terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Outfest: A Preservação Audiovisual do Legado LGBTQ



Não sendo a primeira vez que, neste espaço, se escreve sobre a missão e as actividades do Outfest UCLA Legacy Project, não se afigura redundante salientar o importante trabalho que a organização tem desempenhado, ao longo de mais de uma década, para a preservação e restauro do património fílmico dedicado à temática LGBTQ.

Nesse âmbito, constata-se, com particular comprazimento, que o Outfest UCLA Legacy Project é "proprietário" de mais 41 mil elementos fílmicos (desde cópias em 16mm até a ficheiros digitais compilados em DVD, num rol que pode ser consultado no site oficial da organização) e de como tem desenvolvido, paralelamente, um sério e empenhado programa de restauros de obras cinematográficas — algumas das quais já consideradas de importância histórica, cultural e artística pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América.



De ANDERS ALS DIE ANDERN (de Richard Oswald, naquele que foi, em 1919, um dos primeiros filmes a retratar a homossexualidade sem estereótipos nem ofensa) ao influente PARIS IS BURNING (documentário de 1990, sobre a comunidade LGBT da Nova Iorque dos anos 80, realizado por Jennie Livingston), a lista, agora divulgada em pormenor, de títulos restaurados pelo Outfest UCLA Legacy Project revela um contínuo e privilegiado trabalho no sentido de mitigar preconceito e discriminação nas sociedades contemporâneas.

[Fonte: Outfest UCLA Legacy Project].
[Imagem: Fotograma de Ron and Chuck in Disneyland Discovery (1969, Pat Rocco) / Bizarre Productions].

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

"Fazer Cinema Como Se Vivesse Num Sonho": No Centenário de Federico Fellini



«His career compresses the comparable progress in literature from 19th century realism to the reflexive post-modernity of compatriots Italo Calvino and Luigi Pirandello. Exposing the means of fiction, playwrighting, or filmmaking in Fellini’s case (in contrast to the neorealist posture of delivering an unmediated story with newsreel aesthetics), all these authors uncover the “ploy” of authorship. It’s as if Fellini critiqued realism as an impossible notion by pointing up its fabrication and adding the suppressed element of the fantastic. In his own words, "I make a film in the same manner in which I live a dream..."», Antonia Shanahan in Senses of Cinema.

No momento em que se comemora o seu centenário, recordamos Federico Fellini, um dos autores cinematográficos mais influentes do Século XX pela realização de obras como LA STRADA (1954), LA DOLCE VITA (1960), (1963), GIULIETTA DEGLI SPIRITI (1965) e AMARCORD (1973), com um vislumbre do seu processo de trabalho. Perante a objectiva da Télévision Française 1, o arquivo abaixo partilhado apresenta o cineasta precisamente no modo que o distinguiu: em plena produção de CASANOVA (1976), dispondo actores (sobretudo, o próprio Donald Sutherland, aqui a demonstrar o seu diligente francês), movimentos de câmara e ambientes cénicos com a autoridade e o dinamismo provenientes da fértil imaginação de um incansável criador de "sensações em movimento".




[Fontes: Senses of Cinema / Télévision Française 1 / INA.fr].
[Imagem: United Artists Corporation / John Springer Collection / CORBIS / Getty Images].

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Estreia da Semana: ALVA



ALVA, de Ico Costa, rodado em película de 16mm.

«Director Ico Costa makes use of 16mm film to shoot his feature debut ALVA, a modest but potent entry into the slow cinema tradition. The natural grain, enhancing the texture and tactility of Henrique’s rural existence while imbuing the ambient natural light with a spectral, otherworldly quality, sets up an interplay between the corporeal and psychological which defines the central figure’s journey throughout the piece», Rhys Handley, na crítica do filme publicada no site Vague Visages.



[Fonte: Vague Visages].
[Imagem e Trailer: TERRATREME Filmes].

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Novidades Analógicas #17: Fotografia Analógica na Era Digital



«Search for the hashtag #FilmIsNotDead on Instagram and you’ll find more than 14 million posts from users all over the world. Why are younger generations embracing the slower process of shooting and developing film in a time when taking the perfect photo with our cellphones is cheap and instant gratification? Why are film and vintage camera sales up? And how has an online community helped revitalize the analog industry?»

Why We Still Love Film: Analog Photography in the Digital Age, um "featurette" produzido pelo colectivo de criativos NBC Left Field, propõe-se a discutir os motivos pelo qual a fotografia analógica continua a florescer e, de modo ainda mais surpreendente, junto de públicos que se movem, precisamente, no mundo digital: dos influencers das redes sociais às novas gerações de aficionados, a adesão ao "gesto" da fotografia em filme revela-se mais do que caprichosa nostalgia.



[Fonte: NBC Left Field].
[Imagem: Getty Images].

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Pintar na Película "sem Talento Para a Pintura": No Aniversário de Stan Brakhage



«Imagine an eye unruled by man-made laws of perspective, an eye unprejudiced by compositional logic, an eye which does not respond to the name of everything but which must know each object encountered in life through an adventure of perception. (...) Imagine a world alive with incomprehensible objects and shimmering with an endless variety of movement and innumerable gradations of color. Imagine a world before the 'beginning was the word.», Stan Brakhage in Metaphors On Vision

Nascido a 14 de Janeiro de 1933, Stan Brakhage foi um dos mais importantes autores de Cinema Experimental do Século XX, numa profusa filmografia que explorou diversos formatos, técnicas — da pintura aplicada directamente sobre o celulóide ao fast cutting e à dupla exposição — e temáticas como nascimento (WINDOW WATER BABY MOVING, 1959) e morte (THE ACT OF SEEING WITH ONE'S OWN EYES, 1971), sexualidade (SEXUAL MEDITATION: ROOM WITH VIEW, 1971) e inocência (SCENES FROM UNDER CHILDHOOD #1, 1967). Para além da realização, Brakhage publicou vários livros sobre Cinema e leccionou História do Cinema e Estética no School of the Art Institute of Chicago e na Universidade do Colorado.

Em 1985, a Public Broadcasting Service (PBS), em parceria com o crítico norte-americano Howie Movshovitz, dedicou um especial informativo à obra e filosofia artística de Stan Brakhage. REFLECTING THOUGHT: STAN BRAKHAGE, que abaixo partilhamos, revela, sem pretensões biográficas, um vislumbre do seu quotidiano "doméstico", a presença do cineasta no Telluride Film Festival de 1983 e as filosofias de vida que moveram tanto o homem como o autor.

Todavia, o mais fascinante deste breve documentário reside em observarmos Stan Brakhage na sua mesa de trabalho, onde as tiras de película eram dispostas, pensadas e, nas palavras do próprio cineasta, "cultivadas", numa busca pela composição de imagens condicionada por uma (admitida) insuficiente habilidade para a pintura, mas pautada pela "lógica consciente" que as formas, o movimento e as cores adquiriam quando impressionadas através da luz do projector.



[Fontes: Centre Productions / KRMA-TV / Public Broadcasting Service / CircuitoNomadica].
[Imagem: Sally Dixon / Walker Art Center].

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

1001 FILMS (1989, André Delvaux): Um Ensaio Sobre a Fragilidade Cinematográfica



«Delvaux juxtaposes a series of evocative images of observation, reconstruction, and projection using film fragments — from the hand-painted, altered image frames of Georges Méliès’ KINGDOM OF THE FAIRIES to the iconic image of Louise Brooks — with the erratic texturality and uneven contrast of the disintegrating film stock to create a thoughtful and resonant nocturne to film as an articulate, but ephemeral social testament of magic, wonderment, dreams, and seduction», in Strictly Film School.

Comissionado em mil novecentos e oitenta e nove pela Cinémathèque Royale de Belgique, 1001 FILMS é um conciso mas notável ensaio poético sobre a fragilidade da memória, a vulnerabilidade dos suportes fílmicos e a exigência da preservação da imagem em movimento, numa curta-metragem documental que, pelas diversas dimensões de interpretação encerradas na sua curta duração, merece repetidas e esporádicas visualizações.



[Fonte e Imagem: Cinémathèque Royale de Belgique].

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Novidades Analógicas #16: Moreton ft. James Vincent McMorrow, 'See Yourself'



Videoclip para See Yourself, tema sentimental interpretado pela australiana Moreton, em dueto com James Vincent McMorrow. Realizado por Mia Forrest, em película de 16mm (Kodak).



[Fonte: Niche Productions].
[Imagem: Kodak Motion Picture Film].

sábado, 28 de dezembro de 2019

O Cinema de 2019 — Um Balanço "Analógico"



No momento em que o Cinema volta a ser o protagonista de mais uma "batalha tecnológica" — isto é, entre a exibição em sala e o incremento da exclusividade de estreias em plataformas de streaming, com todas as implicações que essa nova dinâmica comercial veio trazer para o mercado da distribuição —, 2019 revelou-se um período animador e proveitoso no que toca à produção cinematográfica em suporte analógico.

Ao longo dos últimos doze meses, as salas de cinema portuguesas acolheram 30 títulos filmados, inteira ou parcialmente, em película. Esta contabilidade representa um ligeiro acréscimo de rodagens analógicas exibidas no nosso país, face aos 26 filmes estreados ao longo de 2018. Neste âmbito, e à semelhança dos anos anteriores, essa produção não se cingiu a nenhum contexto orçamental nem geografias ou temáticas em particular; o único denominador comum, aqui, é a opção pela Kodak enquanto fornecedor de suporte fílmico. A listagem de estreias em película no nosso país — ordenadas pela sua data de estreia e dispostas por título original, realizador, formato e (quando disponível) especificações técnicas —, que abaixo se publica, deixa claro que a "morte da película" foi prematuramente anunciada.

  • THE OLD MAN AND THE GUN (David Lowery): 16mm [Kodak Vision3 200T 7213];
  • VOX LUX (Brady Corbet): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];
  • THE FAVOURITE (Yorgos Lanthimos): 35mm [Kodak Vision3 500T 5219, Kodak Vision3 200T 5213, Kodak Vision3 50D 5203];

  • VICE (Adam McKay): 8mm [Kodak Vision3 500T 7219], 16mm [Kodak Vision3 500T 7219] e 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];
  • ASH IS PUREST WHITE (Jia Zhangke): 35mm;
  • CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS (João Salaviza e Renée Nader Messora): 16mm [Kodak Vision3 500T 7219];
  • THE KAMAGASAKI CAULDRON WAR (Leo Sato): 16mm;
  • AYKA (Sergei Dvortsevoy): 16mm [Kodak Vision3 250D 7207, Vision3 500T 7219];
  • DIAMANTINO (Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt): 16mm [Kodak Vision3 500T 7219];
  • SUNSET (László Nemes): 35mm [Kodak Vision3 500T 5219] e 65mm [Kodak Vision3 500T 5219];
  • RED JOAN (Trevor Nunn): 35mm;
  • THE BEACH BUM (Harmony Korine): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • POKÉMON: DETECTIVE PIKACHU (Rob Letterman): 35mm [Kodak Vision3 500T 5219, Vision3 50D 5203];
  • HIGH LIFE (Claire Denis): 16mm [Kodak Super 16];
  • PÁJAROS DE VERANO (Ciro Guerra e Cristina Gallego): 35mm [Kodak Vision3 50D 5203, Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • PETRA (Jaime Rosales): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • UN COUTEAU DANS LE COEUR (Yann Gonzalez): 16mm [Kodak Vision3 200T 7213, Vision3 500T 7219, Eastman Double-X 7222, Wittner Chrome 200D] e 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];
  • HER SMELL (Alex Ross Perry): 35mm [Kodak];
  • ONCE UPON A TIME... IN HOLLYWOOD (Quentin Tarantino): 8mm [Kodak Ektachrome 100D 7294], 16mm [Kodak Ektachrome 100D 7285] e 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];


Paralelamente às estreias em sala, e em jeito de curiosidade, é digno de registo os quatro filmes rodados em película que, no nosso país, conheceram exibição "privativa" no Netflix — uma realidade que não só enfatiza o dilema mencionado no primeiro parágrafo deste balanço, como promete proporcionar redobrado debate em 2020: UNCUT GEMS, o novo filme de Josh e Benny Safdie rodado inteiramente em 35mm, chegará a Portugal no próximo dia 31 de Janeiro e exclusivamente através daquela plataforma de streaming.
  • ANIMA (Paul Thomas Anderson): 35mm [Kodak];
  • THE IRISHMAN (Martin Scorsese): 35mm [Kodak Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219];
  • 6 UNDERGROUND (Michael Bay): 35mm [Kodak];
  • MARRIAGE STORY (Noah Baumbach): 35mm [Kodak Vision3 200T 5213, Vision3 500T 5219];

Num breve exercício de antevisão, 2020 também poderá ser interessante em termos de produção em película. Só no próximo ano, teremos o regresso ao activo de alguns dos defensores do formato — Christopher Nolan a filmar TENET em 65mm; Wes Anderson preferiu a película de 16mm e 35mm para THE FRENCH DISPATCH; Greta Gerwig optou pelo 35mm para a sua versão de LITTLE WOMEN; o remake de WEST SIDE STORY, por Steven Spielberg, está a ser rodado em analógico... —, assim como produção portuguesa em 16mm (TU ACIMA DE TUDO, de Lucas Elliot Eberl e Edgar Morais) e de uma contínua presença dos players tecnológicos (SEBERG, de Benedict Andrews e filmado em 35mm, chegar-nos-à pela chancela da Amazon Studios) no mercado, há muitas hipóteses de, daqui a doze meses, podermos fazer mais um "balanço analógico" positivo.

Imagem:
1 Logotipo KODAK Motion Picture Film.
2 Imagem dos bastidores de THE FAVOURITE, rodado em película de 35mm (© Atsushi Nishijima / Fox Searchlight).
3 Fotogramas de ONCE UPON A TIME... IN HOLLYWOOD, © CPC London.
4 Fotograma de MARRIAGE STORY, © Nick Lazzaro.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Estreia da Semana: STAR WARS: THE RISE OF SKYWALKER



STAR WARS: THE RISE OF SKYWALKER, de J.J. Abrams, rodado em película de 35mm e 65mm (Kodak Vision3 50D 5203, Vision3 250D 5207, Vision3 500T 5219).



[Fontes: Lucasfilm / Bad Robot / Walt Disney Pictures / SYLO: Star Wars].
[Imagem: Annie Leibovitz / Vanity Fair].

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Estreia da Semana: L'HOMME FIDÈLE



L'HOMME FIDÈLE, de Louis Garrel, rodado em película de 35mm (Kodak).

«J’avais donc besoin de tourner en 35mm. On peut faire de très beaux films d’époque en numérique, mais nous avions un budget assez restreint et la caméra vidéo donne un côté "making of"», Louis Garrel.

[Fonte: brefcinema.com].
[Imagem: Why Not Productions / Kino Lorber].