Mostrar mensagens com a etiqueta Invicta Film. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Invicta Film. Mostrar todas as mensagens

sábado, 8 de dezembro de 2018

Filmes Perdidos Portugueses: O Cinema Desaparecido de Georges Pallu



"Contratado" em Abril de 1918 pela Invicta Film, Georges Pallu foi um dos principais realizadores estrangeiros que se fixaram em Portugal, nos anos 10 e 20 do século passado, como medida para o impulsionamento da então pueril e inexperta indústria cinematográfica do nosso país1. Formado pela escola da Film d’Art francesa, e tendo adquirido experiência profissional enquanto funcionário de produção e fabrico de material de cinema na Pathé Frères, Pallu era descrito como um "homem probo, fino de trato, impecável nos seus contactos humanos (…) mantendo com tacto, aprumo e compreensão pelo trabalho alheio uma posição de grande dignidade e de profunda simpatia que lhe granjearia, durante todo o período da sua larga presença entre nós, um ambiente de respeito e de completa adesão"2.

Durante a sua permanência em Portugal, e até ao seu regresso a França em 1925, Georges Pallu assinou catorze longas-metragens (nomeadamente, adaptações de obras literárias do Século XIX), e prestou ocasionais colaborações em produções nacionais; foi, por exemplo, o responsável pela montagem de MULHERES DA BEIRA, de Rino Lupo). Desta "filmografia nacional", destacam-se AMOR DE PERDIÇÃO (1921), OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA (1921) e CLÁUDIA (1923), três títulos que, tanto pelos seus moldes de produção como por terem conhecido projecção além-fronteiras, marcaram o legado da actividade da Invicta Film e, por inerência, as próprias História e metodologias do Cinema Português.



Desta produção, e à semelhança do sucedido com parte considerável do espólio cinematográfico português daquele período, contam-se cinco longas-metragens de Georges Pallu das quais não é possível encontrar o paradeiro de qualquer material fílmico. Para além de O COMISSÁRIO DE POLÍCIA (abordado anteriormente neste espaço), encontram-se desaparecidos O MAIS FORTE (1919), O AMOR FATAL (1920), QUANDO O AMOR FALA (1921) e A TORMENTA (1925).

E em conformidade com o seu "estatuto" de filmes perdidos, também não subsistiu até aos nossos dias, infelizmente, documentação pormenorizada sobre a produção, a rodagem ou a opinião pública em torno dos títulos hoje sublinhados. Pelo que a exposição dos detalhes desses quatro filmes pode ser assim sumarizada:
  • O MAIS FORTE
  • Filme de ambiente dramático sobre "a vida real em Portugal"3, supõe-se que tenha sido produzido com o intuito de testar recursos humanos e mecânicos da Invicta Film, decorrentes da instalação de um novo complexo na Quinta da Prelada, no Porto. Protagonizado por Duarte Silva e Alfredo Henriques, dois populares actores de teatro da época, a narrativa estava dividida em três partes numa metragem total de 1500 metros;

  • O AMOR FATAL
  • Co-produção entre a Invicta Film e o Diário de Notícias, no seguimento de um acordo estabelecido entre as duas partes para a adaptação ao grande ecrã de folhetins publicados naquele jornal. Drama em quatro partes, a sua "campanha promocional" prometia um filme emocionante "cuja intensidade máxima de sensação é uma cena de transfusão de sangue". Estreou em Lisboa (Chiado Terrasse e Olympia) e no Porto (Jardim Passos Manuel) em Outubro de 1920. Alves Costa descreveu-o4 como um "filme fraco" e que serviu, muito provavelmente, de tubo de ensaio para "um empreendimento de maior fôlego: a adaptação ao cinema do romance de Camilo, «Amor de Perdição»";

  • QUANDO O AMOR FALA
  • Exibido em Lisboa, no Cinema Condes, em Outubro de 1921, tratar-se-ia de uma comédia em duas partes e, segundo algumas fontes, "interessante e despretenciosa";

  • A TORMENTA
  • Produzido numa altura em que a actividade da Invicta Film já sentia os efeitos de dificuldades económicas, o argumento do filme foi expressamente escrito por Paulo Osório, então correspondente do Diário de Notícias, e pelo qual lhe foi paga a quantia muito razoável, para a época, de dois mil escudos. Melodrama convencional, descrito como um "confronto de paixões funestas e ambições desmesuradas, que culmina na barra do tribunal, onde — à sombra da justiça — se esbatem os conflitos entre o bem e o mal"5, a sua produção apresentava, segundo Manuel Félix Ribeiro6, "um gabarito muito apreciável" do ponto de vista técnico e um trabalho de actores com "excelente apuro". Conheceu exibição pública em Junho de 1925, no Cinema Condes em Lisboa.


Dada a relevância de Georges Pallu para a compreensão da nossa cinematografia, e pelas circunstâncias de uma filmografia "retalhada" por títulos perdidos, talvez se afigure premente o desenvolvimento de trabalho de investigação acerca do percurso e destino final das cópias dos seus filmes. Pese embora o processo, algo convulso, que envolveu a declaração de insolvência da Invicta Film em 1931, ainda existem réstias de esperança.

Na edição de 2 de Junho de 1931 do jornal O Primeiro de Janeiro, foi colocado um anúncio, intitulado "IMPORTANTE LEILÃO de aparelhos e máquinas cinematográficas, etc., da extinta Sociedade Invicta Film" e no qual se levava a hasta pública, entre outros artigos, "filmes completos negativos e positivos: dramas, comédias, panorâmicas e documentários". Estaria neste rol o cinema desaparecido de Georges Pallu?

Notas:
1 Sobre o trabalho de cineastas franceses que se fixaram em Portugal, recomenda-se a leitura de Lion, Mariaud, Pallu: Franceses Tipicamente Portugueses, de Tiago Baptista (org.) (2003, Cinemateca Portuguesa).
2 in Invicta Film — Uma Organização Modelar — 1917-1924, de Félix Ribeiro (1973, Secretaria de Estado de Informação e Turismo/Cinemateca Nacional).
3 e 5 in O Cais do Olhar, de José de Matos-Cruz (1999, Cinemateca Portuguesa).
4 in Breve História do Cinema Português (1896-1962) (1978, Instituto de Cultura Portuguesa).
6 in Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).

Imagens:
1 Cartaz promocional para O AMOR FATAL. Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).
2 Georges Pallu em 1945. Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).
3 Os actores Maria Clementina e António Pinheiro, numa cena de A TORMENTA. Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).

sábado, 22 de setembro de 2018

Filmes Perdidos Portugueses: O COMISSÁRIO DE POLÍCIA (1919, Georges Pallu)



Naquela que foi a terceira iniciativa de Georges Pallu para a Invicta Film, O COMISSÁRIO DE POLÍCIA assinalou, em 1919, não só a vontade da produtora portuense de estender o sucesso obtido com A ROSA DO ADRO, estreado poucos meses antes, como também serviu de confirmação para uma das tendências iniciais do Cinema Português: a adaptação literária.

No caso concreto, O COMISSÁRIO DE POLÍCIA inspirou-se numa peça de teatro satírica de sucesso assinada por Gervásio Lobato1, e levada a cena em 1890. A crítica de costumes, contraposta a um tom displicente e ao humor "revisteiro" do texto2, terá sido transposta por Georges Pallu para o grande ecrã. Essa constatação ganha maior consistência se atentarmos ao resumo do argumento, conforme publicado em algumas fontes3:

«O conselheiro Faustino, galã inveterado, com certo fraco pelas criadas de servir, é o quarto marido de D. Maria, dama austera que lhe exige todo o salário. Afim de conseguir dinheiro para as suas extravagâncias, o conselheiro passa a vida a dar à mulher jóias falsas, deduzindo dos ordenados o valor de jóias verdadeiras.
Um dia uma viúva amiga de família, D. Vicência, vai pedir uns prémios para uma quermesse e o conselheiro, ao ouvir a mulher dizer que vai oferecer umas jóias, resolve tirá-las e simular um roubo. O caso é entregue ao Sr. Pigmaleão Sereno, comissário de polícia, que vai fixar residência no andar por cima do conselheiro.
»


O "ataque" aos pecadilhos e ridículos da alta burguesia estariam, certamente, na génese de O COMISSÁRIO DE POLÍCIA. As figuras jocosas da trama foram, por sua vez, interpretadas por nomes que se tornariam em presenças habituais nas obras da Invicta Film: Duarte Silva (Conselheiro Faustino Soares), Maria Campos (Maria Soares) e Deolinda Sayal (Mulher do Comissário), tendo o papel do Comissário Pigmaleão Sereno sido entregue a Rafael Marques, actor que, apesar da sua fugaz visibilidade na História do Cinema Português, figurou nos elencos de MULHERES DA BEIRA (1923, Rino Lupo) e JOÃO RATÃO (1940, Jorge Brum do Canto).

Estreado no Jardim Passos Manuel, no Porto, em Novembro de 1919, e com uma metragem estimada de 1600 metros, pouca informação subsiste sobre O COMISSÁRIO DE POLÍCIA e, hoje em dia, não é conhecido o paradeiro de qualquer material do filme4.

Notas:
1 Sobre a vida e obra de Gervásio Lobato, recomenda-se a consulta de Uma leitura de Lisboa em Camisa: a comédia humana de Gervásio Lobato, disponível em https://run.unl.pt/bitstream/10362/10363/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Ricardo.pdf (consultado a 18 de Outubro de 2018).
2 Alguns autores adiantam que a obra de Gervásio Lobato estará na origem da revista à portuguesa, sobretudo pela sua "cáustica cronica de costumes".
3 in Dicionário do Cinema Português 1895-1961, de Jorge Leitão Ramos (2011, Editorial Caminho).
4 Em 1953, Constantino Esteves realizou um remake da peça de Gervásio Lobato, com António Silva no papel de Conselheiro Faustino Soares.

Imagens:
1 Dois aspectos de O COMISSÁRIO DE POLÍCIA. Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).
2 Georges Pallu. CinePT — Universidade da Beira Interior.

domingo, 17 de junho de 2018

O Arquivo do Dia #35 — Gago Coutinho e Sacadura Cabral



A 17 de Junho de 1922, Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur de Sacadura Freire Cabral alcançam o Rio de Janeiro a bordo do aeroplano Lusitânia, completando a primeira travessia aérea do Atlântico Sul apenas com o auxílio de navegação astronómica.

Realizado por Henrique Alegria para a Invicta Film, este pequeno documentário (carregar na imagem abaixo para aceder ao vídeo), actualmente preservado na Cinemateca Portuguesa, mostra alguns dos principais momentos da viagem e, sobretudo, a aclamação popular aos dois heróicos aviadores portugueses no Brasil.



[Fonte: Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema].
[Imagens: Wiki Commons / CinePT].