorar os seus quinze anos de existência por estes dias, não deixa de ser curioso verificar, e imperativo sublinhar, o modo como a programação do Festival de 2017 (inadvertidamente ou não, só a sua direcção o poderá sentenciar) se debruça sobre estes temas. Seja numa abordagem directa ou por pura inferência, esta será, muito provavelmente, a edição que, no historial do evento, mais espaço de exibição proporciona à introspecção enunciada na primeira frase deste texto1.



Senão, vejamos o que nos oferece a selecção do Doclisboa 2017.

Desde o nitrato conservado pelo frio polar e recuperado para o "calor do projector" de DAWSON CITY: FROZEN TIME (Bill Morrison) à memória da História recente da Guiné-Bissau resgatada em SPELL REEL (Filipa César); da projecção de Cinema enquanto meio de resistência política em SEA OF CLOUDS (George Clark) ao "restauro cinematográfico" de um projecto nunca concretizado por André Bazin em LE FILM DE BAZIN (Pierre Hébert)...

Ou, ainda, a revisitação de Bárbara Virgínia, a primeira mulher a realizar em Portugal, e dos "sobreviventes" 26 minutos sem som do seu TRÊS DIAS SEM DEUS; da reciclagem de película em 16mm de MIROIR SÉB FRAGILE! (Sirah Foighel Brutmann e Eitan Efrat) até ao contexto político das imagens de arquivo agregado em NO INTENSO AGORA (João Moreira Salles); e, last but not least, teremos direito à exibição da versão restaurada de GRANDEUR ET DÉCADENCE D'UN PETIT COMMERCE DE CINÉMA (Jean-Luc Godard).



Importa, igualmente, vislumbrar a logística em torno da retrospectiva integral dedicada à cineasta checa Vera Chytilová como uma genuína ode ao mester da projecção em película. Para a sua concretização — e de acordo com fonte da direcção do Doclisboa —, viajaram para Portugal nada mais nada menos do que cerca de 400kg de filmes de Chytilová em formatos analógicos. Numa era em que os festivais de cinema também aderiram, quase incondicionalmente, ao DCP, eis um singular volume de película a ser projectado nos onze dias do certame.

Formular um pun ao slogan do Doclisboa é irresistível: em Outubro, a memória do mundo inteiro cabe em Lisboa. E, pela sua edição de 2017, também há lugar para muito Cinema sobre e em película.

Notas:
1 Em 2012, o Doclisboa organizou uma mesa redonda acerca deste tema, cujo resumo foi publicado neste blog.

Imagens:
1 DAWSON CITY: FROZEN TIME, Hypnotic Pictures.
2 SPELL REEL, Filmes do Tejo II.
3 Organização das bobines de filmes de Vera Chytilová, na Culturgest (foto de Edgar Ascensão).

[Agradecimento: Edgar Ascensão.]

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Film will survive as long as people continue to seek it out



Videoscope What are your thoughts on the importante of film preservation.

Mark Anastasio It's of the utmost importance. This is the medium — anything shot on 35mm deserves to be exhibited in 35mm. We need more people learning how to care for film elements and materials. Folks that are doing restorations — that's wonderful and I've seen some great-looking restorations — but I'm one of those people that claims no digital restoration can look better than original 35mm elements. There's something that we're losing with films going digital that I have not yet been able to articulate. There's a life and a movement and a vibrancy that a film print can give you — there are probably plenty of people that can technically refute this, but for me personally, film will always look better. Any sort of DCP just ends up looking — I mean, I've seen some that look fine, but there's something cold and lifeless about it.

(...)

Videoscope What would you say to someone who insists that film is dead?

Mark Anastasio I would say that film is very much alive in our house. In the month of October alone, twenty 35mm prints went through our projection booth. Film will survive as long as people continue to seek it out. There are art-house cinemas all over the country who are keeping this medium alive. The people who say that film is dead are the same people who are killing it by staying on their sofas watching Netflix, instead of seeking out a true cinematic experience. Film isn't dead, they are.

Mark Anastasio, director de programação do Coolidge Corner Theatre, para a revista Videoscope, edição de Outubro 2017.

[Imagem: BDCwire].