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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Arquivo do Dia #167 — Mick Jagger e o Diabo



A 6 de Dezembro de 1968, os Rolling Stones editam Beggars Banquet, álbum que pontificava, como faixa inicial, Sympathy for the Devil, indiscutivelmente um dos temas mais conhecidos da banda britânica. Composto por Mick Jagger, o tema assume como protagonista o próprio Diabo ("Pleased to meet you / Hope you guess my name"), o qual descreve o seu papel em várias atrocidades históricas. Eleita como uma das melhores canções de todos os tempos, Sympathy for the Devil conheceu diversas versões por outros intérpretes e foi assunto para um documentário de Jean-Luc Godard.

Para celebrar os cinquenta anos do seu lançamento, recordamos a interpretação do tema durante o "infame" concerto dos Rolling Stones, no Hyde Park em Londres, a 5 de Julho de 1969. Captado pelas objectivas do realizador Leslie Woodhead, estas são as imagens de um conjunto ainda nos seus anos formativos, mas a caminho da pura definição de ícones da rock music.



[Fontes: Granada Television / RollingStones50yrs5].
[Imagem: Decca Records].

sábado, 8 de setembro de 2018

Jean-Luc Godard e a Manipulação do Arquivo



pour moi, la grande histoire
c’est l’histoire du cinéma
elle est plus grande que les autres.

(Histoire(s) du cinéma, 2a - Seul le cinéma)

une image n’est pas forte
parce qu’elle est brutale ou fantastique
mais parce que l’association des idées est lointaine.

(Pierre Reverdy, citado em Histoire(s) du cinéma, 4b - Les signes parmi nous)

Teorizemos por um momento — e, nesse processo, afastamo-nos dos habituais conteúdos publicados neste espaço —, centremo-nos nos trabalhos mais recentes de Jean-Luc Godard, e ficamos convencidos de que, como poucos actualmente almejam, o realizador está a produzir uma portentosa análise da memória do Cinema e da História contemporânea com base em fontes arquivísticas da mais variada índole.

A este propósito, poderemos não só invocar o recente LE LIVRE D'IMAGE (exibido, no passado dia 1 de Setembro, pela Cinemateca Portuguesa), experiência radical de experimentalismo da imagem em movimento que destaca blockbusters, os infames "vídeos propagandísticos" do Estado Islâmico e as visões de Hitchcock e de Max Ophuls, como deveremos remontar aos anos anos 80 e 90 e a HISTOIRE(S) DU CINÉMA1.



Projecto vídeo constituído por oito partes, e elaborado ao longo de quase dez anos, HISTOIRE(S) DU CINÉMA continua a ser a melhor demonstração da proficiência de Godard em manipular arquivo, de explanar as imagens como alguém dedicado a colagens sobre uma mesa de trabalho, e de assim "arrancar" teorias, sentimentos, nostalgias e associações. É uma obra inigualável, da qual se retiram os mais diversos significados em função do momento de vida em que a observamos (afirmo-o com conhecimento de causa) e uma considerável "bagagem" de referências culturais, literárias e cinematográficas.

Neste âmbito, e da prolífera filmografia produzida por Jean-Luc Godard desde os inícios dos anos 90, dois títulos sobressaem: JE VOUS SALUE SARAJEVO (1993), ensaio-colagem melancólico sobre a Guerra da Bósnia, inspirado e executado a partir de uma fotografia de Ron Haviv2; e o primeiro capítulo de NOTRE MUSIQUE (2004), intitulado Royaume 1 — Enfer, onde a saturação formal de diversas fontes arquivísticas — documentários, filmes de propaganda e de ficção — serve de base à reflexão em torno da mediatização da violência e do sofrimento humano3 pelas sociedades contemporâneas.



Esses exercícios dedicados à(s) história(s) da Humanidade e do Cinema confluem, provavelmente, em DE L'ORIGINE DU XXIe SIÈCLE (2000), curta-metragem documental que, alegoricamente, entrecruza a realidade das atrocidades da guerra com excertos do Cinema de Maurice Chevalier para manifestar o legado de ruínas que marcou a cronologia do Século XX:



E, portanto, retornamos a LE LIVRE D'IMAGE. Exemplo acabado da filosofia que Gordard impôs ao seu Cinema, a violência das imagens é contraposta com a superlativa dinâmica da associação livre(?) de ideias do cineasta. A sua desconstrução audiovisual assume a forma de arma ideológica, de lucidez crítica, é o espelho de uma mente inquieta e inquietante4, e em incansável combate a tudo o que julgávamos seguro acerca da Sétima Arte, do mundo, da História, em suma, do passado, presente e futuro da nossa própria essência.

Embarquemos ou não na "proposta godardiana" (neste particular, e embora de cariz menos documental, poderíamos acrescentar os casos de FILM SOCIALISME ou ADIEU AU LANGAGE), é incontornável prestar o louvor à manipulação arquivística empreendida por Jean-Luc Godard. Na sua filmografia das últimas três décadas, a imagem de arquivo — em movimento ou não — persiste, oblitera-se e adquire renovados predicados.

Notas:
1 É possível consultar online um guião detalhado dos vários episódios do projecto. Disponível em http://cri-image.univ-paris1.fr/celine/celinegodard.html.
2 ronhaviv.com.
3 Na sua crítica para o The New York Times, Manohla Dargis expõe um interessante ponto de vista sobre as mensagens do filme.
4 Plenamente visível, já em finais dos anos 70, na transcrição das suas palestras em Introduction à une véritable histoire du cinéma (Éditions Albatros, 1980).

Imagens:
1 Casa Azul Films / Ecran Noir productions.
2 Canal+ / Film Comment.
3 Périphéria.

sábado, 21 de outubro de 2017

Doclisboa '17: A Memória do Mundo Inteiro Cabe em Lisboa



No que à reflexão sobre preservação cinematográfica e pertinência histórica de arquivos fílmicos diz respeito, não existe género mais privilegiado do que o Documentário. Os exemplos disto mesmo são abundantes, sendo suficiente recordar títulos como os dedicados à obra e persona de Henri Langlois, ou de homenagem à Cinemateca Francesa que o próprio fundou, passando pela invocação de figuras do panorama nacional e culminando em filmes documentais que, desde muito cedo, alertaram a Humanidade para a importância da preservação e conservação das imagens em movimento.

Neste âmbito, e no nosso país, o Doclisboa revela-se como uma das "montras" mais diversificadas e iconoclastas na exibição de cinema documental. A comemorar os seus quinze anos de existência por estes dias, não deixa de ser curioso verificar, e imperativo sublinhar, o modo como a programação do Festival de 2017 (inadvertidamente ou não, só a sua direcção o poderá sentenciar) se debruça sobre estes temas. Seja numa abordagem directa ou por pura inferência, esta será, muito provavelmente, a edição que, no historial do evento, mais espaço de exibição proporciona à introspecção enunciada na primeira frase deste texto1.



Senão, vejamos o que nos oferece a selecção do Doclisboa 2017.

Desde o nitrato conservado pelo frio polar e recuperado para o "calor do projector" de DAWSON CITY: FROZEN TIME (Bill Morrison) à memória da História recente da Guiné-Bissau resgatada em SPELL REEL (Filipa César); da projecção de Cinema enquanto meio de resistência política em SEA OF CLOUDS (George Clark) ao "restauro cinematográfico" de um projecto nunca concretizado por André Bazin em LE FILM DE BAZIN (Pierre Hébert)...

Ou, ainda, a revisitação de Bárbara Virgínia, a primeira mulher a realizar em Portugal, e dos "sobreviventes" 26 minutos sem som do seu TRÊS DIAS SEM DEUS; da reciclagem de película em 16mm de MIROIR SÉB FRAGILE! (Sirah Foighel Brutmann e Eitan Efrat) até ao contexto político das imagens de arquivo agregado em NO INTENSO AGORA (João Moreira Salles); e, last but not least, teremos direito à exibição da versão restaurada de GRANDEUR ET DÉCADENCE D'UN PETIT COMMERCE DE CINÉMA (Jean-Luc Godard).



Importa, igualmente, vislumbrar a logística em torno da retrospectiva integral dedicada à cineasta checa Vera Chytilová como uma genuína ode ao mester da projecção em película. Para a sua concretização — e de acordo com fonte da direcção do Doclisboa —, viajaram para Portugal nada mais nada menos do que cerca de 400kg de filmes de Chytilová em formatos analógicos. Numa era em que os festivais de cinema também aderiram, quase incondicionalmente, ao DCP, eis um singular volume de película a ser projectado nos onze dias do certame.

Formular um pun ao slogan do Doclisboa é irresistível: em Outubro, a memória do mundo inteiro cabe em Lisboa. E, pela sua edição de 2017, também há lugar para muito Cinema sobre e em película.

Notas:
1 Em 2012, o Doclisboa organizou uma mesa redonda acerca deste tema, cujo resumo foi publicado neste blog.

Imagens:
1 DAWSON CITY: FROZEN TIME, Hypnotic Pictures.
2 SPELL REEL, Filmes do Tejo II.
3 Organização das bobines de filmes de Vera Chytilová, na Culturgest (foto de Edgar Ascensão).

[Agradecimento: Edgar Ascensão.]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Reel Film Day



"There is nothing like experiencing actual 35mm projected film."
Steve Bellamy, Presidente da Kodak Motion Picture and Entertainment.

5 de Março de 2017 — Reel Film Day: data em que, por iniciativa da Kodak e do Alamo Drafthouse Cinema, a projecção da Sétima Arte em película de 35mm será celebrada em diversas cidades dos EUA, num conjunto de sessões que invoca desde Orson Welles a Quentin Tarantino, de Michael Powell e Emeric Pressburger a Jonathan Demme, de Jean-Luc Godard a Terry Gilliam.

O programa completo do Reel Film Day encontra-se disponível no site oficial da Kodak, o qual é, inclusivamente, potenciado por merchandising da boutique Mondo desenvolvido especificamente para esta iniciativa e cujos lucros reverterão para acções de preservação cinematográfica.

[Fonte: kodak.com]




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Hollywood vs. 35mm — 5ª parte



Film Is Dead? Long Live Movies — How Digital Is Changing the Nature of Movies é o título de um artigo publicado hoje pelo New York Times que analisa o impacto da progressiva conversão ao digital por quem faz e produz Cinema nos nossos dias.

A.O. Scott e Manohla Dargis, os dois principais críticos de cinema daquela publicação, analisam os efeitos de uma revolução que está, como nunca se observou, a alterar significativamente o modo como percebemos um filme. Ficam aqui as principais observações de cada, num artigo de leitura integral obrigatória para os interessados neste tópico cada vez mais propício ao debate:


imagem de THE MASTER, de Paul Thomas Anderson, inteiramente filmado em película de 70mm.

A.O. SCOTT:

«De acordo com uma emergente sabedoria convencional, a película [no original, "film"] acabou. Se assim for, poderemos continuar a apelidar os realizadores de filmmakers? Ou esse título ficará reservado apenas para alguns irredutíveis como Paul Thomas Anderson, cujo novo filme, THE MASTER, foi rodado em 70mm? Não é que o nosso trabalho alguma vez tenha sido criticar o estado de bobinas de celulóide assim que saem das suas caixas; escrevemos sobre as histórias e as imagens gravadas naquele formato. Mas a mudança do fotoquímico para o digital não é uma questão simplesmente técnica ou semântica.»

«A qualidade de imagem melhorou rapidamente, e a última década proporcionou alguns exemplos impressionantes de realizadores que transformaram o digital numa vantagem estética. O plano-sequência de noventa minutos, pelos corredores do Heritage Museum, que compõe A ARCA RUSSA de Alexander Sokurov, é um artefacto especificamente digital. O mesmo se pode chamar à paisagem nocturna de Los Angeles em COLATERAL, de Michael Mann, e os rugosos campos de batalha em CHE, de Steven Soderbergh, nunca existiriam sem a luz, mobilidade e relativa moderação financeira de uma câmara RED.»

«Outra interessante questão filosófica é se, ou até que ponto, [o Cinema] continuará a ser a mesma expressão artística. Poderão as narrativas produzidas e distribuídas em formatos digitais divergir de forma tão radical daquilo a que chamamos "filmes" que não conseguiremos reconhecer uma ligação genética? Irá o novo cinema digital absorver totalmente o seu percursor, ou poderão coexistir? Por mais dramática que esta revolução possa ser, certo é que estamos ainda na sua fase primária.»


imagem de COLATERAL, de Michael Mann, cujas sequências nocturnas foram inteiramente registadas com câmaras digitais.

MANOHLA DARGIS:

«O film da película não é só um imperativo tecnológico; também é uma questão económica.(...) Tal como escreve o teórico David Borwell, 'a conversão dos teatros de 35mm para a exibição digital foi concebida por e para uma indústria caracterizada pela distribuição em massa, saturação do mercado e lucro rápido. Face a este avassalador plano de negócios, o filme em película afigura-se como obstáculo'.»

«Não sou anti-digital, embora prefira a película: gosto do grão e textura visual da película, e mesmo cópias razoavelmente conservadas conseguem ser melhores que uma em digital. E sim, o digital pode ter um aspecto surpreendente se o realizador — Soderbergh, Mann, Godard, David Fincher ou David Lynch, por exemplo — e o projeccionista tiverem esse empenho.»

«A imagem de um filme é criada pela luz que se materializa em algo que existe — existia — em tempo e espaço reais. É nesse sentido que a película se torna testemunha da nossa existência. No entanto, ouvi o grande artista vanguardista Ken Jacobs — que projecta imagens em movimento criadas a partir de obturadores, lentes, sombras e as suas próprias mãos — dizer que o Cinema não está dependente da película; tem de ser magia.»

[Fonte: The New York Times.]