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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Outfest: A Preservação Audiovisual do Legado LGBTQ



Não sendo a primeira vez que, neste espaço, se escreve sobre a missão e as actividades do Outfest UCLA Legacy Project, não se afigura redundante salientar o importante trabalho que a organização tem desempenhado, ao longo de mais de uma década, para a preservação e restauro do património fílmico dedicado à temática LGBTQ.

Nesse âmbito, constata-se, com particular comprazimento, que o Outfest UCLA Legacy Project é "proprietário" de mais 41 mil elementos fílmicos (desde cópias em 16mm até a ficheiros digitais compilados em DVD, num rol que pode ser consultado no site oficial da organização) e de como tem desenvolvido, paralelamente, um sério e empenhado programa de restauros de obras cinematográficas — algumas das quais já consideradas de importância histórica, cultural e artística pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América.



De ANDERS ALS DIE ANDERN (de Richard Oswald, naquele que foi, em 1919, um dos primeiros filmes a retratar a homossexualidade sem estereótipos nem ofensa) ao influente PARIS IS BURNING (documentário de 1990, sobre a comunidade LGBT da Nova Iorque dos anos 80, realizado por Jennie Livingston), a lista, agora divulgada em pormenor, de títulos restaurados pelo Outfest UCLA Legacy Project revela um contínuo e privilegiado trabalho no sentido de mitigar preconceito e discriminação nas sociedades contemporâneas.

[Fonte: Outfest UCLA Legacy Project].
[Imagem: Fotograma de Ron and Chuck in Disneyland Discovery (1969, Pat Rocco) / Bizarre Productions].

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O Arquivo do Dia #171 — National Film Registry 2018



Com o anúncio, divulgado ontem de manhã, dos novos vinte e cinco filmes que ficarão registados, a partir deste ano, no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, a atenção d'O Síndroma do Vinagre centrou-se em três titulos que, tanto pelo seu estatuto de raridade como pelas histórias de preservação que encerram, merecem destaque no Arquivo de hoje.

A saber: DIXON-WANAMAKER EXPEDITION TO CROW AGENCY (1908), o único registo em movimento da expedição, empreendida por Rodman Wanamaker e pelo fotógrafo Joseph K. Dixon, às tribos e sociedades dos índios norte-americanos no estado do Montana — considerado perdido durante décadas, o filme foi reencontrado, em 1982, numa loja de antiguidades e encontra-se preservado pelo Smithsonian Institution; THE GIRL WITHOUT A SOUL (1917, John H. Collins), um conto moral sobre duas irmãs gémeas (interpretadas pela mesma actriz, Viola Dana) e a rivalidade que as separa — preservado pela George Eastman House Motion Picture Collection; e, que abaixo se reproduz, SOMETHING GOOD — NEGRO KISS (1898), onde um casal negro (Saint Suttle e Gertie Brown), livre de estereótipos ou caricaturas raciais, partilha abraços, beijos e sorrisos cúmplices, num dos raros títulos dos primórdios da Sétima Arte com actores negros que sobreviveram até aos nossos dias — reencontrado e restaurado pela University of Southern California School of Cinematic Arts e o Hugh M. Hefner Moving Image Archive.



[Fonte: Hugh M. Hefner Moving Image Archive].
[Imagem: USC School of Cinematic Arts / uChicago News].

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O Arquivo do Dia #154 — Frankenstein Restaurado



Fruto da pesquisa e trabalho da Library of Congress, é possível observar o restauro da primeira adaptação cinematográfica do clássico, de Mary Shelley, FRANKENSTEIN. Considerado perdido durante décadas, esta versão, realizada em 1910 por J. Searle Dawley para os Edison Studios, e com Charles Stanton Ogle no papel principal, foi encontrada no acervo de um coleccionador privado, o qual adquiriu uma cópia em nitrato, nos anos 50, sem se aperceber de ter ficado na posse de um filme perdido.

No site da Library of Congress, é possível conhecer todos os pormenores em torno deste restauro, que hoje destacamos, num texto que culmina com a mais espirituosa das observações: "Not long after creating the monster, Victor Frankenstein was consumed with regrets, exclaiming that he "had desired it with an ardor that far exceeded moderation; but now that I had finished, the beauty of the dream vanished, and breathless horror and disgust filled my heart." In our case, however, reanimating this notorious bit of cinema history was, and remains, a delight".



[Fontes: Library of Congress / Slate Culture].
[Imagem: Thomas A. Edison Inc. / Library of Congress].

sábado, 6 de outubro de 2018

Nunca se Escreveu Tanto Sobre a Película — Parte 6



Uma súmula de artigos que, nos últimos meses, colocaram a projecção em 70mm e a preservação de materiais fílmicos analógicos no topo de assumidas peças de jornalismo. Nota especial para a persistente referência ao 70mm como um formato para o futuro.

"The stacks of billions of dollars in cash that were stored here during the Cold War have been replaced by vaults stuffed with film from the golden age of Hollywood."
Gabe LaMonica, in Former nuclear-proof bunker now safe guards treasures of Hollywood, Washington Times.

"In this new 12-minute video essay for his YouTube channel The Royal Ocean Film Society, Andrew Saladino digs into the history of 70mm film and explores how and why the format was developed in the first place. In doing so, he makes a case for the value of 70mm beyond just its aesthetics."
Caroline Siede, in We have the rise of TV to thank for the invention of 70mm film, AV News.

"The images are really sharp. The color, especially... the color and brightness play off each other. The brightness is measured at the same level, but for 70mm, it’s more evenly spread across the frame. It’s really sort of an intense image."
Julian Antos, citado por Dominick Suzanne-Mayer, in The Film Stays in the Picture: A Guide to 70mm Film Projection, Consequence of Sound.

"Many movies are costly to preserve. Others have disappeared. It's a problem no one saw coming."
Chris O'Falt, in The Indie Film Preservation Crisis: We Are Losing the Films That Defined the ’80s and ’90s, IndieWire.

"In addition to interest from still photographers, Kodak anticipates a strong demand for Super 8 and 16mm in commercials, music videos and features. "
David Alexander Willis, in Kodak Ektachrome Resurgence, The American Society of Cinematographers.

"What many projectionists (myself included) describe as the 'magic' of movies isn't what is seen on the screen in a cinema. The vantage point from behind the port is a unique one and often creates a special bond between projectionist and projector."
in For the Love Of It, Splice Here.

"In the past five years alone, 12 major blockbuster films have been released in 70 mm. So for people like Agle staffing up movie theaters, it's led to a need for projectionists who know how to work with the format."
Peter Balonon-Rosen, in As 70 mm film sees a comeback, who's running those projectors?, MarketPlace.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

THE PRICE OF BETRAYAL: Victor Sjöström Reencontrado



A recente descoberta de uma cópia em nitrato de THE PRICE OF BETRAYAL (no original, Judaspengar; também conhecido como L’Argent de Judas), curta-metragem realizada por Victor Sjöström em 1915, é já um dos acontecimentos de restauro cinematográfico do ano, permitindo, simultaneamente, uma nova perspectiva sobre o trabalho e estilo dos anos formativos do realizador de KÖRKARLEN (1921) e HE WHO GETS SLAPPED (1924).

O filme, sobre um homem desempregado e desesperado por encontrar ajuda para a sua esposa doente, foi redescoberto pelo Centre National du Cinéma (CNC) numa colecção suíça e restaurado em definição 4K, numa colaboração com o Svenska filminstitutet. A cópia reencontrada é datada de 1926, com intertítulos em francês e alemão, e apresentava extensos danos físicos, tais como perfurações rasgadas e atenuada degradação de imagem. Para a versão restaurada, os intertítulos foram recriados pelo Svenska filminstitutet com base em fontes não-fílmicas daquele instituto e da Library of Congress, em Washington.

THE PRICE OF BETRAYAL será exibido publicamente, pela primeira vez, no próximo dia 9 de Outubro durante o Festival Le Giornate del Cinema Muto, em Pordenone.



[Fontes: CNC / Le Giornate del Cinema Muto].
[Imagens: CNC].

domingo, 19 de agosto de 2018

O Arquivo do Dia #85 — Marketing Atómico



Produzido em 1953 pela National Paint, Varnish and Lacquer Association, THE HOUSE IN THE MIDDLE não só é um sponsored film de culto por excelência, como se revela um produto sintomático da mentalidade sócio-ecónomica do seu tempo.

Entre o receio colectivo de um ataque nuclear e a sagacidade publicitária dos anos 50, fica estabelecida a promessa de que uma casa pintada de fresco, ao invés de uma propriedade sem adequada manutenção, apresenta maiores probabilidades de resistir a uma guerra nuclear. Não obstante a sua argumentação ilógica, THE HOUSE IN THE MIDDLE foi seleccionado pelo National Film Registry da Biblioteca do Congresso, em 2001, como obra de importância cultural, histórica ou estética.



[Fonte: Nuclear Vault].
[Imagem: IMDB].

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Da Película para o Digital #5



FEAR AND DESIRE (1953), drama simbólico de guerra, é o primeiro filme e, muito provavelmente, o menos conhecido da carreira de Stanley Kubrick.

Muito descontente com o resultado final, Kubrick dedicou imenso tempo e dinheiro na aquisição de todas as versões existentes, independentemente do formato, de FEAR AND DESIRE, com o intuito de impedir qualquer exibição do filme após o seu ano de estreia. Uma vontade nunca concretizada.

A Library of Congress conservou uma cópia, em 35mm, do filme, agora restaurada e transferida para Blu-Ray na edição que a Kino Lorber disponibilizará a partir do próximo mês de Outubro (onde também se inclui THE SEAFARERS, curta-metragem assinada por Kubrick).

E que melhor apresentação poderá existir do que a apresentação do "antes e depois" do restauro digital de FEAR AND DESIRE?



[Fontes: CriterionCast e indieWIRE.]

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Da Película para o Digital #4



LET THERE BE LIGHT é um documentário, realizado entre 1944 e 1946 por John Huston, que retrata os procedimentos clínicos junto de soldados diagnosticados com stress pós-traumático durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma obra de cinema documental totalmente pioneira, entrecruza o testemunho visual verídico de militares psicologicamente afectados com um estilo de realização e iluminação de cenas próprios da Hollywood daquela época.

As suas imagens, ainda capazes de impressionar o espectador contemporâneo, causaram definitiva sensação aquando da sua data de produção: o exército norte-americano — não obstante tratar-se de uma encomenda com fins de divulgação militar — decidiu confiscar o filme e nunca o exibir publicamente, alegando "potenciais efeitos desmoralizadores em futuros recrutamentos" e "invasão da vida privada dos soldados filmados".

Embora tenham sido efectuadas algumas cópias do filme, a natureza "clandestina" das mesmas não favoreceu a sua devida preservação. Para além disso, nem mesmo o próprio John Huston tinha conhecimento do paradeiros dos materiais originais.



Em 2010, LET THERE BE LIGHT foi classificado pela Biblioteca do Congresso como historicamente significante e, 60 anos depois, por intermédio da National Film Preservation Foundation (NFPF), devidamente preservado.

O resultado do primeiro esforço de restauro do documentário está disponível, temporariamente e na íntegra, on-line (o site da NFPF também permite o download do filme):



Neste título, é interessante observar os pormenores, elencados pela NFPF, do restauro fílmico de LET THERE BE LIGHT.

Áudio: para o restauro, foi utilizada a melhor cópia disponível em 35mm com área variável de banda sonora óptica, a qual apresentava edição descuidada e ruidosa entre cenas, flutuações nos níveis de som e diálogos sibilantes; procedeu-se à conversão digital da banda sonora, a partir do qual se removeram sibilantes e estalidos e se corrigiu outras irregularidades.

Imagem: para o restauro, foi produzido novo negativo, através de sistema wet gate de duplicação (que permite obter uma imagem mais limpa de riscos duplicados), a partir de uma cópia em acetato de grão fino — em bom estado apesar de apresentar riscos e escoriações na base do filme — e que foi temporariamente imersa num banho químico para preencher o espaço dos danos físicos nos fotogramas; o novo negativo foi digitalizado em alta definição (a primeira versão é a que se encontra actualmente disponível para visualização e download); estão planeados a conversão desta digitalização para uma resolução de 2k (2048 por 1556 pixels) e o trabalho contínuo de remoção de sujidade, pó e riscos na imagem.

[Fontes: National Film Preservation Foundation e msnbc.com Entertainment.]