sábado, 22 de setembro de 2018

Filmes Perdidos Portugueses: O COMISSÁRIO DE POLÍCIA (1919, Georges Pallu)



Naquela que foi a terceira iniciativa de Georges Pallu para a Invicta Film, O COMISSÁRIO DE POLÍCIA assinalou, em 1919, não só a vontade da produtora portuense de estender o sucesso obtido com A ROSA DO ADRO, estreado poucos meses antes, como também serviu de confirmação para uma das tendências iniciais do Cinema Português: a adaptação literária.

No caso concreto, O COMISSÁRIO DE POLÍCIA inspirou-se numa peça de teatro satírica de sucesso assinada por Gervásio Lobato1, e levada a cena em 1890. A crítica de costumes, contraposta a um tom displicente e ao humor "revisteiro" do texto2, terá sido transposta por Georges Pallu para o grande ecrã. Essa constatação ganha maior consistência se atentarmos ao resumo do argumento, conforme publicado em algumas fontes3:

«O conselheiro Faustino, galã inveterado, com certo fraco pelas criadas de servir, é o quarto marido de D. Maria, dama austera que lhe exige todo o salário. Afim de conseguir dinheiro para as suas extravagâncias, o conselheiro passa a vida a dar à mulher jóias falsas, deduzindo dos ordenados o valor de jóias verdadeiras.
Um dia uma viúva amiga de família, D. Vicência, vai pedir uns prémios para uma quermesse e o conselheiro, ao ouvir a mulher dizer que vai oferecer umas jóias, resolve tirá-las e simular um roubo. O caso é entregue ao Sr. Pigmaleão Sereno, comissário de polícia, que vai fixar residência no andar por cima do conselheiro.
»


O "ataque" aos pecadilhos e ridículos da alta burguesia estariam, certamente, na génese de O COMISSÁRIO DE POLÍCIA. As figuras jocosas da trama foram, por sua vez, interpretadas por nomes que se tornariam em presenças habituais nas obras da Invicta Film: Duarte Silva (Conselheiro Faustino Soares), Maria Campos (Maria Soares) e Deolinda Sayal (Mulher do Comissário), tendo o papel do Comissário Pigmaleão Sereno sido entregue a Rafael Marques, actor que, apesar da sua fugaz visibilidade na História do Cinema Português, figurou nos elencos de MULHERES DA BEIRA (1923, Rino Lupo) e JOÃO RATÃO (1940, Jorge Brum do Canto).

Estreado no Jardim Passos Manuel, no Porto, em Novembro de 1919, e com uma metragem estimada de 1600 metros, pouca informação subsiste sobre O COMISSÁRIO DE POLÍCIA e, hoje em dia, não é conhecido o paradeiro de qualquer material do filme4.

Notas:
1 Sobre a vida e obra de Gervásio Lobato, recomenda-se a consulta de Uma leitura de Lisboa em Camisa: a comédia humana de Gervásio Lobato, disponível em https://run.unl.pt/bitstream/10362/10363/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Ricardo.pdf (consultado a 18 de Outubro de 2018).
2 Alguns autores adiantam que a obra de Gervásio Lobato estará na origem da revista à portuguesa, sobretudo pela sua "cáustica cronica de costumes".
3 in Dicionário do Cinema Português 1895-1961, de Jorge Leitão Ramos (2011, Editorial Caminho).
4 Em 1953, Constantino Esteves realizou um remake da peça de Gervásio Lobato, com António Silva no papel de Conselheiro Faustino Soares.

Imagens:
1 Dois aspectos de O COMISSÁRIO DE POLÍCIA. Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).
2 Georges Pallu. CinePT — Universidade da Beira Interior.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #113 — O Centenário de Jofre Soares



Se fosse vivo, Jofre Soares completaria hoje 100 anos. Um dos mais ilustres actores do Cinema Brasileiro, Jofre Soares foi presença regular no elenco de títulos de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e, até, José Mojica Marins. Paralelamente à Sétima Arte, foi senhor de uma extensa carreira na televisão brasileira, com destaque para as suas participações em O TODO PODEROSO e PADRE CÍCERO (na imagem).

Para assinalar o centenário de Jofre Soares, recordamos, na íntegra, um dos seus papéis mais memoráveis em Cinema: o protagonista de CHUVAS DE VERÃO, de Cacá Diegues, uma obra de terno olhar sobre o amor na terceira idade e, sobretudo, controversa no seio da filmografia sul-americana, devido a uma sequência de sexo e nudez entre Soares e a actriz Miriam Pires.



[Fontes: Embrafilme / Giongo Collection].
[Imagem: Nelson Di Rago / TV Globo].

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #112 — Lisboa em Obras



Imbuído do característico discurso propagandista do Estado Novo, LISBOA DE HOJE E DE AMANHÃ, documentário comissionado pela Câmara Municipal de Lisboa ao realizador António Lopes Ribeiro, destaca os progressos camarários em termos de habitação, saneamento básico e mobilidade nas zonas residenciais da cidade em finais dos anos 40.

Para além de uma privilegiada observação — imagens por vezes muito impressionantes, captadas por Manuel Luís Vieira e Artur Costa de Macedo, dois dos principais directores de fotografia do Cinema Português daquela época — de localidades e vivências da Lisboa de 1948, este filme, resgatado dos arquivos da Cinemateca Portuguesa, serve de curioso e inevitável contraposto a algumas "sombras" que, hoje em dia, pairam sobre a capital. Frases como "por toda a parte, se ergueram belos prédios de rendas elevadíssimas", ou a sugestão de especulação imobiliária, contidas na locução do próprio António Lopes Ribeiro, assumem-se tão prementes então como hoje.



[Fontes: Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema / CinePT].
[Imagem: CinePT].

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #111 — Burbank Studios, Anos 30



Da pesquisa que temos realizado para a presente rubrica, a descoberta de arquivos que revelam o quotidiano dos grandes estúdios norte-americanos, durante os anos 20 e 30 do século passado, tem revelado surpreendentes e cativantes olhares sobre uma Hollywood arcaica, mas cuja memória perdura nos clássicos então produzidos.

Depois do destaque feito ao dia-a-dia dos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer dos anos 20, publicamos hoje uma visita guiada — muito antes de tal se ter convertido em atracção turística — pelos "míticos" Burbank Studios. Com 25 hectares de dimensão e localizados a poucos quilómetros de Hollywood, os estúdios foram construídos em 1926 pela First National Pictures, antes de serem adquiridos, em 1928, pela Warner Brothers, que faria de Burbank a sua sede oficial.



[Fonte: Kinolibrary Archive Film].
[Imagem: ].

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #110 — A Primeira Grande Final Europeia



Em noite de estreia da fase de grupos da Liga dos Campeões, referente à temporada 2018-2019, recordamos hoje a primeira final da — então denominada — Taça dos Campeões Europeus.

Através do arquivo fílmico da UEFA, resgatamos as principais imagens do jogo que, no Parque dos Príncipes, colocou frente a frente Real Madrid e Stade de Reims. Com um resultado tangencial de 4-3, e mesmo estando a perder por 0-2 aos dez minutos de jogo, a vitória acabaria por sorrir aos "merengues", naquela que foi a primeira de uma série, nunca igualada, de cinco triunfos consecutivos do Real Madrid na Taça dos Campeões Europeus.



[Fonte: UEFA Video Archive].
[Imagem: Agence France-Presse / UEFA].

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #109 — Made in 78 RPM



Realizado em 1942 por William J. Ganz, e com o "alto patrocínio" da Radio Corporation of America, COMMAND PERFORMANCE demonstra, ao som de "O Danúbio Azul", os processos envolvidos na produção dos icónicos discos em goma-laca (ou os 78 rotações), desde a composição da placa mestra original, passando pela gravação da banda sonora, e até à disposição do aspecto final do produto.

Do ponto de vista histórico, este revela-se como um título singular no imenso acervo do Prelinger Archive. Uma genuína viagem no tempo, narrada por Milton Cross — uma das vozes radiofónicas mais famosas da NBC e ABC —, a métodos industriais de produção inteiramente acústicos e mecânicos, e que, hoje em dia, pertencem ao indelével estatuto de objecto no museu da memória humana.



[Fontes: Prelinger Archive / Radio Corporation of America / Internet Archive].
[Imagem: Fandor].

domingo, 16 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #108 — O "Cinema Patrocinado" de Frank Capra



Depois da fama, do sucesso e dos Oscars arrecadados pelas criações de IT HAPPENED ONE NIGHT, MR. DEEDS GOES TO TOWN e MR. SMITH GOES TO WASHINGTON, Frank Capra dedicou grande parte da fase final da sua carreira à realização de filmes patrocinados para, sobretudo, a American Telephone & Telegraph Company e a Martin Marietta Corporation, os quais conheceram intensa difusão televisiva e exibição em entidades públicas — tais como escolas ou bibliotecas — nos Estados Unidos.

Talvez por esse facto, os quatro títulos que hoje destacamos n'O Arquivo do Dia são virtualmente desconhecidos para o público europeu, e de visibilidade mínima junto da cinefilia, exterior à realidade norte-americana, que se originou em torno da obra de Frank Capra: OUR MR. SUN (1956), combinando animação tradicional e live action, apresenta-nos a importância do Sol para a Humanidade; HEMO THE MAGNIFICENT (1957) propõe uma viagem pelos sistemas circulatório e cardiovascular; THE STRANGE CASE OF THE COSMIC RAYS (1957) dedica-se ao estudo dos raios cósmicos; e RENDEZVOUS IN SPACE (1964), um documentário futurista sobre estações espaciais e viagens interplanetárias.

OUR MR. SUN


HEMO THE MAGNIFICENT


THE STRANGE CASE OF THE COSMIC RAYS


RENDEZVOUS IN SPACE


[Fontes: Frank Capra Productions / Shamus Culhane Productions / American Telephone & Telegraph Company / Martin Marietta Corporation / GBPPR2 / Jim Cristea / Jack Fuller / pbatommy].
[Imagem: Rear Windows].

sábado, 15 de setembro de 2018

iPhones e 16mm: Um Duelo de Formatos no MOTELX



Do alinhamento da mais recente edição do MOTELX, que terminou no passado Domingo, dois títulos destacaram-se sobejamente. A saber, UNSANE e UN COUTEAU DANS LE COEUR. Não apenas pelos seus desafios narrativos, mas, sobretudo, através das opções estéticas (iPhone e película de 16mm e 35mm, respectivamente) a que se propuseram.

UNSANE, história de stalking e paranóia em coerência com a nossa contemporaneidade digital, foi inteiramente filmado num iPhone 7 Plus, com recurso ao software FiLMiC Pro1 e em resolução 4K, estando o próprio aspect ratio do filme (1.56:1) ao serviço da experiência de visualização audiovisual que os smartphones implementaram2. A escolha deste formato, por Steven Soderbergh, é imediatamente justificada pela ambiência digital (SMS, messaging, redes sociais...) do argumento, e revela-se como um dos melhores — e raros — exemplos modernos em que a opção tecnológica de registo de imagem funciona para a própria exposição narrativa.



No espectro oposto, encontramos a mesma lógica aplicada a UN COUTEAU DANS LE COEUR. Centrado — de um modo que quase poderíamos descrever como nostálgico — na indústria do cinema pornográfico gay de finais dos anos 70, a qualidade granulada do 35mm e, especialmente, do 16mm (o mesmo formato das produções aqui recriadas) é plenamente visível durante toda a longa-metragem. Ao mesmo tempo, os métodos e as possibilidades do analógico ecoam constantemente pelo argumento de Yann Gonzalez.

Recorrentemente, a acção decorre em paralelo à observação de mesas de montagem, de daily rushes, de moviolas e, numa das sequências memoráveis do filme, à intervenção literalmente física (leia-se, arranhar os fotogramas, com um punhal, de forma a se compor letras e frases) na emulsão da película. Texturas de imagem e "rituais" em desuso, que extravasam a circunstância de UN COUTEAU DANS LE COEUR ter sido exibido, no Cinema São Jorge, em DCP.

O destaque destes dois títulos serve não só como tentativa de balanço do Festival, mas também para realçar o conceito de que a escolha entre o analógico e o digital é mais do que uma questão técnica. De facto, a impressão da luz até pode diferir em função do suporte utilizado. Contudo, não deveremos renegar a sua influência na concretização de ambiências visuais, motes narrativos, estados de espírito e correntes artísticas3.



Pelos contornos que este "duelo de formatos" tem assumido nos últimos anos (sobretudo, entre cineastas e cinéfilos), não nos parece desmedido salientar a relação consciente entre a obra acabada e o seu suporte de filmagem. É aquilo que poderíamos definir de matrizes temáticas, isto é, a eleição da película ou do digital como elemento intencional de produção, em função de ideais específicos, e livre de qualquer "constrangimento" de distribuição e exibição. Na exploração desta tese, pode-se incluir a vontade de emular um determinado contexto temporal (JFK, ED WOOD, KODACHROME, BLACKkKLANSMAN), destacar o objecto primordial de um argumento (BLACKHAT), demonstrar a variação de fenómenos de luz (nas filmografias de Stan Brakhage ou Nathaniel Dorsky) ou evidenciar a carga psicológica da própria história (A LISTA DE SCHINDLER, LA HAINE).

Na formulação deste conceito de matrizes temáticas, finalizamos com a ambição de que este seja mais um argumento a favor da convivência frutífera entre película e digital na Sétima Arte.

Notas:
1 Mais informação em www.filmicpro.com.
2 Sobre a "estética iPhone" no grande ecrã, recomendamos este texto de Luís Mendonça, no site À Pala de Walsh.
3 É exemplo disso o manifesto Flamme, publicado na Cahiers du Cinéma em Julho deste ano, e do qual UN COUTEAU DANS LE COEUR é parte integrante.

Imagens:
1 Steven Soderbergh filma Claire Foy com um iPhone 7 Plus (Fingerprint Releasing / Bleecker Street).
2 Vanessa Paradis em UN COUTEAU DANS LE COEUR (CG Cinéma).
3 Tim Burton filmou ED WOOD em película de 35mm Eastman Plus-X, de forma a recriar o visual das produções cinematográficas dos anos 50 (ShotOnWhat?).

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #107 — Linha Azul em São Paulo



A 14 de Setembro de 1974, é iniciada a operação comercial da Linha Azul, o primeiro troço do Metropolitano de São Paulo que, num percurso de sete quilómetros, ligava Jabaquara a Vila Mariana. Alvo de constantes ampliações ao longo dos anos — na qual se inclui a Estação Sé, a maior do sistema metroviário da cidade —, o "Metrô" de São Paulo possui actualmente uma extensão de 91 quilómetros, divididos por seis linhas operacionais.

Do acervo do Arquivo Nacional do Brasil, recordamos hoje as principais imagens da cerimónia de inauguração da Linha Azul, onde marcaram presença o Prefeito Miguel Colasuonno e Paulo Maluf, Secretário Estadual dos Transportes, num momento considerado fundamental para o progresso tecnológico do Brasil então controlado pelos ditames da Quinta República.



[Fontes: Arquivo Nacional (AN) / Picilone_].
[Imagem: Acervo – Metrô São Paulo / Propagandas Históricas].

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O Arquivo do Dia #106 — O Centenário de Gentil Marques



Se fosse vivo, Gentil Marques completaria hoje 100 anos. Escritor, jornalista e cineasta, foi autor de uma série de obras literárias de referência, com destaque para Lendas de Portugal e Eça de Queiroz — O Romance da Sua Vida e da Sua Obra. Para além da sua actividade na Literatura e na rádio, Gentil Marques dedicou-se também, e ao longo de quase duas décadas, ao Cinema. Dessas experiências, registam-se a reportagem desportiva E FOI ASSIM O 19º PORTUGAL-ESPANHA e A NAU CATRINETA, inspirado na poesia de Almeida Garrett.

No centenário de Gentil Marques, recorremos aos arquivos da Cinemateca Portuguesa para recordar UM DIA NA PÓVOA DE VARZIM, filme promocional, produzido em 1952 e com locução de Fernando Pessa, sobre "uma das mais belas e mais conhecidas praias de Portugal" (clicar na imagem abaixo para aceder ao vídeo).



[Fonte: Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema].
[Imagem: Editora Romano Torres].