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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #320 — A Música Analógica de Wendy Carlos



Famosa pelas variações de peças de música clássica que compôs, sobretudo para as bandas sonoras de A LARANJA MECÂNICA e SHINING de Stanley Kubrick, Wendy Carlos impulsionou a popularidade da música electrónica na segunda metade do Século XX, com particular enfoque na generalização dos sintetizadores Moog enquanto instrumentos com a capacidade de gerar infinitas polifonias e timbres através de um simples teclado.

Essas possibilidades foram demonstradas pela própria Wendy Carlos, em Março de mil novecentos e oitenta e nove, no programa Horizon da BBC. Neste breve segmento lúdico-informativo, não só conhecemos o funcionamento de um sintetizador Moog, como se abre a "janela" para a observação de métodos de concepção, registo e produção musicais absolutamente analógicos.



[Fontes: British Broadcasting Corporation (BBC) / Open Culture / automatic_bazooti].
[Imagem: Electronic Beats].

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #314 — 'Twiggy, remember: you’re making your own look'



Nascida a dezanove de Setembro de mil novecentos e quarenta e nove, e conhecida internacionalmente pela alcunha de Twiggy, a modelo, actriz e cantora britânica Lesley Hornby é um dos ícones de moda mais perenes que a década de sessenta originou. De compleição franzina e rosto quase andrógino, onde rapidamente se destaca a imensa expressividade dos seus olhos, Twiggy revelou-se ao mundo como um dos principais nomes da Swinging London: em sessenta e seis, foi eleita a "Mulher Britânica do Ano" pelo jornal Daily Express, protagonizou capas de publicações como a Vogue ou a Tatler, e a New Yorker chegou a dedicar cem páginas à sua popularidade. A fama conceder-lhe-ia, em pouco tempo, experiências no Cinema (por exemplo, no musical THE BOY FRIEND, realizado por Ken Russell) e na Música (o seu álbum de estreia, Twiggy, vendeu mais de sessenta mil cópias).

No dia em que celebra setenta primaveras — e um estatuto iconográfico intocável —, o Arquivo de hoje recorda a sua primeira aparição televisiva. Um "retrato da modelo enquanto jovem", realizado por John Crome para o programa A Whole Scene Going, que descortina, a partir da opinião de fotógrafos e estilistas ("the fashion world has been looking for a new face for about four years now, and Twiggy is that face"), os prognósticos de popularidade que então se desenhavam para Twiggy.



[Fontes: British Broadcasting Corporation (BBC) / Cesare Vesdani].
[Imagem: Hulton Deutsch / Getty Images / HuffPost Life].

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Arquivo do Dia #294 — Guias Para Sobreviver ao Holocausto Nuclear



"In an all-out nuclear war, to use the word 'survival' is idiotic."

É sob a égide destas pessimistas palavras, escritas pelo General Sir John Hackett, que IF THE BOMB DROPS... apresenta Protect and Survive, uma série de panfletos, transmissões radiofónicas e filmes produzida pelo Governo Britânico, nas décadas de setenta e oitenta, com o intuito de alertar e informar os cidadãos sobre as contingências a adoptar na eventualidade de um ataque nuclear.

Dado o seu conteúdo austero, o Governo Britânico classificou o projecto como top secret, de modo a minimizar alarmismos entre a população e, por inerência, da noção de que "se existem hipóteses de sobrevivência a uma guerra nuclear, então essa guerra seria mesmo possível". Tendo em conta o imenso interesse público que gerou, a BBC conseguiu ter acesso (quase clandestino) às suas imagens, exibindo-as no programa Panorama, da BBC, a dez de Março de mil novecentos e oitenta. Nesse episódio, intitulado IF THE BOMB DROPS..., e em retrospectiva, torna-se evidente o "estado de espírito" do cidadão comum em relação à mera possibilidade do conflito nuclear durante a Guerra Fria, revelando um ambiente sócio-político que, temporalmente, não ocorreu numa época muito distante da nossa modernidade.



[Fontes: British Broadcasting Corporation (BBC) / Sean Judge].
[Imagem: Daily Mail].

sexta-feira, 12 de julho de 2019

O Arquivo do Dia #285 — Os Cinquenta Anos de 'Space Oddity'



Livremente inspirado nos universos — de evidente cariz "espacial" — criativos de H.G. Wells, 2001: A SPACE ODYSSEY e na suite The Planets, de Gustav Holst, Space Oddity foi não só o single de apresentação do segundo álbum de originais de David Bowie, como se tornaria numa peça fundamental para a compreensão do Rock moderno. Editado comercialmente pela Philips Records poucos dias antes de Neil Armstrong e Buzz Aldrin aterrarem na Lua (a BBC utilizou Space Oddity como "banda sonora" durante a sua cobertura da missão da Apollo 11), a história do Major Tom, um astronauta fictício que cai em depressão no espaço sideral, transformou-se num dos temas mais célebres de David Bowie.

A primeira interpretação televisiva de Space Oddity foi, em Outubro de mil novecentos e sessenta e nove, no popular Top of the Pops; contudo, devido à política de reutilização de fita magnética então em vigor na BBC, essa gravação está actualmente considerada como perdida. O mesmo não se pode dizer das imagens registadas, na mesma altura, pelo canal alemão ZDF, que preservou David Bowie e o seu Space Oddity, no programa musical 4321 Musik Für junge Leute.



[Fontes: Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF) / Thin White Duke / HDelviejoandres].
[Imagem: Philips Records].

terça-feira, 18 de junho de 2019

Memórias em VHS #9: Recorder: The Marion Stokes Project



RECORDER: THE MARION STOKES PROJECT, documentário realizado por Matt Wolf, detalha a "missão de vida" da activista norte-americana Marion Marguerite Stokes que, ao longo de mais de três décadas, dedicou-se à gravação contínua, em VHS e Betamax, das transmissões dos principais canais noticiosos (Fox, MSNBC, CNN, C-SPAN, CNBC...) dos Estados Unidos.

O resultado desse empreendimento, também levado a cabo pela sua família mais próxima, é um arquivo com mais de setenta mil horas de conteúdo registado em fita analógica, repartido por cerca de cento e quarenta mil cassetes e em grande parte doado ao Internet Archive em dois mil e treze, que se constitui como importante repositório da memória e evolução do jornalismo televisivo norte-americano.



[Fonte: BRIC TV].
[Imagem: End Cue / Electric Chinoland / C41 Media].

terça-feira, 26 de março de 2019

O Arquivo do Dia #236 — Scott Walker (1943 - 2019)



Cantor e compositor norte-americano, Scott Walker evidenciou-se tanto por uma incessante reinvenção criativa, como pela reclusão que elegeu para estilo de vida. De ícone pop e juvenil nos anos 60 ao lado dos Walker Brothers, assumindo funções de produtor em álbuns dos Pulp ou de Ute Lemper na década de 90, e culminando nas sonoridades experimentais que caracterizaram os seus trabalhos mais recentes, Walker foi, ainda, o discreto responsável pelas bandas sonoras de filmes como POLA X (1999, Leos Carax) e THE CHILDHOOD OF A LEADER (2015, Brady Corbet).

No momento em que se noticia o seu falecimento, o Arquivo do Dia recorda a aparição de Scott Walker no programa televisivo de Dusty Springfield, gravado em 1967 para a BBC, onde interpreta, na inconfundível voz de barítono que o fez sobressair entre os seus pares, os clássicos Mathilde e When Joanna Loved Me.



[Fontes: British Broadcasting Corporation (BBC) / wasaexpress].
[Imagem: Dezo Hoffman / REX / Shutterstock / Rolling Stone].

domingo, 17 de março de 2019

O Arquivo do Dia #231 — O Centenário de Nat King Cole



Se fosse vivo, Nat King Cole comemoraria hoje 100 anos. Natural da cidade de Montgomery, em Alabama, onde desde muito jovem experienciou as políticas segregacionistas daquele estado até à mudança da sua família para Chicago, tornar-se-ia num dos mais ilustres intérpretes e pianistas de jazz: os sucessos com os temas Smile, A Blossom Fell, Unforgettable ou When I Fall in Love comprovaram tanto o talento como o apelo comercial de Nat King Cole.

Para assinalar a efeméride, o Arquivo de hoje recorda a sua participação no especial televisivo AN EVENING WITH NAT KING COLE. Gravado em 1963 para a BBC, Nat King Cole interpreta algum do seu repertório mais célebre, revelando ser, na partilha com a plateia de experiências pessoais e métodos de criação artística, um excelente entertainer.



[Fontes: British Broadcasting Corporation (BBC) / Vas géza].
[Imagem: Echoes / Redferns / Billboard].

sexta-feira, 1 de março de 2019

O Arquivo do Dia #224 — André Previn (1929 - 2019)



Pianista e compositor de origem germânica, André Previn foi protagonista de uma extensa e variada produção musical. Autor de inúmeras partituras para Cinema (foi vencedor de quatro Oscars, num total de onze nomeações) e Televisão, Prévin assumiu também uma carreira enquanto maestro, tendo estado à frente de interpretações orquestrais de peças de Rachmaninoff, Ravel, Mendelssohn, Debussy ou Gershwin.

No momento em que se noticia o seu falecimento, o Arquivo do Dia recorda a participação de André Previn, no especial de Natal do popular programa de variedades The Morecambe & Wise Show, exibido pela BBC em 1971, durante a qual o compositor não só atesta o seu talento como virtuoso pianista, como se revela um eficaz entertainer.



[Fontes: BBC / Jonathan Crossfield].
[Imagens: Pittsburgh Post-Gazette / Associated Press / NBC News].

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O Arquivo do Dia #197 — Martin Luther King Jr. Day



Comemorado anualmente na terceira Segunda-feira do mês de Janeiro, o Martin Luther King Day (MLK Day) é um feriado nacional nos Estados Unidos da América que celebra a vida, obra e memória de um dos activistas mais influentes do Século XX. Instituída em 1983, pelo Presidente Ronald Reagan, a data constitui um momento vital para a recordação da luta pela igualdade de direitos civis e contra a segregação racial, ao mesmo tempo que, à luz da actual realidade política norte-americana, se reveste de toda uma nova e singular importância.

Para assinalar a data, o Arquivo de hoje recorda a entrevista de Martin Luther King no programa Face to Face, emitido pela BBC em Outubro de 1961. Ostentando a electrizante qualidade de argumentação que lhe é reconhecida, King discursa sobre o contexto familiar, social e até cultural (por exemplo, os filmes só chegavam às salas dois anos após a sua estreia) em que cresceu, o estado do sistema de integração à data desta entrevista, as ameaças e manifestações de violência que sofreu durante o seu percurso enquanto activista — incluindo uma tentativa de assassinato, em 1958 —, e a natureza do seu estatuto de símbolo de emancipação das comunidades afro-americanas.



[Fontes: BBC / Kenyanese].
[Imagem: Santi Visalli / Getty Images / The Atlantic].

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O Arquivo do Dia #180 — Boxing Day



Tradição secular (segundo alguns historiadores, data do Século XVII), o Boxing Day tornou-se, ao longo dos tempos, num feriado de particular celebração no Reino Unido. A vertente consumista, de autêntica "corrida" aos saldos, será, muito possivelmente, a característica mais mediática desta data, geradora de uma expectativa de lucros que se alastrou para outras geografias. E para os súbditos de Sua Majestade, o Boxing Day significa, também, dia de futebol. Numa prática instituída desde 1888, a importância desta jornada é encarada, pelos adeptos, como uma das mais importantes ao longo da temporada.

Na extensa História da relação entre o futebol e o Boxing Day, abundam memórias desportivas dignas de registo. O ano de 1963, por exemplo, é citado amiúde como um dos mais entusiasmantes em termos de espectáculo, tendo-se registado 66(!) golos em apenas dez jogos na Primeira Divisão Inglesa. No entanto, a emoção é extensível a qualquer escalão do futebol britânico: em 1979, em jogo relativo à Terceira Divisão que ficou conhecido por Boxing Day Massacre, as equipas vizinhas do Sheffield United e do Sheffield Wednesday mediram forças no estádio Bramall Lane, tendo a vitória sorrido ao Wednesday por uns expressivos quatro golos sem resposta. Décadas depois, o encontro — cujas principais imagens hoje destacamos — alcançou contornos quase míticos, num estádio que pareceu ter sido demasiado pequeno para tanta galvanização futebolística.



[Fontes: BBC / VintageWednesdayVids].
[Imagem: The Star].

domingo, 25 de novembro de 2018

O Arquivo do Dia #159 — Nicolas Roeg (1928 – 2018)



God laughs at people who make plans. If one does too much planning, you're not seeing the gold beneath your feet.

Cineasta inglês, que começou como assistente de fotografia para David Lean e Roger Corman, Nicolas Roeg conquistou o estatuto de realizador eclético, provocador e dono de um estilo visual muito próprio, sobretudo nos anos 70 e 80, por títulos como PERFORMANCE (1970), WALKABOUT (1971), DON'T LOOK NOW (1973), THE MAN WHO FELL TO EARTH (1976), BAD TIMING (1980) e INSIGNIFICANCE (1985).

No momento em que se noticia o falecimento de Nicolas Roeg, o Arquivo do Dia recorda a entrevista do realizador conduzida pelo crítico e curador de Cinema Philip Strick, numa emissão gravada na National Film and Television School e transmitida pela BBC em Maio de 1983.



[Fontes: BBC / TaggleElgate].
[Imagem: The Independent].

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

O Arquivo do Dia #149 — BBC Radiophonic Workshop



"This is a place where we can explore many exciting new sounds."

Fundado em 1958, e durante exactamente quarenta anos, o BBC Radiophonic Workshop criou os pioneiros efeitos sonoros para algumas das chancelas mais emblemáticas da British Broadcasting Corporation. O distinto trabalho de sonoplastia electrónica de DOCTOR WHO, QUATERMASS AND THE PIT ou THE HITCHHIKER'S GUIDE TO GALAXY foi engendrado naqueles estúdios, num conjunto sonoro absolutamente indissociável de uma era de produção televisiva.

Produzido em 1976, este breve documentário, apresentado por Roger Limb, um dos principais técnicos do BBC Radiophonic Workshop, demonstrava os conceitos básicos de uma metodologia de composição musical que é, hoje em dia, literalmente "peça de museu". Entre sintetizadores e osciladores, eis as imagens de um ofício que desenvolvia moods and effects por via de uma sensibilidade arguta e criativa.



[Fonte: BBC].
[Imagem: BBC Music].

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Arquivo do Dia #148 — O Primeiro Dia da "Era Ferguson"



A 6 de Novembro de 1986, Sir Alex Ferguson é anunciado como o novo treinador do Manchester United, naquele que foi o primeiro momento de vinte e seis anos ao leme da equipa de Old Trafford. Considerado como um dos managers mais respeitados de todos os tempos, o Manchester United de Ferguson viria a conquistar trinta e oito títulos, incluindo treze edições da Premier League e duas Ligas dos Campeões.

"Cortesia" da BBC, hoje recordamos a primeira entrevista de Alex Ferguson como técnico principal do Manchester United. Ou um genuíno tratado de humildade, numa série de sucintas mas cordiais opiniões sobre as anteriores — e rejeitadas — oportunidades de treinar em Inglaterra, o respeito pelo seu antecessor, Ron Atkinson, e as expectativas de sucesso num cargo que, desportivamente falando, se tornaria lendário.



[Fontes: BBC / sports channel].
[Imagem: Mirror Online].

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Arquivo do Dia #70 — Heat Wave



Com os termómetros a rondarem os quarenta graus de máxima, devido à influência de uma onda de calor que se abateu sobre Portugal Continental nas últimas horas, eis a perfeita ocasião para relembrar Heat Wave, um dos maiores sucessos de Martha and the Vandellas ao serviço da Motown, numa interpretação ao vivo, registada pela British Broadcasting Corporation (BBC), para o programa de variedades Top Beat.



[Fonte: BBC / papy potage].
[Imagem: BBC Music].

domingo, 24 de junho de 2018

O Arquivo do Dia #42 — O #MeToo Não é um Exclusivo dos Nossos Dias



Em 1971, a jornalista Nicky Woodhead, para o programa Nationwide, leva a cabo uma reportagem de rua com o objectivo de "apalpar homens no traseiro" e recolher as suas reacções. Tudo em nome da igualdade de género.

Disponível nos arquivos da BBC, e precisamente datado de 24 de Junho de 1971, este jocoso fait divers permite a curiosa observação da mentalidade masculina do seu tempo (desde a ausência de incómodo pelo "assédio" até à pura estupefacção), ao mesmo tempo que serve de interessante justaposição ao contemporâneo "ar dos tempos".



[Fonte: BBC / Range Rover].
[Imagem: Bust].

sábado, 2 de dezembro de 2017

Lost TV



Ao longo de mais de meio século, o jornalismo e o pensamento crítico têm debatido os méritos da difusão televisiva, nas suas vertentes generalistas, de ficção, documental ou de "variedades", e com particular enfoque no conceito, maioritariamente anglo-saxónico, da Golden Age of Television1. Todavia, aparenta ser evidente a ausência de um estudo aprofundado, com os respectivos e necessários alertas, sobre as especificidades de conservação e acessibilidade de conteúdos produzidos para Televisão.

Ao contrário do Cinema, no qual a película de nitrato e, posteriormente, de celulóide foram os métodos reinantes para produção e preservação, a Televisão, praticamente desde a sua invenção, sempre se debateu com dilemas inerentes a uma diversidade de formatos de emissão, registo e arquivo. Talvez por esse motivo, e aliado a uma ausência de apreensão em torno dessas actividades pelos responsáveis de networks de todo o mundo, o estado de conservação de muita da difusão televisiva do Século XX encontra-se em risco ou, simplesmente, desaparecida.

Tendo em conta que, até 1939, as emissões não eram gravadas pela inexistência dessa prática nas estações televisivas, não existe qualquer registo de todas as transmissões até àquela data. Para além disto, e quando os conteúdos do pequeno ecrã já eram alvo de gravação em formatos como película, o Cinescópio ou fita magnética, é sabido que casas tão conceituadas como a BBC e a NBC levaram a cabo aquilo que ficou designado como wiping (o apagamento, reutilização ou destruição de telegravações), o qual era motivado pela falta de espaço de armazenamento, escassez de materiais de gravação ou ausência de direitos de retransmissão de programas.



Da junção destes factores, e sem ser necessário empreender uma pesquisa exaustiva, rapidamente se encontram exemplos notórios de produção televisiva considerada como perdida. Senão, vejamos:

  • no Japão, não é conhecido o paradeiro de 31 episódios da série original de 1973 do popular personagem DORAEMON. De acordo com algumas fontes, acredita-se que esse material ter-se-á perdido após a falência da sua produtora, a Nippon TeleMovie Productions;
  • no Reino Unido, 97 episódios das primeiras duas temporadas da série DOCTOR WHO estão considerados como perdidos. A BBC já anunciou que não consegue localizar esses programas nos seus arquivos. Existem, contudo, registos áudio efectuados pelos fãs da série;
  • só é conhecido o paradeiro de um episódio da série de ficção-científica A FOR ANDROMEDA;
  • devido ao wiping que se praticava na BBC, grande parte das emissões do popular programa de divulgação musical TOP OF THE POPS não chegou aos nossos dias. Entre as transmissões apagadas ou destruídas, contam-se a última aparição televisiva ao vivo dos Beatles, assim como as estreias de David Bowie ou dos Pink Floyd2;
  • nos Estados Unidos, não é possível localizar episódios de programas célebres como THE DICK CAVETT SHOW, THE ED SULLIVAN SHOW, JEOPARDY! ou SESAME STREET. Neste território, o caso mais relevante é o de THE VAMPIRA SHOW: apresentado pela icónica Vampira, não se conhece o paradeiro de qualquer episódio gravado da primeira série de terror exibida nos EUA3;
  • a transmissão original da missão espacial Apollo 11, onde Neil Armstrong se tornou no primeiro homem a pisar a Lua, registada em slow-scan television (com melhor resolução de imagem) está considerada como perdida;
  • em Espanha, as gravações de centenas de episódios do popular concurso UN, DOS, TRES... RESPONDA OTRA VEZ foram destruídas ou estão perdidas.

Desta análise histórica, e encarando também o presente e futuro de diversas implicações tecnológicas, depreende-se que os desafios da preservação televisiva são mais melindrosos que os do Cinema. E para a eficaz concretização dessa tarefa, revela-se premente balizar e compreender três eixos essenciais: a gravação (recording), conservação e acesso futuro de dezenas de horas diárias de emissão.



Nesse particular, e (agora) à semelhança do que acontece com a Sétima Arte, a produção televisiva do Século XXI, maioritariamente em formatos digitais, acarreta novas problemáticas que não aparentam ter resolução a médio prazo. Programas de inegável valor artístico, como HOUSE OF CARDS ou STRANGER THINGS, são disponibilizadas ao grande público através de plataformas assentes em streaming e/ou cloud-based e, numa fase posterior, em edições home cinema. Contudo, mesmo que o risco contemporâneo de perda de conteúdos seja menor, a conservação dos masters originais dessas séries está longe de ser realisticamente assegurada.

Apesar dos riscos identificados, o panorama actual da preservação televisiva ainda permite (faça-se justiça!) encontrar a adopção de boas práticas. O caso da insígnia Netflix, e de como, em 2014, decidiu submeter a série ORANGE IS THE NEW BLACK em VHS para conservação pela Biblioteca do Congresso, revela que os "velhinhos" métodos de arquivo de materiais audiovisuais não estão assim tão obsoletos.

Notas:
1 Expressão cunhada por Anthony Slide, na obra The Television Industry: A Historical Dictionary (1991).
2 Uma das principais forma de redescoberta de programas televisivos é através de gravações feitas por particulares que só mais tarde conhecem a luz do dia. É exemplo disso a recuperação de uma interpretação de Jean Genie, por David Bowie em 1973, e que esteve perdida durante décadas.
3 O único material conhecido desta série é um excerto da abertura, disponível para visualização no YouTube.

Imagens:
1 Arquivos de Televisão.
2 THE VAMPIRA SHOW, AFS ViewFinders.
3 Cópia em VHS da série ORANGE IS THE NEW BLACK, The Verge.