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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ANIM 20 anos



ARQUIVO NACIONAL DAS IMAGENS EM MOVIMENTO — ANIM: 20 ANOS DE SALVAGUARDA E CONSERVAÇÃO EFECTIVA DO PATRIMÓNIO CINEMATOGRÁFICO PORTUGUÊS

"Mais do que comemorar, estão em causa duas outras coisas necessárias e porventura urgentes. Por um lado, voltar a sublinhar uma identidade — uma ideia de cinemateca que ficou bem expressa, também ela, na redefinição orgânica levada a cabo nessa década de noventa, na qual a Cinemateca, enquanto museu de cinema, é também o arquivo nacional, e é antes de tudo o mais a interligação permanente entre os espaços de arquivo, documentação e divulgação.

Por outro, convidar a um melhor conhecimento público das infraestruturas de arquivo e das grandes transformações que as estão a marcar, trazendo para as nossas salas debates que estão a atravessar o mundo das cinematecas, e, com isso, em comunidade mais alargada, consolidar um caminho que é também de futuro.
"

[Fonte texto: Comunicado Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema]
[Fonte imagem: Ciclos da Cinemateca]

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Foco no Arquivo #1

Colóquios "Riscos do património / Um património em risco"



:: A CINEMATECA PORTUGUESA E A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CINEMATOGRÁFICO EM PORTUGAL ::

Qual a real importância do cinema como património cultural do país e qual a real importância de garantir a sobrevivência das obras? Que papel tem o património na actividade cinematográfica e que papel tem o Estado na área patrimonial? Que problemas novos se colocam com a implantação do digital? Que condições existem hoje para conservar o cinema e para dar a conhecer a história do cinema? O que é que a Cinemateca pode fazer e o que é que cabe à Cinemateca fazer? Este colóquio é o sinal de partida para um debate mais alargado, que não se dirige apenas à comunidade do cinema e, em última análise, não tem apenas a ver com o património cinematográfico. Falemos do que se está a passar com os filmes. Mas a nossa proposta é também que falemos mais, com conhecimento de causa da situação em cada sector, das questões transversais do património.

As intervenções iniciais caberão a Maria João Seixas, José Manuel Costa, Silvestre Lacerda, António da Cunha Telles e João Salaviza


[Quarta-feira, 18h30, Sala Félix Ribeiro / Entrada gratuita — é necessário levantar bilhete]


domingo, 18 de novembro de 2012

A Preservação Cinematográfica não espera por Despachos Ministeriais



«E há, instalado numa quinta perto de Bucelas, o que permite programar estas salas — o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM). Também aqui o célebre despacho de 12 de Setembro tem consequências. Rui Machado, director do ANIM, explica que este laboratório é "único em Portugal e um dos poucos na Europa a fazer restauro fílmico analógico" e que, apesar de a sua principal função ser sempre a preservação do património fílmico português, "podia ser uma fonte de receitas adicional para a Cinemateca", fazendo mais trabalhos para outros países. O problema, mais uma vez, é que "está a ser limitado" não só pelo pequeno orçamento, mas sobretudo, mais recentemente, pelos entraves burocráticos.

O trabalho implica máquinas especializadas, e a manutenção destas tem que ser garantida por técnicos (especializados também, dado que se trata de sistemas que começam a sair de circulação), que não pertencem aos quadros da Cinemateca. "Se tivermos uma avaria numa máquina, não podemos estar dois meses à espera da autorização das Finanças."

Um caso destes pode afectar os cofres climatizados onde estão guardados os filmes (os mais antigos, em suporte de nitrato, estão num
bunker, afastado, com medidas especiais de segurança, para evitar qualquer risco de incêndio). Se houver uma avaria, o controlo climático deixa de ser possível, e isso afecta a película.

Este é o problema provocado pela burocracia.
»

Cinemateca: histórias de um quotidiano kafkiano, por Alexandra Prado Coelho, in Público, 17 de Novembro de 2012.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mesa Redonda



Num presente em que o único laboratório de revelação de película em Portugal — a Tobis Portuguesa — foi declarado insolvente e um colectivo de realizadores, liderado por André Gil Mata, se apresta a fundar o Laboratório de Cinema Independente como forma de garantir que realizadores, fotógrafos e artistas plásticos possam utilizar película como suporte de trabalho, o Doclisboa 2012 organizou, esta tarde, uma mesa redonda com o intuito de debater, segundo a organização do Festival, dois pontos urgentes:

1) o papel contemporâneo da película no Cinema;
2) e a possibilidade da existência, no nosso país, de um laboratório independente.

Moderada por Luís Miguel Oliveira, os contributos dos vários convidados (abaixo elencados juntamente com o fulcral das suas intervenções) permitem concluir o longo debate — e o de hoje marcou três horas certas sem interrupções — que esta temática, agora e no futuro, continuará a suscitar.

Nicolas Rey, co-fundador do atelier colectivo L'Abominable, foi uma das vozes mais favoráveis quanto à ideia de um Laboratório de Cinema Independente: quando algo começa pequeno mas revela-se único, a tendência será sempre de ou crescer ou surgirem outras iniciativas semelhantes. Por outras palavras, poder-se-ia assistir a um "efeito-dominó" na criação de instituições com a capacidade e vocação para o fornecimento e revelação de filme em película.

Por várias vezes, e noutros meios, se pode ler que a película estará irremediavelmente desaparecida em 2014. Contudo, Cristina Pereira, da Kodak Portugal, enfatizou que a divisão de cinema da marca continuará a produzir película — estão firmados, aliás, contratos de fornecimento até 2015 — e que a rentabilidade da empresa tem sido alcançada através de cortes cirúrgicos nos custos de produção. Tal explica, em certa medida, o facto de a Kodak não produzir película no nosso país. "A película sempre existirá. Pode não ser Kodak, mas continuará a existir" acabou por ser a frase-chave da sua intervenção.

A questão premente e, aparentemente, de árduo consenso da preservação e restauro cinematográficos pela película foi abordada por Rui Machado, director do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM). Numa época em que este "laboratório de preservação" (distinguindo-o das especificidades de um laboratório de produção como a Tobis) assume-se como um dos últimos inteiramente analógicos da Europa, e pela ausência de sintonia entre as instituições museológicas de Cinema — muitas das quais rendidas ao digital —, advoga-se a importância do papel que a Fédération Internationale des Archives du Film (FIAF) poderá desempenhar na negociação com os fabricantes, de modo a assegurar uma contínua produção de película com fins de preservação e restauro de obras apenas existentes em nitrato ou diacetato de celulose.

Com um ponto de vista inteiramente pessoal sobre a matéria em discussão, José Manuel Costa, subdirector da Cinemateca Portuguesa, não está tão optimista quanto ao futuro da película a curto prazo ("estamos a assistir ao fim de um mundo"). Com os arquivos fílmicos a abandonarem incondicionalmente o analógico, e pelo risco da perda eminente de uma identidade da memória do Século XX como só a película soube registar, cabe às cinematecas conquistar o poder de escolherem com que material pretendem trabalhar: "a película não é uma questão de direito, mas sim de vontade e, posteriormente, de prática".

A visão de um cineasta, nesta matéria, ficou a cabo de Manuel Mozos, realizador de XAVIER (1992) ou RUÍNAS (2010). Admitindo vantagens e interesse de se filmar em digital (sobretudo, na captação de som), espera, contudo, que a película e o seu fabrico permaneça. E remata: "faz falta um laboratório industrial 'à portuguesa'".

O passado, presente e futuro da Tobis mereceram, também, longa discussão. Ainda segundo José Manuel Costa, as máquinas pertencentes àquele laboratório de produção foram adquiridas, em Setembro passado, pelo Estado com o intuito de serem transferidas para o ANIM — um processo ameaçado pelas mediáticas limitações (financeiras, recursos humanos, etc.) que a Cinemateca enfrenta. Tiago João Silva, em representação da Tobis, foi parco mas contundente na descrição actual da empresa: o processo de liquidação está em curso, as máquinas seladas e desligadas, tudo "à espera de um destino".

Houve espaço, também, para a partilha de opiniões que marcam esta dicotomia película/digital:

. que um cineasta, independentemente da sua idade e estatuto, possua a liberdade de escolher o formato com que pretende trabalhar, e que essa sensibilidade seja transmitida aos estudantes de Cinema;
. do ponto de vista da qualidade e do respeito à obra original, o restauro digital não é inteiramente controlável — em muitos dos casos, são restauros que poderiam ser efectuados analogicamente;
. por razões económicas, a luta pela película está a diminuir ("o analógico é um trabalho de resistência");
. e a quase provocadora noção do ambíguo contributo do digital para a restauração do som: pelo desaparecimento de uma grande fatia de matrizes de áudio, "as vozes famosas, e que julgamos conhecer tão bem, são escutadas de forma muita distante da original".

No final, e como é habitual num debate sobre o futuro da película, as interrogações são mais que as conclusões. Apenas a certeza de que o "trabalho de resistência" para os amantes da película — e o Fórum Doclisboa esteve, hoje, repleto deles — está para durar.