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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Novidades Analógicas #15: Doclisboa 2019



A menos de vinte e quatro horas do início do Doclisboa 2019, o Síndroma do Vinagre debruça-se sobre a "oferta analógica" que o Festival nos reserva este ano.

Partindo dos títulos que foram rodados, inteira ou parcialmente, em formatos de película, assim como aqueles que fazem das imagens de arquivo a sua principal fonte de trabalho, conclui-se que a programação do Doclisboa 2019 — neste exercício, não foram tomados em linha de consideração os títulos que compõem as retrospectivas do Festival — irá exibir mais de vinte filmes "analógicos", sendo particularmente curiosa a predominância no recurso à película de 16mm.



Competição Internacional

Competição Portuguesa


Riscos

Da Terra à Lua


Heart Beat

Doc Alliance

Competição Internacional

[Fonte: Doclisboa 2019].

Imagens:
1 Doclisboa.
2 Fotograma de JOURNEY THROUGH A BODY; Camille Degeye.
3 Fotograma de RAPOSA (Leonor Noivo); Terratreme Filmes.
4 Fotograma de THE QUIET ONE (Oliver Murray); My Accomplice & Gizmo Films.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

O Arquivo do Dia #318 — Luis Ospina (1949 - 2019)



Cineasta e produtor colombiano, Luis Ospina foi um dos fundadores do denominado Grupo de Cali que, juntamente com artistas como Carlos Mayolo e Andrés Caicedo, concebeu uma série de projectos criativos motivados pelo desejo de observar e criticar as profundas transformações sociais e económicas do seu país ao longo dos anos setenta. Através de filmes como a curta-metragem AGARRANDO PUEBLO, PURA SANGRE ou SOPLO DE VIDA, Ospina demonstrou ser um autor que, segundo as palavras de Agnès Wildenstein (a propósito da retrospectiva que o Doclisboa prestou ao realizador há precisamente um ano), "gosta de quebrar as regras, experimentar e explorar as fronteiras entre documentário e ficção, e que olha para o mundo com um sentido de humor irreverente".

No momento em que se noticia o falecimento de Luis Ospina, o Arquivo de hoje recorda esta entrevista, gravada em mil novecentos e setenta e oito pela France 3, onde o cineasta fala sobre AGARRANDO PUEBLO — provavelmente, o seu filme mais aclamado e discutido, que pode ser visualizado on-line —, nomeadamente sobre a crítica aos que produzem Cinema por dinheiro a partir da "miséria dos outros".



[Fontes: France 3 / Doclisboa / INA.fr].
[Imagem: Juan Cristobal Cobo / The City Paper Bogotá].

sábado, 27 de outubro de 2018

Filmes Restaurados: THE PEOPLE VS. PAUL CRUMB



Comparações entre a imagem de uma cópia analógica e a versão restaurada de THE PEOPLE VS. PAUL CRUMB, de William Friedkin.

Restauro pela Facets Multimedia em 2014, a partir de uma cópia em 16mm, THE PEOPLE VS. PAUL CRUMB é exibido hoje pelo Doclisboa, às 19h15, no Pequeno Auditório da Cultugest.



[Fonte e Vídeos: Facets Multimedia].
[Imagem: FilmAffinity].

domingo, 21 de outubro de 2018

Novidades Analógicas #3: Doclisboa 2018



É de forma assinalável — e este destaque já surge com alguns dias de atraso — que se constata a presença de muitas obras, inteira ou parcialmente, rodadas em formatos analógicos na programação do Doclisboa 2018.

Transversalmente a todas as secções, o Festival proporciona a observação de títulos em suporte físico e analógico, havendo, inclusive, um filme, na competição Verdes Anos, que "oferece" a viagem ao Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM).

Exceptuando a restrospectiva integral de Luis Ospina, os programas dedicados a James Benning, Mike Holbloom e Jean-François Stévenin, e a exibição de filmes produzidos antes da actual "revolução digital" de 2009, estes são os destaques analógicos do Doclisboa 2018.



Competição Internacional

Competição Portuguesa

Riscos — "Ninguém volta das Viagens"
  • RETOUR (Pang-Chuan Huang) — 35mm e Super 8mm



Riscos — "Imagem Forense"

Riscos — "Os Vivos e os Mortos"

Riscos — "Da Atenção"

Da Terra à Lua

Heart Beat



Verdes Anos

Doc Alliance

[Fonte: Catálogo Doclisboa 2018].
[Imagens: Doclisboa / Kino Rebelde / In Between Art Film / Carlos Miranda].

sábado, 28 de outubro de 2017

Doclisboa '17: A Eloquência dos Arquivos de Cinema



Regressemos, então, ao Doclisboa '17. E de como o potencial historiográfico dos arquivos de Cinema e Televisão conheceu todo um novo fulgor por estes dias, ou não tivessem as expectativas geradas para a presente edição do Festival, aqui enunciadas na semana passada, sido inteiramente cumpridas.

Da experiência pessoal ao panorama geral político, três títulos destacaram-se na programação deste ano como exemplos acabados do exercício da justaposição de imagens de arquivo, sem narradores nem talking heads, com a elaboração de sentimentos, reflexões e incertezas que não só encontram novas leituras históricas, como também estão perfeitamente adequadas à realidade sócio-política contemporânea.



NO INTENSO AGORA parte dos home movies do seu realizador, João Moreira Salles, e das memórias que aquelas imagens de infância em Paris e no Brasil lhe suscitam, para escorrer em torno de eventos pivotais da segunda metade do Século XX — o Maio de 68, a Revolução Cultural de Mao Tse-Tung, a repressão soviética da Primavera de Praga — e respectivos efeitos sobre o nosso quotidiano.

No seu contexto formal, a "intervenção reflexiva" de João Moreira Salles ocorre inteiramente sobre o filme de arquivo. Desde a análise da psicomotricidade (slow motion, freeze frames, repetição...) do arremesso de uma pedra de calçada por um protestante no Maio de 68, passando pela minuciosa apresentação das origens do activismo de Daniel Cohn-Bendit, e almejando um conjunto de impressões, formuladas pelo cineasta, sobre o filme de um desconhecido grupo de cidadãos checos em convívio social, NO INTENSO AGORA é, simultaneamente, uma obra de perspectiva individual e colectiva.

A plenitude da narrativa histórica está completamente divulgada — e, a espaços, através de filmes verdadeiramente impressionantes captados por corajosos desconhecidos —, mas Salles nunca permite a sonegação de uma abordagem pessoal, tanto visual como na prosa da sua voz-off, dos acontecimentos realçados. E, por inerência, converte-nos em cúmplices de um passado revolucionário, utópico e de esperança, devorado pela conformada inércia do Homem ao longo dos últimos cinquenta anos.



Também de forma muito singular, é a partir do próprio acervo audiovisual da Guiné-Bissau que SPELL REEL constrói a sua metodologia e reflexão. Neste filme-ensaio de Filipa César (considerado por alguns críticos, de modo muito exacto, como "cinema arqueológico"), as quarenta horas de película, sobreviventes do calor da África Ocidental, negligência e Guerra Colonial, são um ponto de partida para a observação de como a formação histórica, e respectiva percepção colectiva, de um país pode brotar da visualização das imagens em movimento do seu passado.

De um arquivo cujo futuro de preservação e acesso público ainda permanece incerto (e isso ficou claro durante o Q&A, que procedeu à exibição do filme, com a realizadora), SPELL REEL destaca os momentos mais pragmáticos do processo de independência — incluindo o monetário — da Guiné-Bissau. O legado de Amílcar Cabral, a ideologia sócio-política do PAIGC, o percurso de cineastas guineenses (por exemplo, Flora Gomes ou Sana Na N'Hada, cujos filmes também são parte integrante daquele arquivo) formados em Cuba e breves apontamentos etnográficos são ecoados, no presente, por quem viveu aqueles acontecimentos e apresentados a gerações mais novas que não escondem o brilho de fascínio e curiosidade nos seus olhos.

Quando o filme termina, resta a sensação de que, nos dias que correm, é extremamente raro ver uma nação com tanto orgulho e desejo em conservar, sem olhar a constantes contrariedades políticas e económicas, um arquivo de Cinema como a Guiné-Bissau.



Os bons velhos tempos do videotape estão na génese de THE REAGAN SHOW, documentário que olha para a Administração Reagan (1981-1989) como uma era de puro "blockbuster político". Também inteiramente composto por imagens de arquivo — da CNN à NBC, mas com particular enfoque para a White House TV, constituída pelo próprio Reagan —, Pacho Velez e Sierra Pettengill detêm-se no circo mediático que aquele Presidente tratou de cultivar e incentivar.

Sem qualquer culto de personalidade à vista, a escolha das imagens salienta Ronald Reagan como homem convicto em seguir um "guião" em modo autopilot, num evidente elo de ligação ao seu passado em Hollywood, mas capaz de dominar as negociações mais intrincadas (nomeadamente, com Gorbachev).

Embora THE REAGAN SHOW não pretenda as mesmas implicações que outros filmes da mesma natureza (como é o caso do "corrosivo" SPIN) conseguiram formular, e se possa lamentar que eventos como a tentativa de assassinato perpetrada por John Hinckley Jr., as motivações e fundamentos do Reaganomics ou o Caso Irão-Contras conheçam pouco ou nenhum tempo de antena, o filme é mais um claro exemplo da eloquência do documentário histórico que possibilita aos arquivos "falarem" pelo poder do seu próprio conteúdo visual.

Imagens:
1 THE REAGAN SHOW, CNN Films.
2 NO INTENSO AGORA, Videofilmes Produções Artísticas Ltda.
3 SPELL REEL, Filmes do Tejo II.
4 THE REAGAN SHOW, pachoworks.com.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DAWSON CITY: FROZEN TIME (2016, Bill Morrison)



Se Bill Morrison parece abdicar da poesia sensorial que despontava em, por exemplo, DECASIA (2002), DAWSON CITY: FROZEN TIME não deixa de ser um profundo objecto de elogio à perseverança da película em nitrato.

A redescoberta, em 1978, de mais de 500 bobines de película inflamável, preservadas desde os anos 20 no permanente gelo da região remota de Yukon, e que possibilitou a visualização de filmes considerados perdidos durante décadas, revela-se como mais uma eloquente prova da resistência do formato.

Os sinais de degradação na película podem ser evidentes (o documentário é maioritariamente constituído por excertos deste "achado arqueológico"), mas as narrativas, os rostos, as heroínas do cinema mudo, as "variedades", os escândalos desportivos, os news reels e as emoções de uma época são inteiramente perceptíveis, do primeiro ao último minuto de DAWSON CITY: FROZEN TIME, num magnífico reencontro do nitrato com a quente luz do projector.



O passar dos anos é ilustrado pelas imagens recuperadas em Dawson City, as quais são complemento ou oposição aos acontecimentos realçados, numa simples mas vívida linearidade cronológica: do primeiro momento em que se encontrou ouro nas margens do Rio Yukon, à constituição de uma corrida ao outo por aventureiros e exploradores (com direito a apropriadas referências a A QUIMERA DO OURO, de Chaplin, ou a notável curta documental de Colin Low e Wolf Koenig, CITY OF GOLD), e culminando nos sucessivos negócios de entretenimento que surgiram e encerraram naquela cidade — salas de exibição de Cinema incluídas —, o nitrato ganha uma nova vida, adquirindo leituras alternativas, líricos contornos e irónicos contextos face ao nosso presente.

A principal novidade, a nível formal, será mesmo o recurso à estrutura discursiva aqui mobilizada por Bill Morrison. Nenhum outro documentário anterior seu exibiu tanta informação através de legendas descritivas. Mas tal não menoriza a importância da imagem em celulóide, a matéria-prima fundamental do realizador, enquanto símbolo e unidade de preservação da memória "em movimento" da Humanidade.

sábado, 21 de outubro de 2017

Doclisboa '17: A Memória do Mundo Inteiro Cabe em Lisboa



No que à reflexão sobre preservação cinematográfica e pertinência histórica de arquivos fílmicos diz respeito, não existe género mais privilegiado do que o Documentário. Os exemplos disto mesmo são abundantes, sendo suficiente recordar títulos como os dedicados à obra e persona de Henri Langlois, ou de homenagem à Cinemateca Francesa que o próprio fundou, passando pela invocação de figuras do panorama nacional e culminando em filmes documentais que, desde muito cedo, alertaram a Humanidade para a importância da preservação e conservação das imagens em movimento.

Neste âmbito, e no nosso país, o Doclisboa revela-se como uma das "montras" mais diversificadas e iconoclastas na exibição de cinema documental. A comemorar os seus quinze anos de existência por estes dias, não deixa de ser curioso verificar, e imperativo sublinhar, o modo como a programação do Festival de 2017 (inadvertidamente ou não, só a sua direcção o poderá sentenciar) se debruça sobre estes temas. Seja numa abordagem directa ou por pura inferência, esta será, muito provavelmente, a edição que, no historial do evento, mais espaço de exibição proporciona à introspecção enunciada na primeira frase deste texto1.



Senão, vejamos o que nos oferece a selecção do Doclisboa 2017.

Desde o nitrato conservado pelo frio polar e recuperado para o "calor do projector" de DAWSON CITY: FROZEN TIME (Bill Morrison) à memória da História recente da Guiné-Bissau resgatada em SPELL REEL (Filipa César); da projecção de Cinema enquanto meio de resistência política em SEA OF CLOUDS (George Clark) ao "restauro cinematográfico" de um projecto nunca concretizado por André Bazin em LE FILM DE BAZIN (Pierre Hébert)...

Ou, ainda, a revisitação de Bárbara Virgínia, a primeira mulher a realizar em Portugal, e dos "sobreviventes" 26 minutos sem som do seu TRÊS DIAS SEM DEUS; da reciclagem de película em 16mm de MIROIR SÉB FRAGILE! (Sirah Foighel Brutmann e Eitan Efrat) até ao contexto político das imagens de arquivo agregado em NO INTENSO AGORA (João Moreira Salles); e, last but not least, teremos direito à exibição da versão restaurada de GRANDEUR ET DÉCADENCE D'UN PETIT COMMERCE DE CINÉMA (Jean-Luc Godard).



Importa, igualmente, vislumbrar a logística em torno da retrospectiva integral dedicada à cineasta checa Vera Chytilová como uma genuína ode ao mester da projecção em película. Para a sua concretização — e de acordo com fonte da direcção do Doclisboa —, viajaram para Portugal nada mais nada menos do que cerca de 400kg de filmes de Chytilová em formatos analógicos. Numa era em que os festivais de cinema também aderiram, quase incondicionalmente, ao DCP, eis um singular volume de película a ser projectado nos onze dias do certame.

Formular um pun ao slogan do Doclisboa é irresistível: em Outubro, a memória do mundo inteiro cabe em Lisboa. E, pela sua edição de 2017, também há lugar para muito Cinema sobre e em película.

Notas:
1 Em 2012, o Doclisboa organizou uma mesa redonda acerca deste tema, cujo resumo foi publicado neste blog.

Imagens:
1 DAWSON CITY: FROZEN TIME, Hypnotic Pictures.
2 SPELL REEL, Filmes do Tejo II.
3 Organização das bobines de filmes de Vera Chytilová, na Culturgest (foto de Edgar Ascensão).

[Agradecimento: Edgar Ascensão.]